Contra-Aposta: Jikook

2 A Vítima Perfeita


Jungkook encarava o celular com uma expressão de puro desgosto.

A conversa com Rosé ocupava quase toda a tela. Um texto gigantesco enviado por ela aparecia logo acima da mensagem que encerrava oficialmente o relacionamento.

"Eu cansei, Jungkook".

Só isso. Três palavras. Três palavras depois de um texto enorme que ele não tinha lido.

— Ela terminou comigo.

Ninguém respondeu. Yoongi continuou mexendo no notebook. Hoseok continuou girando na cadeira.

Os três estavam numa sala de reunião da Jeon Entertainment, mas nenhum deles trabalhava de verdade. A empresa era uma das maiores produtoras de entretenimento do país, cheia de funcionários correndo para manter aquilo tudo funcionando. Jungkook, Yoongi e Hoseok não faziam parte desse grupo.

Jungkook era filho único do fundador, Jeon Seong-hyun, e nunca precisou se preocupar com currículo. O mesmo valia para os amigos. As famílias dos três eram amigas há décadas e, assim que terminaram a faculdade, Seong-hyun os acomodou em cargos confortáveis, com ótimos salários e responsabilidades mínimas. Era por isso que podiam passar a tarde numa sala vazia discutindo a vida amorosa fracassada de Jungkook em vez de fazer algo produtivo.

— Vocês ouviram?

— O prédio inteiro ouviu — respondeu Yoongi sem levantar a cabeça.

— Rosé terminou comigo.

— Sim.

— Definitivamente.

— Ainda sim.

Jungkook franziu a testa.

— Vocês não vão dizer nada?

Hoseok finalmente ergueu os olhos.

— O que exatamente você espera que a gente diga?

— Não sei. Que ela é louca.

— Por que ela terminou com você? — perguntou Hoseok, parecendo verdadeiramente confuso.

— Exatamente — respondeu Jungkook.

— Isso não prova que ela é louca.

— Prova um pouco.

Yoongi soltou uma risada pelo nariz.

Já Jungkook recostou-se na cadeira e cruzou os braços. Aquilo era absurdo. Completamente absurdo. Ele era Jeon Jungkook, porra. Capa de revista desde os dezoito anos, dono de mais de cinco milhões de seguidores que babavam por ele diariamente. Ele era bonito pra caralho, rico pra caralho e, segundo inúmeras fontes confiáveis que faziam questão de espalhar o veredito por aí, também era ótimo de cama. Então como, pelo amor de Deus, alguém ainda assim decidia terminar com ele?

— Talvez ela tenha descoberto que você é insuportável — disse Yoongi.

— Eu não sou insuportável.

— Você enviou para sua namorada "você está sendo egoísta e dramática".

— Porque ela estava.

— Também enviou "por que mulheres são tão sensíveis?"

— Porque eu queria entender.

Hoseok começou a rir tão forte que precisou apoiar a cabeça na mesa.

— Você é inacreditável.

— Não vejo o problema.

— Esse é exatamente o problema — disse Yoongi.

— Qual?

Yoongi fechou o notebook devagar.

— Você já reparou que consegue ficar com qualquer pessoa, mas ninguém nunca fica apaixonado por você por muito tempo?

O sorriso de Jungkook desapareceu e Yoongi continuou:

— Você nunca ouviu um "eu te amo" de qualquer namorado que você já teve.

Jungkook sentiu algo desagradável se revirar dentro do peito. Não era uma sensação que aparecia com frequência. Talvez fosse orgulho ferido. Talvez irritação. Talvez apenas o incômodo de ouvir algo que ele não queria admitir.

Obviamente ele não demonstraria isso para Hoseok ou Yoongi.

Talvez ele demonstrasse fraqueza para Kim Namjoon.

Namjoon sempre foi diferente. Desde a adolescência, quando os dois se conheceram em um dos jantares enfadonhos que seus pais promoviam, Namjoon ocupou um lugar que ninguém mais conseguia alcançar. Era mais do que um amigo. Mais do que alguém em quem confiar cegamente. Era praticamente um irmão, daqueles que aparecem para te salvar da própria estupidez sem nem precisar que você peça.

Se Namjoon estivesse ali naquela sala, Jungkook provavelmente deixaria cair a pose, reclamaria da Rosé em frases soltas e desconexas, xingaria o universo inteiro e admitiria, com um muxoxo de criança malcriada, que aquele comentário de Yoongi tinha sido um golpe baixo e doloroso.

Mas Namjoon não estava ali. Estava em algum lugar do outro lado da cidade, provavelmente resolvendo problemas de verdade em vez de ouvir o herdeiro mimado da Jeon Entertainment reclamar da própria vida amorosa patética.

Então Jungkook apenas sustentou a expressão entediada, cruzou os braços sobre o peito e rebateu com a primeira provocação que veio à cabeça.

— Eu aposto que consigo conquistar qualquer pessoa.

Hoseok arqueou uma sobrancelha com um sorriso preguiçoso no canto da boca, claramente já entretido com a direção que a conversa estava tomando.

— Você já faz isso.

— Não. Estou falando de verdade — Jungkook insistiu, inclinando-se ligeiramente para a frente na cadeira.

— Continua sendo algo que você já faz — devolveu Hoseok.

— Não é a mesma coisa — Jungkook rebateu, sentindo a frustração crescer.

Yoongi fechou o notebook mais uma vez com um estalo seco que ecoou pela sala.

— Lá vem.

Jungkook ignorou o comentário e continuou, a voz mais alta agora.

— Eu consigo conquistar qualquer pessoa e fazer ela se apaixonar por mim — afirmou ele, batendo o dedo indicador na mesa para dar ênfase.

— Claro — Yoongi respondeu no mesmo tom monocórdio de sempre.

— E consigo fazer essa pessoa se declarar primeiro — completou Jungkook.

Hoseok soltou uma risada franca, alta e escandalosa, que fez Jungkook franzir a testa.

— Isso já está ficando patético — opinou Hoseok, balançando a cabeça de um lado para o outro.

— Estou falando sério — Jungkook insistiu, sentindo o orgulho ser arranhado.

— E eu também — retrucou Hoseok, ainda sorrindo.

— Vocês acabaram de dizer que ninguém se apaixona por mim — Jungkook disparou, apontando o dedo alternadamente entre os dois amigos.

— Porque ninguém se apaixona — respondeu Yoongi com uma naturalidade cruel, como se estivesse dizendo que a água é molhada ou que o céu é azul.

Jungkook sentiu aquele incômodo no peito se agitar novamente, mas dessa vez ele o transformou em combustível. Ele endireitou a coluna, apoiou os cotovelos na mesa e encarou os dois amigos com um brilho perigoso nos olhos.

— Então vamos apostar.

— Não — Yoongi respondeu no mesmo segundo.

Jungkook piscou algumas vezes, desconcertado pela rejeição imediata.

— Não?

— Não — Yoongi confirmou, pegando o celular que estava ao lado do notebook. — Não.

— Você nem ouviu a aposta — Jungkook argumentou, a frustração começando a dar lugar à irritação.

— Não preciso ouvir — Yoongi respondeu sem tirar os olhos da tela.

— Está com medo? — provocou Jungkook, inclinando a cabeça com um sorriso malicioso.

Yoongi finalmente ergueu o olhar, mas foi apenas para revirar os olhos com um desprezo majestoso.

— Sério?

— Está com medo de eu provar que estou certo? — Jungkook insistiu, ignorando o tom de alerta.

— Não — respondeu Yoongi, seco.

— Parece medo.

— Parece que você está carente — Yoongi rebateu, e Hoseok quase engasgou de tanto rir, batendo com a mão aberta na mesa enquanto tentava recuperar o fôlego.

Jungkook apontou o dedo na direção de Hoseok, que ainda ria com os olhos marejados.

— Você também.

— Também o quê? — Hoseok perguntou, enxugando uma lágrima de riso.

— Está com medo — acusou Jungkook.

Hoseok finalmente se recompos, mas o sorriso permaneceu colado no rosto.

— Eu tenho medo de muitas coisas. Altura. Aranhas. Aviões em dias de chuva. Você conquistando alguém não está na lista.

— Então aceitem — insistiu Jungkook.

— Não — Hoseok respondeu, imitando o tom monocórdio de Yoongi.

— Por quê?

— Porque é uma aposta idiota — explicou Hoseok, como se estivesse falando com uma criança birrenta.

Jungkook sorriu, porque finalmente tinha uma brecha.

— Isso nunca impediu a gente antes — argumentou ele, e viu o exato momento em que Yoongi abriu a boca para responder, fechou de novo e ficou em silêncio, porque infelizmente Jungkook tinha razão.

Os três já tinham apostado coisas muito mais idiotas ao longo dos anos. Dinheiro, bebidas, roupas, um jantar de graça, quem aguentava mais tempo sem falar, quem conseguia convencer um estagiário de que o escritório era assombrado. Uma aposta sobre conquistar alguém era, na verdade, até razoável perto do histórico do grupo.

Hoseok cruzou os braços, o que significava que ele estava finalmente considerando a ideia.

— Mesmo que a gente aceitasse — Hoseok começou, fazendo questão de enfatizar o "mesmo que" —, como isso funcionaria?

— Eu escolho alguém — respondeu Jungkook, simples.

— Não — Yoongi interrompeu imediatamente.

— Por que não? — Jungkook reclamou.

— Porque você vai escolher alguma pessoa que já esteja interessada em você.

Jungkook deu de ombros, como se aquilo não fizesse a menor diferença.

— Isso ainda conta.

— Não conta — Yoongi rebateu.

— Conta sim.

— Não conta.

— Conta.

— Não — Yoongi cortou, definitivo.

Jungkook bufou alto, jogando a cabeça para trás contra o encosto da cadeira.

— Vocês são insuportáveis.

— E você é mimado — respondeu Yoongi na mesma moeda.

— Eu prefiro bonito — Jungkook disse, ainda com os olhos fechados.

— Ninguém perguntou — Yoongi retrucou.

Jungkook ficou alguns segundos em silêncio, os olhos ainda fechados, o peito subindo e descendo devagar. Quando reabriu as pálpebras, um sorriso lento e perigoso se espalhou pelo seu rosto.

— Então vocês escolhem. Vocês escolhem a pessoa que eu tenho que conquistar. Assim não tem como eu trapacear, certo?

— Nós escolhemos? — Yoongi repetiu.

— Sim

— Qualquer pessoa? — Hoseok arriscou.

— Qualquer pessoa — Jungkook assentiu.

— Sem reclamações? — Yoongi perguntou, os olhos estreitos.

— Sem reclamações — Jungkook concordou.

— Sem desistir no meio? — Hoseok acrescentou.

— Sem desistir — Jungkook confirmou, cruzando o coração com o dedo de forma teatral. — Então vamos apostar?

— Talvez — Yoongi respondeu, teimoso até o fim.

— Isso é um sim — afirmou Jungkook.

— Não é — negou Yoongi.

— É sim.

— Não é.

— É.

Yoongi sorriu.

— Certo. Eu aceito.

— Finalmente — comemorou Jungkook, estalando os dedos.

Hoseok riu.

— Vocês dois são malucos.

— Você também está dentro — avisou Jungkook, apontando o dedo na direção dele.

— Eu não lembro de ter concordado.

— Acabou de concordar — mentiu Jungkook com a maior cara de pau do mundo.

— Quando? — Hoseok perguntou, sinceramente curioso para ouvir aquela ginástica mental.

— Agora.

Hoseok riu.

— Impressionante como você inventa regras. Mas eu não quero ficar do lado de fora.

— Então está fechado. Estamos apostando — confirmou Jungkook, batendo a mão na mesa como um martelo de juiz.

— E qual é o prêmio? — perguntou Yoongi, sério.

Jungkook abriu um sorriso lento, saboreando o momento.

— Um carro esportivo — anunciou ele, como se fosse a ideia mais óbvia do mundo.

Yoongi piscou algumas vezes, processando a informação.

— Você já tem três.

— Eu sei — Jungkook respondeu, orgulhoso.

— Eu tenho dois — Yoongi continuou.

— Eu sei.

— Hoseok tem quatro.

— Eu sei.

— Então qual é o sentido? — questionou Yoongi, confuso.

— Não tem — respondeu Jungkook, simples.

Hoseok começou a rir.

— Isso faz mais sentido do que deveria.

— Certo — Jungkook continuou, agora mais animado. — O vencedor escolhe qualquer carro esportivo que quiser e os outros dois pagam. Integral. Sem parcelamento.

— Você realmente não precisa de outro carro — insistiu Yoongi.

— Nenhum de nós precisa — Hoseok concordou.

— Justo — Jungkook deu de ombros. — E também quero uma viagem para Jeju.

Yoongi revirou os olhos com tanta força que quase torceu o pescoço.

— Você pode comprar uma passagem agora mesmo.

— Posso — admitiu Jungkook.

— Eu também — acrescentou Hoseok.

— Eu sei — Jungkook confirmou.

— Então por que estamos apostando uma viagem? — perguntou Hoseok, confuso.

Jungkook sorriu.

— Porque é mais divertido quando outra pessoa paga.

Hoseok sorriu também.

— Essa foi a primeira coisa inteligente que você disse hoje.

— Então está fechado? — Jungkook perguntou, o olhar percorrendo os dois amigos.

Yoongi olhou para Hoseok. Hoseok olhou para Yoongi. Um longo segundo de silêncio se seguiu, e os dois sabiam (eles sabiam com uma certeza absoluta) que aquilo terminaria em desastre. A única dúvida era para quem o desastre seria maior.

— Está fechado — respondeu Yoongi, finalmente.

— Fechado — concordou Hoseok, assentindo com a cabeça.

Jungkook sorriu satisfeito.

A aposta foi encerrada com apertos de mão e ameaças de processo quando Jungkook inevitavelmente perdesse. Depois disso, a tarde continuou exatamente como todas as outras tardes na Jeon Entertainment para os três herdeiros: sem trabalho algum.

Yoongi passou boa parte do tempo assistindo vídeos no notebook. Hoseok desapareceu durante quase uma hora para incomodar algum funcionário de outro departamento e voltou com um saco cheio de salgadinhos que claramente não tinha comprado. Jungkook alternou entre o celular, as redes sociais e a difícil tarefa de ignorar o fato de que tinha acabado de ser desafiado.

Quando o relógio finalmente marcou o fim do expediente, os três decidiram que já tinham sido produtivos o suficiente por um dia.

— Estou indo embora — anunciou Hoseok, levantando-se da cadeira.

— Que vida difícil — comentou Yoongi.

— Nem me fale.

Jungkook pegou o celular e as chaves do carro.

— Eu mereço uma compensação financeira por ter passado horas ouvindo vocês.

— Você recebe salário sem fazer nada — respondeu Yoongi.

— E mesmo assim não é suficiente.

Os três saíram da sala de reunião e seguiram pelo corredor principal, que naquele horário da tarde ainda fervilhava de movimento. Funcionários carregavam pilhas de documentos nos braços, headsets de atendimento brilhavam nas orelhas de alguns, outros digitavam freneticamente em tablets enquanto andavam. Havia uma energia de caos organizado que Jungkook achava fascinante de observar (de longe, claro, porque nunca na vida ele participaria daquilo).

Ele mal prestava atenção nas pessoas ao redor, ocupado demais em responder algumas mensagens no celular. Os dedos voavam sobre a tela enquanto ele digitava respostas curtas e pouco interessantes para contatos que ele também pouco se importava. Foi nesse estado de distração completa que alguém surgiu de repente na sua frente, vindo de uma das salas laterais sem olhar para os lados.

O choque foi leve: um impacto rápido de ombros e braços se encontrando no meio do corredor.

O desastre, porém, não foi nada leve.

Um copo de café inteiro virou completamente sobre o peito de Jungkook. O líquido escuro se espalhou pela camisa branca em segundos, formando uma mancha feia e úmida que parecia aumentar de tamanho em tempo real.

— Merda! — exclamou Jungkook, dando um salto para trás como se tivesse levado um choque. A sensação do café quente penetrando o tecido e chegando à pele era desagradável demais, e ele sentiu a irritação subir pela espinha como um formigamento perigoso.

— Desculpa! Desculpa! Eu não vi você! — a pessoa segurando o copo vazio arregalou os olhos imediatamente, o pânico estampado no rosto.

Jungkook ergueu a cabeça e finalmente encarou o culpado.

O rapaz tinha os cabelos pintados de loiro, embora a raiz escura já estivesse aparecendo. Parecia alguns anos mais velho que um estagiário, mas claramente não ocupava nenhum cargo importante. As roupas eram simples demais para isso.

— Você tá brincando comigo? — Jungkook disparou, a voz subindo um tom acima do necessário. Ele olhou para a própria camisa, depois para o copo vazio, depois para a cara do loiro, num ciclo de incredulidade que se repetiu umas três vezes seguidas.

— Eu sinto muito, foi sem querer — respondeu o rapaz, ainda com os olhos arregalados e o corpo tenso, como se esperasse um tiro a qualquer momento.

— Sem querer? — repetiu Jungkook, incrédulo.

— Sim.

— Nossa, ainda bem que foi sem querer — Jungkook soltou uma risada seca e amarga, cheia de veneno. — Eu estava preocupado que você tivesse decidido jogar café em mim por diversão. Pensei que talvez eu tivesse entrado numa pegadinha de televisão sem saber.

— Jungkook... — Hoseok murmurou ao lado, o tom de aviso claro na voz. Ele conhecia Jungkook bem o suficiente para saber quando o amigo estava prestes a passar dos limites.

— Não, espera — Jungkook ergueu uma mão na direção de Hoseok, pedindo silêncio. — Eu quero entender. Você anda pelos corredores de olhos fechados? Tem algum problema de visão que eu deveria saber?

— Eu já pedi desculpas — respondeu o loiro, e havia um traço de impaciência começando a surgir por trás do pânico. Havia ali um fio de indignação, por mais que o rapaz tentasse esconder.

— E eu continuo coberto de café — rebateu Jungkook, apontando para a própria camisa como se a mancha falasse por si mesma.

O rapaz abriu a boca para responder, provavelmente com outra rodada de desculpas, mas Jungkook não deu tempo.

— Essa camisa é nova — Ele puxou o tecido molhado para longe do peito com dois dedos.

— Eu posso pagar a lavagem — ofereceu o loiro.

Jungkook piscou algumas vezes, processando a sugestão.

— A lavagem?.

— Sim

— Você faz ideia de quanto custou essa camisa? — perguntou Jungkook, inclinando a cabeça com um sorriso torto que não tinha nada de amigável.

O silêncio que se seguiu foi a única resposta necessária. O loiro não fazia ideia. Ele provavelmente nunca pagaria mais de cinquenta mil won em uma camisa na vida, enquanto Jungkook gastava isso em um jantar qualquer sem nem olhar a conta.

— Exatamente — concluiu Jungkook, triunfante.

— Eu realmente sinto muito — repetiu o rapaz, e dessa vez a voz saiu mais baixa, quase derrotada. A impaciência havia sumido, substituída por um cansaço resignado de quem já entendeu que não adiantava argumentar.

— E o café estava quente — acrescentou Jungkook, só para continuar martelando.

O loiro arqueou uma sobrancelha, visivelmente tentando manter a paciência.

— Porque é café — respondeu ele, como se estivesse explicando o óbvio para uma criança birrenta.

— Você derramou café quente em mim — insistiu Jungkook, apontando para o próprio peito manchado.

— Eu sei.

— Então por que está agindo como se eu estivesse exagerando? — perguntou Jungkook, e havia ali um fundo de sinceridade. Ele realmente não entendia como alguém poderia achar que aquilo não era motivo suficiente para um escândalo.

A expressão do loiro vacilou por um segundo. Os lábios se moveram como se ele fosse dizer alguma coisa (provavelmente algo que colocaria seu emprego em risco), mas ele se conteve no último momento.

— Porque eu não estou — respondeu ele, finalmente, com uma calma que parecia ensaiada.

— Está — Jungkook insistiu.

— Não estou.

— Está sim.

— Eu literalmente pedi desculpas cinco vezes — rebateu o loiro.

— Seis vezes não vão tirar a mancha — respondeu Jungkook, sem titubear.

Hoseok finalmente decidiu intervir antes que Jungkook começasse uma guerra corporativa por causa de uma camisa de duzentos mil won. Ele deu um passo à frente e colocou o corpo entre os dois, como um juiz de boxe separando lutadores no fim do round.

— Certo. Acabou — declarou Hoseok, a voz firme.

Jungkook virou a cabeça para o lado, incrédulo.

— Não acabou — protestou ele.

— Acabou sim — insistiu Hoseok, que já estava ficando sem paciência.

Hoseok então se virou para o funcionário e colocou uma mão leve no ombro do rapaz, num gesto que tentava ser tranquilizador, embora o olho de Hoseok brilhasse com um divertimento mal disfarçado.

— Você pode ir — disse Hoseok, acenando com a cabeça na direção oposta.

O rapaz loiro olhou entre os dois como se tentasse decidir qual deles era mais estranho (o que gritava por café na camisa ou o que sorria enquanto separava a briga). O julgamento silencioso durou apenas um segundo, e então ele fez uma leve reverência na direção de Hoseok, talvez por hábito, talvez por educação forçada.

— Desculpa novamente — disse ele, mais para Hoseok do que para Jungkook.

— Tudo bem — respondeu Hoseok, com um sorriso tranquilizador.

— Não está tudo bem — reclamou Jungkook atrás dele, a voz estridente.

— Vai embora antes que ele fique mais irritante — aconselhou Hoseok, sem nem olhar para trás.

O funcionário não precisou ouvir duas vezes. Ele fez outra reverência rápida (dessa vez mais apressada, mais desesperada) e saiu andando pelo corredor quase em velocidade de fuga, o copo vazio ainda esquecido na mão. Em poucos segundos, ele havia desaparecido no mar de funcionários que iam e vinham, deixando apenas o cheiro de café no ar e a mancha na camisa de Jungkook como provas de que ele algum dia existiu.

Jungkook observou o loiro desaparecer na multidão, os olhos ainda fixos no ponto onde ele havia sumido.

— Inacreditável — murmurou ele, balançando a cabeça.

— Foi um acidente — disse Hoseok, encolhendo os ombros.

— Foi um desastre — corrigiu Jungkook.

— Foi café — rebateu Yoongi, que até então vinha observando tudo com um sorriso divertido, os braços cruzados sobre o peito.

— Na minha camisa — concluiu Jungkook, apontando para a mancha como se precisasse lembrar os dois do óbvio.

— Você vai sobreviver — garantiu Hoseok, já andando em direção aos elevadores.

— Ainda estou decidindo — respondeu Jungkook, mas foi atrás.

Yoongi, que permanecera em silêncio durante boa parte da discussão, agora parecia estar se divertindo muito mais do que deveria.

Os três continuaram andando até os elevadores, o eco dos passos se misturando ao burburinho do corredor. Assim que as portas de metal se abriram com um ping suave, eles entraram e ficaram sozinhos dentro da cabine.

— Você foi completamente desnecessário lá atrás — comentou Hoseok, balançando a cabeça.

— Foda-se — respondeu Jungkook, ainda de mau humor. Ele tentava secar a mancha da camisa com a mão, um esforço completamente inútil que só servia para espalhar o café ainda mais.

— Ele pediu desculpas — insistiu Hoseok.

— Derramou café em mim.

— Sem querer.

— Continua sendo café.

— Você parece uma criança rica reclamando porque alguém encostou no brinquedo favorito dela — falou Hoseok.

— Porque eu sou rico — disse Jungkook, dando de ombros como se aquilo fosse a justificativa mais óbvia do mundo.

— Isso não ajuda seu argumento — suspirou Hoseok.

Jungkook apenas cruzou os braços sobre o peito. Um erro, porque a camisa ainda estava molhada e ele sentiu o café frio encostar na pele. Ele fez uma careta, descruzou os braços e resmungou alguma coisa inaudível sobre o universo ser injusto.

Yoongi, que permaneceu quieto durante boa parte da discussão, agora abriu um sorriso lento e predatório. O tipo de sorriso que imediatamente deixava Jungkook desconfiado de tudo, porque sabia que atrás dele vinha alguma ideia maligna disfarçada de lógica irrefutável.

Jungkook viu aquele sorriso e sentiu o estômago embrulhar.

— Ah, não — disse ele, antes mesmo de Yoongi abrir a boca.

— Ah, sim — respondeu Yoongi, o sorriso aumentando.

— Nem pense nisso — ameaçou Jungkook, apontando o dedo na direção do amigo.

— Eu já pensei — confessou Yoongi, imperturbável.

— Yoongi — Jungkook alertou, a voz baixa.

— Acho que já encontramos sua vítima — anunciou Yoongi, com a satisfação de quem acabava de encontrar a peça perfeita para um quebra-cabeça.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.