Contra-Feitiço
1 Quinhentos anos
500 anos atrás, 1097.
Era uma noite escura e assustadora. A lua estava coberta por nuvens carregadas, e relâmpagos rompiam o silêncio afiado a cada exatos seis segundos. No terceiro, algo explodiu. O barulho percorreu o bosque e até os espectros de corvos se assustaram e revoaram. O pavor estava no ar, incindindo com o horror nos olhos de Jamie e Ivy. Os olhos gêmeos, azuis como o céu em dias perfeitos perderam sua cor, de puro medo e ansiedade.
A brisa fazia os cabelos de Ivy dançarem no ar, acompanhados pelos do irmão, que cobriam as orelhas e desciam até o queixo. O bosque parecia cada vez mais assustador: as copas das árvores eram muito altas e agudas, e olhando de baixo, pareciam nunca se mover. As folhas secas e desbotadas no chão não faziam qualquer barulho, mesmo quando pisoteadas e carregadas pelo vento. As corujas que se contorciam nos galhos dos pinheiros pareciam espantalhos, sem se mover ou fazer qualquer barulho, apenas encarando os dois irmãos no meio do nada com olhos profundos e negros.
Ivy deslizou a mão até o pulso de Jamie e o puxou enquanto caminhava, arrastando os pés pelas folhas secas. Uma caverna era visível atrás de algumas árvores, esculpida artisticamente por magia negra. Jamie hesitou, mas logo desistiu de tentar parar a irmã quando ela o soltou e caminhou até a caverna, friccionada com a sua luminosidade e formatos aconchegantes. Jamie fitou a gruta com mais atenção, e percebeu porque sua irmã estava indo até lá totalmente desligada do mundo exterior: não era uma caverna, mas sim um chalé com tochas acesas em seu interior, coberto magicamente por uma montanha. Aquilo era magia, Jamie teve certeza. Na porta do casebre de madeira, havia um homem, ou quase um homem. Tinha no mínimo um metro e noventa e olhava convidativamente para Ivy, convocando a garota com as mãos para entrar na residência. Jamie correu atrás da irmã, assustado pelo tipo de magia daquela criatura. Nunca vira nenhum encanto tão poderoso que conseguisse encantar Ivy daquela forma. Afinal, foram treinados para resistir a diversos feitiços e encantamentos, e quase nenhum tipo de magia os afetava, mesmo com tão pouca idade.
Alcançando a irmã, Jamie enlaçou o pulso de Ivy e prosseguiu até o feiticeiro junto com ela, pois sabia que não iria adiantar arrastá-la. Sob efeito de um feitiço, ela seria obviamente mais forte e rápida que ele e o arrastaria também, o que o fez segui-la por si só. O feiticeiro estendeu as mãos para os dois e Ivy apertou uma, Jamie a imitou e apertou a outra mão do homem. Ele tinha a pele muito fria e dedos esguios, com unhas longas e pontudas que arranhavam somente de esbarrar, como garras de um animal feroz e pronto para dilacerar sua presa. Trajava um robe preto e longo que caía como respingos de água suja até os seus pés, luvas sem os dedos de couro verdadeiro e botas também de couro, que iam até os joelhos, marcando o robe. Ao levantar os olhos para fitar o feiticeiro, Jamie percebeu que ele tinha olhos totalmente pretos, como buracos negros feitos para devorar galáxias em um mínimo instante, um nariz pontudo e pequeno. Seus lábios eram grossos e suas orelhas eram muito pequenas e triangulares, com uma ponta aguda em cima. A pele no rosto era tão pálida quando nas mãos, e marcas cobriam suas bochechas e na testa, algo estava escrito em uma letra desforme e torta, como a obra de alguma besta.
– Potentia est mihi? — Jamie indagou, observando a testa do feiticeiro. Ele o encarou ameaçadoramente, abrindo os lábios para falar. Seus dentes eram pontiagudos e sujos. Da sua boca, o odor era tão forte que provocou em Jamie uma ânsia de vômito profunda, e ele sentiu o gosto de bile invadir sua boca, e não conseguiu esconder sua cara e nojo.
– Quer dizer: O poder é nosso. — após sibilar, o feiticeiro sorriu, cerrando os olhos. Seus cílios eram pretos e tocavam as bochechas enquanto ele falava, o que de alguma forma o parecia fazer familiar para Jamie. Jamie concluiu que era mesmo um feiticeiro, e pelas marcas no rosto, era um ancião.
– Não, não quer. Está escrito "o poder cabe a mim". Você é o líder dos anciãos. — os treze anos de Jamie não o faziam menos sábio que algum adulto. Ele se dedicava tanto ao saber quanto sua irmã se dedicava ao combate. Com certeza, saberia vencer uma briga somente com palavras, e já sua irmã, sequer esperaria uma resposta para quebrar o nariz de alguém. — O que quer conosco?
– Não quero nada convosco, quero algo com ela. — o olhar entretido do feiticeiro se amplificou quando observou Ivy, com os olhos vidrados na janela. Parecia lutar interiormente contra o encantamento, mas era vão, já que o líder dos anciões era o mais poderoso de todos, e praticamente nada quebrava seus feitiços, somente o tempo, o inegável, o implacável e inestimável tempo.
– Não entendo o porquê. Nosso dever é combater seus lacaios que quebram as regras, e você não pode e nem deve intervir. Sabe que quem faz o mal, com o mal será punido. E esse mal é a morte. — Jamie estava torcendo para as palavras saírem firmes como desejaram, e conseguiu. O feiticeiro arregalou seus olhos negros e, com a mão livre, ergueu o queixo de Jamie, que estremeceu com seu toque. — E eu ainda acho pouco. — rosnou, se livrando da mão do feiticeiro com um aceno com a cabeça. Fixou os olhos firmes nos vazios do feiticeiro, demonstrando sua coragem.
– Ah. Vamos, entrem os dois. Se não posso ter só um, posso ter dois. — ele sorriu e exibiu seus dentes podres e fétidos outra vez, estalando os dedos. A porta escancarou e Ivy entrou, sem fazer qualquer barulho ou sinal de hesitação. Jamie correu atrás dela, com o feiticeiro logo atrás, e o robe dançando com a brisa que entrava pelo vão da porta, e esta se fechava com um estrondo. Seu queixo caiu quando observou tudo ali dentro: não era o típico lar de um feiticeiro, e muito menos o que ele esperava de um ancião. Dezenas de estantes eram uma decoração e tanto, pensou, quando girou os olhos pelo local. Haviam estantes para todos os lados, e no fim, havia um livro desenhado em um quadro com moldura de ouro maciço. Logo a frente de Jamie, pairavam três poltronas vermelhas e desbotadas, formando um triângulo em volta de um caldeirão cheio de um líquido marrom, borbulhando.
– O que você quer dizer com "ter" um de nós? — os três continuaram andando na direção do centro do cômodo, quando o feiticeiro ofereceu uma poltrona para Jamie se sentar. Ivy sentou sem qualquer ordem, fazendo o feiticeiro sorrir como se tivesse vencido uma luta para Jamie. Hesitando, o garoto também se sentou em uma cadeira, e o feiticeiro seguiu até um pequeno armário ao lado da estante mais próxima, retirando um conta-gotas com um líquido esbranquiçado dentro e duas xícaras de louça, beges e sem nenhum adorno ou pintura como decoração.
– Eu desejo um combatente para mim, e sua irmã era apta para tal excelentíssimo cargo. Ela possui a destreza e a sagacidade necessária para os meus fins. E isso não é contra as regras, uma vez que entraram no meu bosque sem a minha permissão. As regras dizem que tudo que entra em meu território pode ser meu conforme minha vontade. Se eu não os quisesse, os mandaria embora. E pensei que você seria inteligente o suficiente para partir e só me deixar com sua irmã. Você era mais valente do que esperei, e julguei que também pode me ser útil. — parecia cuspir as palavras com ódio, mas sem demonstrar expressão. Ele retornou para o centro e colocou as xícaras em uma pequena mesa de madeira de carvalho ao lado do caldeirão, onde abaixo, o fogo queimava a lenha com voracidade e raiva, estalando alto enquanto a consumia. Alcançou uma concha e serviu as xícaras com o líquido verde do caldeirão, deixando as xícaras negras. Pingou duas gotas do líquido branco do conta-gotas em cada uma delas, transformando a coisa marrom em algo parecido como chá de hortelã. Jamie arregalou os olhos quando o feiticeiro ofereceu uma xícara para sua irmã, e ela pegou e bebeu tudo em um gole, sem se preocupar com o que estivesse ali. Os olhos de Ivy brilharam em prata, e ela pareceu enrijecer. O feiticeiro se voltou para Jamie e ofereceu a outra xícara para ele, e o menino recusou. O feiticeiro exibiu os dentes em um sorriso forçado e jogou o chá no rosto de Jamie. O chá pareceu criar vida e deslizou pelo rosto do garoto como se tivesse criado vida e entrou forçadamente pelos seus lábios e parou em sua garganta, obrigando Jamie a engoli-lo.
– Ótimo. — rosnou o feiticeiro. — Et factus est mihi. Et cum mihi semper in mea. Prohibenda autem in contrarium solum alica dextera.– ele completou, e os olhos dos dois irmãos brilharam em prata. E desta forma, foram aprisionados no bosque do feiticeiro ancião até que o contra-feitiço fosse descoberto e realizado da mesma forma que o feitiço outrora foi feito.
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