Contra-Feitiço

2 O destino cabe a nós


Anos atuais, 1597

Passaram-se quinhentos longos anos desde que os irmãos Lewis foram aprisionados como lacaios boçais de um feiticeiro muito poderoso, e o contra-feitiço não estava escrito em páginas amarelas e empoeiradas, nem oculto em uma mente mais sábia. O contra-feitiço pairava no ar, intangível, intocável, invisível. E foi assim que o laço entre o feiticeiro e os dois irmãos foi desfeito: foi obra do tempo. A espera é angustiante, porém, extremamente eficaz.

Ivy e Jamie estavam de volta no bosque, onde se lembravam. No centro de tudo, numa noite fria novamente. Era tudo como estava antes. A brisa suave fazia seus cabelos dançarem como uma valsa embalada por um ritmo lento e contagiante. As folhas ainda eram secas e silenciosas. A copa das árvores pareciam inacabáveis, e a gruta atrás destas, não estava mais lá. Os irmãos varreram o local com os olhos curiosos e não mais medrosos como outrora foram. Ao passar pelos seus pés, viram um rolo de pergaminho entre eles. Curiosa, Ivy se agachou e apanhou o pergaminho. Ela removeu o laço azul e o esticou. Jamie apanhou uma adaga prateada no seu cinto e ergueu sob a luz da lua, projetando uma fraca luminosidade sobre o pergaminho, permitindo a leitura do texto escrito com letras tortas e desgrenhadas pela sua irmã.

– Latim. — disse Ivy, enquanto tentava decifrar o texto. Suas memórias rodopiavam em sua mente, até que ela fisgou suas lembranças relacionadas ao latim. Recitou lentamente, como se não lembrasse como falava.

Vocês estavam aqui, há quinhentos anos atrás. Eu os trouxe para cá, e eu os mandei de cá. Foram-me muito úteis durante os anos que passaram me servindo, e sou genuinamente grato por tudo o que me possibilitaram fazer. Peço desculpas pelo inconveniente de não poder lhes deixar as lembranças, mas eu queria. Deixo esta carta para que saibam que eu não era o feiticeiro mais forte, e nem sou, e talvez ninguém que conheçam seja, mas eu conheço e os uni a mim para que tudo desse certo e durante estes quinhentos anos, eu fui o mais forte e mais poderoso.

Há uma causa maior para que eu os usasse e os selasse no tempo, para que pudessem retornar às suas vidas assim que sua missão acabasse. Como sabem, a vida de um feiticeiro é limitada à magia que realiza, e eu a utilizei em demanda máxima.

Existe um outro feiticeiro, ainda não sei seu nome. Mas ele almejava a imortalidade, e a obteve. Eu não sei como e nem porque, mas conseguiu. Realizou os mais cruéis e indesejáveis meios para ambos os lados; submundo e superfície, para tê-la.

Implantei em vós o meu poder, e assim terão o suficiente para que possam, talvez, conseguir deter este poderoso feiticeiro. Ele usou o mais proibido de todos os feitiços, o mais terrível e o mais perigoso para tudo e todos.

Ele paralisou o tempo.

Peço somente que o encontrem e o detenham, ou tudo pelo que seus ancestrais lutaram e também os meus, estará perdido.

O propósito de eu remover minha própria vida para inserir meu poderio em vocês é que, nenhum de sua espécie sobreviveria a ficar paralisado no tempo, e por isso, todos se foram, e somente vocês ficaram. Eu queria somente Ivette, porque ela tem em sua mente como derrotar qualquer male. Me enganei. Eu precisava dos dois, e por sorte, obtive os irmãos.

Com atenção e gratidão,

Licenvgis.

Foram destinados à uma missão, e a esta teriam que dedicar suas vidas, seguindo o código dos caçadores. Obtinham o maior poder que qualquer um de seus ancestrais pudesse suportar, e obtinham a maior responsabilidade que já houvera em todos os tempos. Em suas mãos, estava o destino.

Ivy ergueu-se novamente e observou Jamie. Ele estava diferente, mas ainda sim era familiar. Tinha barba e sua feição era mais velha. Seus olhos azuis esbanjavam vida. Ela o fitou por alguns segundos, armazenando cada novo detalhe do rosto do irmão em sua mente: tinha uma barba rala, seus lábios continuavam finos, mas eram maiores e mais vermelhos. Suas maçãs faciais tornaram-se mais angulosas e volumosas, e seu nariz continuava pequeno e pontudo. Seus cabelos ainda iam até o queixo, mas eram mais negros do que antes foram.

Jamie tirou a adaga da luz lunar, entregando para a irmã. Ela colocou a adaga rente ao rosto e observou o seu reflexo por partes. Seu nariz era anguloso e suas maçãs faciais acentuadas. Seus olhos azuis formavam contraste com a pele pálida e luminosa, destacando os cabelos pretos e longos. Seus lábios eram finos e seu queixo, pontudo.

Eles haviam mudado, haviam crescido, haviam amadurecido. Agora, eram adultos. Destinados a um único propósito. Os devaneios foram interrompidos quando a fita azulada foi lançada pela brisa gélida até a adaga de prata reluzente, e foi visível uma tira de letras contorcidas no pequeno tecido.

– Avancei suas idades cronológicas para que pudessem ter mais chances de vitória. Em um futuro breve, saberão o propósito. — Jamie leu, com a voz mais grossa, porém, ainda assim suave. Ele olhou de soslaio para sua irmã, e correspondeu o seu sorriso branco e brilhante com outro tão belo quanto.

– Você ficou mais bonitão. — disse Ivy, e os irmãos caíram na gargalhada. Ivy ofereceu o braço para Jamie enganchar, ele ele o fez. Caminharam para fora do bosque, livres de qualquer encanto, carregando um pergaminho e uma fita. Se perderam na escuridão da noite, prontos para a batalha, prontos para vencer, prontos para viver.

Assim que saíram da floresta, a lua brilhou distante. As copas sumiram atrás deles, e estavam no meio de um grande vilarejo. Os pedregulhos no chão estavam cobertos de sangue fresco, e bestas e feiticeiros corriam para todos os lados, mutilando, matando e torturando as pessoas. Crianças tentavam escapar e eram pegas. As que conseguiam, se refugiaram debaixo de uma ponte, submersas no lago próximo ao bosque. Os berros de horror das mães ao verem os filhos morrerem e o sangue ser derramado aos seus pés causavam calafrios em qualquer um que tivesse um coração.

Ivy deslizou sua mão fria até o cabo da adaga, presa em sua bota e a levantou. A luz da lua foi refletida para todos os lados, e a pequena arma se amplificou, tremeluzindo sob o luar. Transformou-se em uma longa espada de combate. Ela olhou para Jamie, que repetiu seu gesto. O reflexo da lua e das lâminas gêmeas inundou o cenário de batalha, atraindo a atenção das bestas e feiticeiros.

– Acho que temos uma nova missão. — Ivy piscou para Jamie e seguiu para a multidão, decepando cabeças de feiticeiros e bestas que ousavam cruzar o seu caminho. Sua lâmina brilhava pela fraca luz da lua, e Jamie se fascinava com a forma qu sua irmã combatia. Juntou toda a coragem que tinha e avançou na multidão, cortando as bestas ao meio até conseguir se aliar à sua irmã.

– Está de parabéns, até. Que milagre você lutar. — Jamie olhado para a irmã que sorria e sibilava para ele, cortando os feiticeiros e defendendo dos seus feitiços com exímia habilidade, sem se preocupar com mais nada.

– Eu sempre lutei, mas não como você. E agora entendo porque você gostava. Isso me faz bem, me faz me sentir vivo. — ele forçou um sorriso e retornou à luta. A noite caía e o por do sol de levantava. A luz das lâminas ainda era intensa, e atraía a atenção para a batalha de cada vez mais membros do submundo, que pareciam ser infinitos. Mas os irmãos ainda tinham energia para mais, muito mais que o infinito.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.