Contra Fados Há Argumentos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
O COMEÇO DO DESFADO.
— O carro está ali! — ouço Fabrício gritar de algum lugar enquanto arrasto as malas pela calçada do aeroporto.
Tento me concentrar em não atropelar algumas crianças indefesas que não tem culpa das minhas rodinhas terem ficado extremamente ressecadas dificultando um fácil traslado. Agora mais parece que estou percorrendo a cordilheira dos Andes do tanto que a mala insiste em empacar pelo caminho.
Esta mala aliás deveria estar se esforçando bem mais depois de tantas memórias que já vivemos juntas. Os inúmeros arranhões e adesivos colados na superfície metálica transparecem as nossas marcas de guerra.
Em minha defesa fazia algum tempo que eu não viajava de avião. Todo o processo de apresentar passaportes, colocar a mala na esteira e aguardar o portão de embarque atualmente conseguem durar uma eternidade. Um sentimento bem diferente do aspecto mágico da versão que eu consumia pequenina no decorrer da infância.
A chegada das férias não eram aguardadas com ansiedade pelas tardes morosas. O desejo maior era a liberdade das idas ao aeroporto para as mais variadas chegadas e partidas. Meu pai me levava até o último andar e nos colocávamos colados no vidro aspirando o ar condicionado como se estivessemos a inalar a fumaça das turbinas distantes dos aviões no trem de pouso. Ele costumava me explicar sobre os propulsores e traçava no céu o caminho que o pássaro de metal faria em instantes. Depois eu ganhava um abraço apertado, qualquer coisa que eu quisesse comer do café e um adeus choroso que parecia insistir por horas. Meu pai pegava sua mala e sumia no portão de embarque com seu uniforme azul desaparecendo em distância.
Eu voltava correndo para observar os aviões. Minha mãe costumava me indicar qual era o dele e eu acenava orgulhosa como se papai fosse capaz de me enxergar da sua cabine.
Agora, no entanto, eu precisava fazer com que Fabrício não me perdesse de vista.
— Estou indo! — brando para Fabrício em resposta ao seu chamado. — Quase aí!
Fabrício não está mais nenhum pouco interessado em mim quando chego ao seu lado. Na verdade, ele está ao telefone muito mais concentrado em reclamar de algo relacionado a uma má lavagem do seu sofá. Aparentemente a empresa levara o móvel cor de beterraba e trouxera o mesmo em cor de uva. Na minha visão isso é de fato um tom pra lá de preocupante porque as uvas têm diversas colorações. Seria a roxa, ou seria a verde? Ou estaríamos falando da matiz confusa entre o momento de amadurecimento da fruta? Ali, nem ela mesmo sabe o que é! Ele finalmente desliga e olha pra mim impaciente batendo os tênis acolchoados no chão. É, talvez seja melhor não perguntarmos sobre cores de uvas no momento. Ao menos devo procurar manter os bons humores após essas 8 horas de voo.
— E então? — ele me indaga abaixando a cabeça enquanto coloca seus olhos grandes na minha testa.O quê?Onde estão os outros?E eu lá sei! — respondo erguendo os braços para o alto em oposição. — Devem ter sido parados pelos fãs, não é?
— Ah, de novo?! — ele grunhe tão alto que alguns rostos transeuntes nos percebem ao passarem por nós. — É nesses momentos que eu agradeço ser “só” o diretor. Não aguento que falem mais que duas palavras comigo que já sinto a onda de náuseas subir minha barriga. Pelo menos você disfarça bem a antipatia.É uma das habilidades que me restaram dos palcos, Téo. Aliás, preciso de outro Dramin.
— Você acha uma boa? Você já tomou uns três. — ou mais. — Eu li que esse tipo de coisa pode subir a pressão se a gente tomar demais, sabia? E você não bebeu no voo?
Esta não é exatamente uma pergunta. Eu sei que ele bebeu no voo, até porque bebi com ele. Costumo dizer que nunca se deve recusar vinho em hipótese alguma! O que considero ser a única regra válida a se seguir em qualquer situação. Livros de autoajuda por exemplo pra mim são uma baita perda de tempo, mas se eu visse em algum deles esse tipo de sugestão o autor teria automaticamente o meu respeito e seria recomendado como se tivesse obtido o último prêmio Pulitzer. Vinho não é brincadeira!
— Eu sou um homem de 55 anos, Teodora. Acho que eu sei a quantidade certa que meu corpo aguenta de medicamentos lícitos. E dos ilícitos também.
Fabrício Scarpa é diretor de novelas há 25 anos e não é a pessoa mais fácil de lidar por conta de seu humor dissonante. Felizmente, eu sempre tive um sexto sentido para entender os seus picos de humor e meu jeito pareceu lhe ganhar desde que nos conhecemos. Não foi pra lá a minha melhor apresentação... Estávamos na fila do caixa de uma farmácia quando surgi puxando o celular do bolso e lendo as páginas da novela que estava escrevendo. Ele me ouviu com uma expressão incrédula de: alguém tire essa moça desta farmácia agora! Ela não precisa de remédios e sim ser internada!
A situação toda foi tão bizarra que me surpreendi quando ele pegou sua sacola de compras da atendente e não a jogou direto contra minha cabeça. Não, ele saiu andando, olhou pra trás e perguntou:
— Você vem comigo, ou vai ficar zanzando aí?
Eu precisava ficar ali por pelo menos dois segundos a mais, pois tinha entrado na farmácia para comprar alguns absorventes emergenciais e não seria muito prudente não os passá-los no caixa antes de seguir viagem.
O semestre anterior àquele encontro inesperado com este célebre diretor de novelas tinha sido um processo de liberação sexual pra lá de intenso na minha vida. Eu costumava falar “meu corpo, meu templo de prazer” enquanto me permitia transar com rapazes sem a preocupação se me ligariam no dia seguinte. Infelizmente, a tal fase depravada resultou em duas escapadas sem a devida proteção e daí duas pílulas do dia seguinte. A preocupação de uma possível gravidez indesejada até sumira, mas em compensação a carga de hormônios foi tão maluca em meu organismo que passei meses sem menstruar.
Pensando agora talvez toda aquela aflição não valesse a pena por duas noites de amizade colorida com o que seria atualmente um dos piores políticos do país, mas pobre de mim! Na época eu não teria como saber que ele viraria um tucano liberal.
Não, nos meus 24 anos a maior preocupação estava sendo esperar que minhas calcinhas fossem abençoadas com alguma mancha vermelha surpresa, ou como estou habituada a falar “Cair nas graças do comunismo”. Eu não imaginava que isso fosse acontecer em meio de um almoço familiar pelo Leblon, porém a comemoração foi uníssona já que eu tinha passado os últimos dias chorosa, reclamando de dores nos seios e todos os costumeiros sintomas da temida, ou melhor, aclamada TPM. Quando percebi que aquilo era a hora da minha regra voltar e eu cair nas graças do Comunismo parti para a farmácia mais próxima onde Fabrício Scarpa comprava alguns ansiolíticos, além de um picolé de chocolate branco.
Três anos, e duas novelas, depois estamos em Lisboa promovendo o nosso último trabalho juntos: Esquerdas e Direitas. Foi um grande sucesso e a televisão local vai exibi-la no horário nobre. Alguém me comentou que pode ser a volta do poder brasileiro na grade portuguesa, mas como não me lembro quem foi a bendita boca que me disse isso esta lembrança pode ser só uma forma de acariciar o ego.
— Ah, finalmente! Ali estão eles. — Fabrício exclama apontando para as portas de vidro da qual Igor e Mariana vem caminhando se despedindo de um grupinho com quem tiraram uma selfie. — É, eu não tenho mesmo essa maturidade. Tenho uma ordem de restrição judicial contra todos os meus ex’s.
Permaneci em silêncio observando os dois se aproximarem. Eles realmente parecem combinar… A estética é confortável aos olhos. O Ken e a Barbie do Brasil.
— Desculpe. Eu esqueci.
— Não precisa se desculpar. — reviro os olhos com a voz baixa. — Isso já faz muito tempo.
— É, mas continua sendo ele… E ela.
Eles estão perto.
— Depois falamos disso!
— O que estou querendo dizer é que viajar com o seu ex não deve ser fácil e…
Pelo amor de Deus! Eles estão quase sentados em nossas caras! Porque ele continua falando?
— Cala a boca. Cala a boca. Cala a…
— Você realmente tinha se apaixonado pra valer e...
Será que Fabrício perdeu a visão de repente e não consegue ver pessoas A UM PALMO de distância?!
— Está sendo muito madura também nessa situ...
— AAAAH! QUE ÓTIMO VER VOCÊS! — eu grito quando Igor e Mariana chegam ao carro.
— Nós viajamos juntos. — Mariana diz parecendo confusa.Sim, mas parece que faz mais tempo. O fuso horário, sabe?
Ela concorda com um sorriso curto e se volta ao motorista me ignorando por completo.
— Também é ótimo ver você, Teodora. — Igor fala me dando um abraço que eu automaticamente desejo que ele não o tivesse feito. Meu corpo não reage muito bem ao corpo dele. É quase uma reação alérgica que a consequência é eu querer socá-lo no meio da fuça.
— Tava com saudade da sua empolgação!
— Essa sou eu! Teodora, a empolgada.
Ele ri e eu sinto o olhar de Fabrício pulsando em minha direção. Ah, agora ele está enxergando alguma coisa, não é? Mas que baita palhaçada!
— Foi mal a demora. — Igor continua entregando também a sua mala para o motorista. — Nós tivemos que fazer a social. Não é todo dia que me reconhecem em outro país.
— Ora, Igor, faça-me o favor. Lisboa não é outro país. Aqui é igual Miami! — Fabrício ralha revirando os olhos afetadamente. — Você se perde no GPS e aparecem dez brasileiros para te indicar o caminho. Vamos entrar no carro que minhas costas estão me matando.
Fabrício entra no banco da frente do sedan preto, Mariana ocupa a ponta no banco traseiro e o que me resta é a triste tarefa de preencher o lugar entre ela e Igor. Abraçada a minha bolsa tira colo eu respiro fundo pondo meus fone de ouvidos tentando evitar ao máximo que os braços deles encostem nos meus.
— Como é pra você voltar pra cá? — Igor me pergunta pondo os olhos castanhos em mim e forçando que eu tire a atenção do celular.
— Ainda não sei. Faz alguns anos.
— É, é que eu lembrei que você morou aqui.
— Você morou aqui, Teodora? — Mariana se vira na minha direção com seus cabelos assegurados pela Pantene balançando no ar e fazendo todo o carro se preencher com um perfume que eu preciso admitir… É delicioso.
— Sim, morei. Por alguns meses quando ainda estava na faculdade. Fiz um intercâmbio daqueles acadêmicos.
— Ah, sim. A novela dela dos fados foi inspirada num romance que ela viveu aqui, Mariana. A mulher não perde uma oportunidade de nos fazer chorar. — diz Fabrício do seu banco privilegiado e distante. Como eu queria estar nesse banco privilegiado e distante.
— Mesmo? Eu tive um amor de inverno. — expliquei sem muito ânimo. Não esperava uma sessão de terapia a essa hora da manhã. — Não foi bem um amor de verão porque não vim no verão. Quando voltei a única coisa que me fez superar aquela paixonite foi escrevendo seiscentas páginas.
Era obviamente a coisa mais óbvia a se fazer. Isso, ou beber. E sou muito apegada a vinho, então ainda bem que decidi escrever ou poderia ser uma alcoólatra hoje em dia.
Sim, uma novela inteira que ela resolveu ler pra mim no meio de uma farmácia.
— É, é verdade, mas em minha defesa eu só li 10 primeiras páginas naquele dia.
— Que pareciam mil. Você não parava de falar!E ele ainda mora aqui? — Igor questiona com sua atenção presa à janela.
— Quem?
— O seu amor de inverno.
— Ah, eu não sei. Faz muito tempo que eu não vejo nada dele. Agora deve estar provavelmente casado e com três filhos.
— Ah, mas e se não estivesse? — Mariana insiste numa euforia repentina. — Seria romântico, não é? Você reencontrá-lo por aqui? Imagine só! Daria uma sequência maravilhosa!
— Nós não fazemos sequências, Mariana! — Fabrício esbraveja fazendo voz grave retumbar por todos os cantos do carro a nossa volta. — Tire essa ideia estapafúrdia da sua cabeça. Aposto que os fãs iriam adorar e o Gabriel Azevedo também. Essa novela fez ele virar um sucesso estrondoso no Brasil interpretando o português que todas as mulheres se apaixonaram.
— E o fez virar um insuportável também. — Igor complementa fazendo uma careta.
Gabriel Azevedo fora a estrela da minha primeira novela interpretando Martim, o mocinho conturbado e mulherengo. Loiro, alto e português ele chegou no estúdio tímido e solícito com todos. Acho que nunca fui tão bem tratada por alguém na minha vida.
O sucesso que ele e a novela fizeram foi tão grande que em três meses o homem estava em todas as capas de revista do país, estava à frente da dança dos famosos do Faustão e fazendo propaganda para a P&G. Não obstante ele passou a não cumprimentar ninguém pelo estúdio.
De fato a novela foi maravilhosa. Eu sou talentosíssimo. — Fabrício afirma estufando o peito como um pombo pomposo.
— E extremamente modesto. — complemento lhe dando uma piscadela irônica.Somos dois, querida. Somos dois.
— Teodora é uma das melhores autoras que eu já vi.
Não consigo evitar um sorriso. Igor sempre soube me elogiar.
— É, ela é sim. E é por isso que os portugueses vão amar Esquerdas e Direitas. — Mariana diz cheia de expectativa apertando minha mão de forma simpática.
— Assim esperamos, Mariana. — respondo tentando não soar esquisita. — Assim esperamos.
Portugal é um país incrível! Não só pelos seus prédios históricos, mas principalmente por seus idosos históricos capazes de subir ladeiras diariamente sem derrapar. Eu mesma tinha o costume de cair pelo menos duas vezes semanalmente quando morava aqui anos atrás. Acho até que as pessoas do bairro já estavam acostumadas a me verem jogada e por isso pararam de me ajudar a levantar. Deviam pensar que era algum tipo de performance artística.
Bom, depois de ver o Avenida Palace das janelas do carro talvez os prédios históricos tenham passado a ganhar novamente dos idosos. A estrutura antiga se destaca mesmo na baixa lisboeta com seu edifício datado do século XIX. O vislumbre imponente me hipnotiza quando descemos do carro na Rua 1 de Abril. É aqui mesmo que vamos ficar? Será que o motorista não errou o caminho?
Teodora, pegue sua mala logo de uma vez. — Fabrício reclama me tirando dos meus devaneios.
— Acho que tem algo errado, Fabrício.
— O quê?
— Com o hotel. — eu cochicho me aproximando dele o máximo possível para que o casal não me ouça.
— Mas esse hotel é perfeito, Teodora! Não vá me dizer que você não gostou!
— Você não gostou do hotel? — Mariana me pergunta arregalando os olhos. Qual a necessidade que ela tem de se meter em tudo?
— Não é isso. — explico voltando-me dela pra Fabrício. — Você tem certeza que vamos ficar aqui? Aqui deve custar milhões!
— Somos estrelas, querida. Agora sorria e aproveite.
Sigo o grupo lobby adentro na imensidão neoclássica. Um lustre gigantesco chora cristais por cima de nossas cabeças acima exatamente de um sofá vermelho circular. Se a aparência não fosse suficientemente vaidosa a mobília ainda era adornada com um vaso de flores primaveris. O piso de granito assemelhava-se a um jogo de xadrez com quadrados que alternavam-se em preto e branco me fazendo ter uma leve vertigem se o mirasse por muito tempo.
No lado direito o balcão principal nos aguarda e fazemos rapidamente o check-in com o recepcionista. Recebemos nossas chaves e como as próprias peças de xadrez nos dispomos a caminhar pela entrada acompanhando o mensageiro que nos recebeu na porta. O homem de modos corteses que se chama “Ivo”, como leio numa plaquinha em seu peito, começa a pegar nossas malas e colocar num carrinho dourado. Ao terminar ele faz um meneio com a cabeça indicando que nós o acompanhemos. Dentro do espaço seguinte o luxo parece dobrar com tapetes, veludo e luminárias surgindo por todos os lados. Observo os outros hóspedes, que relaxam pelo lugar, esperando encontrar a Meryl Streep sentada num dos sofás, mas isso infelizmente não acontece.
Vou tomar um banho demorado e comer um sorvete. — Fabrício me murmura massageando suas próprias costas.
— Ai, eu também… Estou me sentindo como se tivesse assistido um parto. Não realmente tido um parto porque aí eu provavelmente não estaria nem andando.
Fabrício fica imóvel por um instante me fazendo esbarrar em suas costas. Massageio meu ombro que começa a doer. Provavelmente mais tarde eu encontraria um hematoma ali.
— Ai! O que foi isso?
— Você vai ficar no hotel?
— Como assim? É claro que vou! Não sinto nenhuma parte do meu corpo.
— Tiago tinha me dito que você tinha uma entrevista na rádio RFM quando estávamos alinhando a agenda.
— Na o quê?!
Automaticamente sinto o topo da minha cabeça esquentar. Tiago é meu agente — e sim, pasmem! Roteiristas também precisam de agentes — que de cinco tarefas tende a me trazer complicações nas cinco.
— Na r á d i o R F M. — Fabrício me soletra pra mim como se eu tivesse algum problema de cognição.
— Eu vou matá-lo. Juro, Fabrício. Agora ele papoca.
— Não seja tão dura com ele! Ele é uma gracinha.
Tento achar meu celular na bolsa tira colo pelo resto do trajeto enquanto Ivo vai nos conduzindo pelos quartos. Ficamos todos no mesmo andar, nos despedimos e entramos em nossos novos aposentos. Estou tão concentrada na busca do aparelho nas minhas coisas que só consigo perceber a suntuosidade do cômodo depois que o encontro.
A cama gorda canta em minha direção e eu me jogo em cima dela. Ouço a voz do meu irmão Jaime distante. Provavelmente ele teria gritado “SUAS ROUPAS ESTÃO TODAS CONTAMINADAS DE AEROPORTO, TEODORA!”, o que me faz sentir um arrepio e remover as peças jogando-as no chão. Não que isso seja mais organizado, mas ao menos foi uma iniciativa para resolver o problema e ele não está aqui pra reclamar disso também.
Pego novamente o celular, cadastro a Wi-fi do hotel e logo ligo para Tiago pelo Whats-app.
— Oi, Téo! Como foi o voo? — ele me pergunta a atender. O sinal está péssimo, mas consigo entendê-lo.Tiago, como você me arruma uma entrevista pra hoje?!
— Ora, eu lhe disse. Tá na sua agenda, viu?
— Quando você colocou na minha agenda?
Há um silêncio.
— Foi ontem, MAS é uma oportunidade muito boa. Você vai gostar! O programa é bem famoso por aí.
— Mas logo hoje, Tiago? Eu tô morta! Queria ter um tempo de descansar.
— Que horas são aí?
— Aqui? Deixa eu ver. — na mesa de cabeceira um relógio de ponteiro indica alguma hora. Sempre tive dificuldade pra ler, então bato uma foto e lhe envio por mensagem.
— Que isso? Tu me mandou a foto do relógio, foi?
— Eu não sei o que isso quer dizer!
— Teodora, só tu mesmo. — ele dá uma gargalhada gostosa. Não sei porque a graça. Isso é uma dificuldade real! Imagina se eu fosse disléxica? Tudo bem que não sou, mas poderia ser.
— Pronto, você tem um tempinho. A entrevista é só daqui uma hora.
— UMA HORA?! Cê tá louco, Tiago? Como vai dar tempo? Eu tô acabada!
— Perfeito! É no rádio, Téo. Só a repórter vai lhe ver destruída.
Uma hora depois estou metida numa rádio. Me apresentei na entrada e logo me levaram pro estúdio correto. Estou sentada num sofá esperando ser atendida e o rapaz que me conduziu sumiu por aí. Meu rosto está um desastre com olheiras e manchinhas de uma limpeza de pele que eu teimei em fazer na semana anterior. Me deram uma água que eu bebi rapidamente e o copo está servindo para que eu olho para a sala por entre o vidro do seu fundo.
Alguns minutos depois ele ressurge acompanhado de uma mulher de uns 40 anos. Ela tem os cabelos castanho alourados presos num rabo de cavalo apertado e olhos pequenos com aparência de cansados.
— Mas nós vamos receber a autora? — ela pergunta pra ele possessa e ele me dá uma olhada de canto provavelmente tentando indica-la que estou ali. É. Ela não entende. — Eu estava a pensar que seriam os atores! Quem é que queres ouvir a roteirista?
— Nós estamos fazendo bastante sucesso, viu? No twitter não nos deixam em paz. — digo fazendo-os olhar na minha direção. — Os autores, no caso.
— Prazer, Hortênsia Rosário. — ela me cumprimenta a distância sem jeito. Uma baita situação desconcertante. Perfeita para uma entrevista.
— Teodora Ilha.
Os dois entram no estúdio, fecham a porta e continuam a discutir pelo vidro da janelinha na madeira do portal. Eu não a culpo. Não pareço de cara ser mais interessante do que o ex casal de atores promissores que possam estar tendo uma reconciliação na romântica terra do bacalhau. Não, eu sou só a autora.
A porta se abre e o homem sai de lá sem querer me olhar no rosto.
— Podes entrar. Já vamos começar.Bacana! Vou lá, então.
Dentro da caixa de ovo do estúdio eu sou indicada a sentar numa cadeira acolchoada e colocar fones de ouvido daquele grandões de antigamente. O faço e espero a minha deixa.
— Olá, meus amores. Estamos a começar mais um Gossip com Hortênsia.
Gossip? No que diabos o Tiago me meteu?
— Hoje eu irei de receber Teodora Ilha, autora dos grandes sucessos de novelas brasileiras Entre Fados e a sua mais recente trama… Direitas e Esquerdas que será lançada amanhã na programação da SIC! Ora pois, Teodora, tu és quase uma tuga! Se escrevestes Entre Fados, não é mesmo?
Ela ergue as sobrancelhas me dando uma deixa que é minha hora de falar. Respiro fundo e sinto a confiança me preencher num instante. Eu sou boa falando em público. Não sei como, mas eu sou.
— Gosto de pensar que sim. Amo Lisboa. Morei aqui mais nova e me apaixonei pela cidade. Portugueses são intensos! Beijam bem à beça.
Ela dá um grande sorriso. Acho que isso vai render alguma alegria pros ouvintes de um programa de fofocas.
— Beijam é? Diz isso por experiência própria?
— Tive que fazer uma pesquisa de campo para escrever.Deve ter sido uma pesquisa das boas! Eu lembro que o personagem era bem sexy. O Martim interpretado pelo Gabriel Azevedo.
— Sim, o Martim tinha todo um charme geminiano. Confuso, mas que parecia ser bom de cama.Ele foi inspirado em alguém real?
— Foi sim, mas a gente trabalha mais com ilusões que realidades. E eu tinha 22 anos. — por um segundo lembro dele com carinho. Martim virou um bom amigo durante algum tempo. Depois a distância nos afastou. — Não sei se conta lá muito essa coisa do muso Casanova hoje em dia.
— É, eu dei uma breve pesquisada porque não pude resistir. Me contas... Tu de fato nunca namorastes?
Sou pega de surpresa pela pergunta. Porque isso seria importante?
— Não. Nunca namorei.
— Mas nem por um dia?
— Não, nenhum diazinho sequer. — respondo com naturalidade. — Isso é mais comum do que você pensa, Hortênsia. Estamos soltas por aí.
Ela ri por um segundo, mas não parece satisfeita.
— Sim, hoje em dia tem muitas pessoas que se negam ao romance. — o que ela quer dizer com isso? Eu não me nego ao romance! Na verdade, se tem alguém que gosta de romance sou eu. É esse o problema. — E quantos anos você tem? Se for indelicado…
— Claro que não. Eu sou uma mulher, não um pacote de biscoitos com medo da validade. Tenho vinte e oito anos.
— Vinte e oito? E nunca namorou?
— Não. — respondo novamente sustentando o olhar nela.
— Mas porque isto?
— Talvez porque eu me entedio fácil e só consigo me apaixonar por homens fictícios.
Ela permanece alguns segundos tentando digerir minhas palavras.
— Direta ao ponto.
— Eu tento ser.
— Diretas… Isso me lembra o nome da nova novela: Direitas e Esquerdas. Sobre o que é?
— Direitas e Esquerdas é uma comédia como todas as minhas outras novelas. Foi um trabalho que eu achei muito divertido de fazer e que era uma tema complicado porque falamos muito de política na história…
— Sim, são um casal que pensa diferente politicamente, não?
— É, ele é de direita e ela de esquerda nas ideologias, mas apesar disso os dois acabam caindo na loucura de se apaixonar e é a partir daí que a história se desenrola. Ele é um político e ela a marketeira do candidato adversário dele e toda a novela se passa durante esse período eleitoral. Foi um baita desafio de escrever e gravar, mas foi uma experiência surreal pra gente. Pra mim, pro Fabrício Scarpa.
— Um diretor fantástico!O Fabrício é o melhor.
Imagino se ele está me ouvindo agora e me mandando beijinhos para a rádio no celular.
— Essa trama também tem inspirações reais?
— Um pouco. Acho que eu sempre puxo algo do que vivo para escrever. É mais sincero com o público.
— Os atores ficaram famosíssimos com a novela, né? Bateu recordes de audiência!
— Sim, a novela passou num horário das sete e a gente conseguiu bater uma meta que nem existia!
— Foi foda! Desculpe, er, foi FORA, foi fora de série!
— Como era o clima nas gravações? Tu ficas a saber antes das fofocas? Como assim?
— Ora, de quando o casal a c o n t e c e u! Igor e Mariana.
— Ah, eles… Hm, quem?
— Os atores.
— Claro! Os atores! Er, não. A gente não era tão próximo assim. Eles são outros seres humanos, quer dizer, pessoas, colegas. Pessoas do trabalho.
— Certo… Mas teve umas notícias que no começo da novela tu e Igor eram bem mais que amigos? Tem a ver com isso? Vocês saíram juntos... Teve uma foto num cinema.
Malditos paparazzis. Tudo bem eles só são trabalhadores, mas é… Malditos paparazzis.
— Um possível affair?
— Não, era mais profissional, sabe? — sou bem incisiva no profissional. Não quero voltar a esse assunto de novo. — Dicas pro personagem. Essas coisas.
— É, quando não bate a química é melhor deixar pra lá! A química entre eles, por exemplo! Aquilo é algo que se vê de longe. Eles tinham muita química… E ele tinha saído há pouco de um outro relacionamento com a Sarah Torres, mas foi amor à primeira vista. Foi perfeito para a novela! Tu tivestes sorte com esses protagonistas, miúda.Muita. Fui abençoada.
Pelo amor de Deus. Eu que deveria ser atriz depois dessa entrevista.
— Bom, agora nós vamos receber a ligação de um dos nossos ouvintes para as perguntas.
— Ah, tudo bem então.
— Alô! Quem falas?
— Mabel. Chamo-me Mabel.
É uma voz tímida e infantil. Não acho que Mabel passe dos dezesseis anos.
— Mabel, estamos com a autora brasileira da nova novela da SIC Direitas e Esquerda: Teodora Ilha. Queres fazer alguma pergunta pra ela?
— Sim, Igor é tão bonito de perto?
— Ah, ele é sim. Bem bonito.
— E ele vais voltar com Mariana ou nós temos chance?
— Mabel, querida, quantos anos você tem?
Há um silêncio pensativo.
— 20.
— Tá vendo, Hortênsia? Esse é o problema com ligações. Não tem como pedir foto do documento.
Uma risadinha ecoa do outro lado da linha e o gancho da ligação cai nos deixando com cara de tacho. Hortênsia clica em outro botão e outra ligação entra em cena.
— Alô!
— Alô, com quem falo?
— Madalena.
— Madalena, que belo nome. Madalena nós estamos acá com, não sei se conheces...
— Conheço sim. Sou uma grande fã de seu trabalho. Teodora Ilha! A melhor autora de novelas DO MUNDO!
Eu conheço essa voz...
— Madalena, queres fazer alguma pergunta?
— Quero sim! Primeiro quero saber como é ser esta mulher tão poderosa, inteligente e talentosa?
— Acho que tomando 4 banhos por dia. É o que eu faço, Madalena.
Não estou acreditando nisso. Tenho sorte com amigas. Isso é uma certeza!
— Uma boa dica! Agora eu tenho uma pergunta para a Hortênsia… Como é que vai o processo ambiental contra a empresa do seu mari...
De repente a fala de Madalena é cortada. A expressão aflita da entrevistadora indica que a ouvinte tocara em uma ferida pessoal. É, parece que a imprensa não é tão impessoal assim.
— Ah, que pena a ligação caiu!
— É, mas ela tinha feito uma boa pergunta.
Seguimos com mais três interações com o público, Hortênsia anuncia o fim do programa e nos despedimos no ar. A mulher levanta bebendo uma água enquanto eu me preparo para partir.
— Tu fostes ótima, Teodora. — ela fala se aproximando ao passar a mão nos cabelos apertando ainda mais seu rabo de cavalo.
— Eu já fui em alguns programas de rádio. Acho divertido.
— É, é sim. Olhe, queria falar isso antes de tu ir. Senti que tu ficastes um tanto desconfortável quando lhe perguntei sobre nunca ter namorado. Espero não ter lhe causado nenhum mal estar.
— Não, estou bem. Algumas pessoas realmente ficam chocadas. Eu sou um partidão para estar solto por aí.
Ela me olha confusa. É, talvez nem todos achem isso.
— Eu achei mesmo estranho é como tu escreves tão bem.
— Como assim?
— Ah, tu sabes… Como tu escreves sobre amor e finais felizes se nunca realmente teve um relacionamento?
Hortência me encara esperando a minha resposta. Eu pisco por alguns segundos claramente desestabilizada. Ela tem razão, não tem?
— Tolkien escrevia sobre elfos, magia e nem por isso é um autor ruim.Mas elfos e magia não existe. — suas pupilas vidradas dos olhos pequenos invadem os meus. — Quer dizer que o amor verdadeiro também não?
E eu vou embora sem responder. Talvez porque não sei a resposta.
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