Contra O Tempo
1 Capítulo 1
"- Você pode guardar um segredo? "– foi a frase que me arrependi de ter dito. Me arrependi porque, no fundo eu sabia, aquele segredo não seria guardado. Não importava o quanto a pessoa era de confiança, no fim a história sempre acabava se espalhando.
Meu nome é Catherine Hemfort. À primeira vista, eu pareço apenas uma garota normal de 16 anos de idade, mas eu não sou tão normal assim. Eu tenho um dom especial, que descobri quando tinha onze anos. Por mais que eu tenha me acostumado com ele, muitas vezes, tenho que admitir, isso me deixa um pouco assustada. Por causa dele já tive de mudar de escola diversas vezes, por que meu segredo se espalhou e todos passaram a me tratar como uma aberração. Eu tento compartilhá-lo com o mínimo de pessoas possível, e é difícil encontrar alguém para quem eu possa confiá-lo. E agora eu teria de trocar de escola novamente, porque contei para uma amiga sobre o dom que possuo.
Eu posso ver o futuro.
E isso é o tipo de coisa que deixa as pessoas impressionadas, a ponto de quebrar uma promessa e espalhar um segredo. Eu sei que ela não fez por mal. A maioria têm essa reação, e a culpa foi minha por ter contado.
Mas o estrago já estava feito e a única coisa que eu tinha a fazer agora era esperar o sermão dos meus pais — de como eu deveria ser mais cuidadosa, que isso não é uma coisa comum e deixa as pessoas assustadas, que se trata de um poder sobrenatural e eu não posso contar isso a qualquer um e etc. – e aguardar a transferência para uma nova escola.
Eu detestava ter que me transferir para um novo colégio a cada vez que a bomba explodisse e todos passassem a me encarar como uma mensageira do além. Durante os cinco anos desde que comecei a ter as visões, mudei de escola diversas vezes, mas, por mais que eu tentasse me adaptar, eu sempre confiava nas pessoas erradas e esse meu segredo se espalhava. Mesmo que eu contasse apenas para um único amigo, que eu considerava de máxima confiança. A verdade é que eu não consigo conviver com isso só para mim. Eu preciso desabafar com alguém sobre ter esse dom, mas, apesar de todos os meus cuidados, não consigo escolher um bom confidente. Um que realmente guarde o meu segredo. Por causa disso, com o tempo tornei-me fechada, e até um pouco desconfiada das pessoas.
Agora, começaria tudo novamente: nova escola, novas pessoas... E o mesmo desânimo de sempre em saber que tudo se repetiria.
Porém, eu tinha um estranho pressentimento de que, dessa vez, tudo seria diferente.
* * *
Parte do meu pressentimento estava certa: acontecera algo que eu não esperava. A escola para onde eu seria transferida ficava no meio do nada.
Meus pais sempre me colocavam em escolas no centro, ou em bairros com residências, para que eu pudesse me enturmar. Acho que eles acabaram percebendo que essa tática não dava muito certo.
Recebi a notícia de que estudaria no fim do mundo uma semana antes de ir para lá. Talvez assim não tivesse tanto tempo para tentar convencer meus pais a não me mandarem para aquele colégio. Tive que me conformar com a idéia de estudar em um lugar extremamente parado, bucólico e a ver sempre as mesmas pessoas, porque o colégio era interno. Assim, numa manhã ensolarada de outono, meus pais me levaram até a estação de trem, para que eu pudesse me despedir deles antes de embarcar.
A idéia de ter de ir para um colégio afastado de qualquer cidade grande e fazer novas amizades era desanimadora para mim. Nunca fui uma garota de muitos amigos. Desde que comecei a ter premonições e visões do futuro pude perceber que me tornei ligeiramente mais sombria. Era por isso que eu detestava tanto esse meu poder sobrenatural: eu jamais seria uma garota normal como todas as outras. Eu era a esquisita, a bruxa, a louca. Já recebera esses e diversos outros xingamentos.
– Por favor, tente se ajustar, pelo menos desta vez. –disse minha mãe. – Já tentamos tantas escolas. E essa parece ser tão boa. Escute, daqui a dois anos você terminará o ensino médio. Tente não criar confusão, está bem? Para que você não precise trocar de escola de novo em tão pouco tempo. Sei que você detesta.
Seu tom de voz era quase uma súplica. Olhei nos olhos de minha mãe e vi como ela tinha esperança de que tudo desse certo dessa vez.
– Tudo bem. – Respondi. — Vou me comportar. Prometo.
Minha mãe abriu um sorriso e me abraçou. Depois meu pai fez o mesmo. Passados alguns minutos de despedidas, o trem chegou à estação.
Embarquei puxando minha pesada mala atrás de mim. Cheguei a um vagão vazio e sentei-me à janela. Meus pais continuavam de pé na estação. O trem apitou e começou a se mover lentamente. Acenei uma última vez e acompanhei com o olhar até que os dois desaparecessem completamente à distância. Depois suspirei profundamente e fiquei acompanhando a paisagem repetitiva a correr do lado de fora da janela.
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