Contos soltos

1 O devorador de corações


"Eu sou um homem experiente.

Há um tempo virei pai. Minha menina Lissa veio ao mundo, mas para isso sua mãe teve que deixá-lo.

Certo dia eu estava caminhando pela floresta à procura de madeira boa, afinal, um bom lenhador sempre escolhe a dedo sua madeira. Nesse dia eu encontrei um filhote de lobo, ele era bem novo, era difícil distingui-lo de um cachorro, mas como disse, sou um homem experiente. Resolvi adotá-lo e domesticá-lo como um cachorro, igual todos na vila onde moro têm. Nomeei-o por Nôgga.

O tempo foi passando, minha Lissa continuava com seu elixir da infância em dia, já Nôgga estava crescendo cada vez mais, enquanto minha menina continuava bebê, Nôgga parecia já ser um lobo caçador em sua fase adulta. Era impossível não distingui-lo de um cachorro.

Cada vez mais, Nôgga ia crescendo, e, proporcionalmente a isso, os meus vizinhos viviam zumbindo em meus ouvidos, como abelhas à distância avisando que vêm atacar,

"– Alê, você é louco? Como deixa conviver com um bebê, um lobo de natureza selvagem? Não sabe que eles têm um extinto assassino? Lobos gostam de prezas que sangrem muito!"

Eu sempre respondia,

"– Nôgga não é qualquer lobo da mata, Nôgga é o NOSSO lobo, meu e de Lissa. Quando estou fora de casa ele é quem a protege"

Era mesmo que nada,

"– Se tinha dúvidas elas se desfazem agora, como água que escorre entre os dedos de mão aberta. VOCÊ É LOUCO. Se, ou melhor dizendo, QUANDO, você chegar em casa e vir o seu tão precioso totó com a boca encharcada de sangue, faço questão que se lembre que eu te avisei disso e que já não terá mais volta. Mate seu totó com apenas uma machadada antes que ele te mate com apenas uma abocanhada. Passar bem, Alê"

Eu sempre achei a minha vizinhança muito moribunda, eles estão sempre esperando, prevendo ou desejando a morte uns dos outros, e até de si mesmos. Mas será que eu não estaria desejando a morte da minha doce Lissa deixando ela com um enorme lobo da mata?

Besteira, Nôgga era de confiança, eu o criei.

Mas mesmo tendo tantas lembranças com o meu lobinho, mesmo não querendo, eu acabei reservando lugar para dúvidas em minha mente. Será que a natureza assassina de Nôgga foi assassinada com a criação doce que eu o dei? Do que ele seria capaz? Será que ele seria capaz de fazer algum mal à Lissa?

Preferi parar de pensar nisso, já havia muito tempo martelando isso em minha cabeça.

Depois de um longo dia de trabalho resolvi, nesse dia, voltar para casa admirando as belas árvores que abençoavam o meu curso.

Ao chegar no portão de casa uma turbulência de vibrações estranhas me golpeou. Eu sentia que algo havia acontecido ali. Tentei me enganar, repetir ininterruptamente que tudo permanecia da perfeita maneira que eu deixara.

Deixei a boa madeira que eu havia conseguido no lugar onde costumo guardá-la, prossegui caminhando até a porta de casa.

A imagem que eu vi me aguardando para se tornar eterna fez valer a pena o tempo de espera. Sem dúvidas essa seria a imagem que eu jamais esqueceria em toda a minha existência.

Toda aquela turbulência de vibrações estava explicada. Dessa vez eu me deixei dominar, mesmo que quisesse, não iria conseguir resistir. Elas estavam ali, à minha frente, golpeando-me aos murros.

Uma lágrima saltou dos meus olhos, cambaleou pelo rosto, e, enfim, fez o seu salto colossal regando a grama na qual eu pisava vacilante.

À minha frente estava Nôgga com a boca coberta de sangue. Por um instante esqueci que seu pelo era alvo como a neve. O zumbido da vizinhança veio a mim sem pedir permissão, e muito menos sem definir duração. Meu corpo estava vacilante, as lágrimas continuavam a regar a grama, e meu braço estava firme com o machado na mão. O de costume seria eu ter deixado a machado junto com a madeira, mas eu sabia que algo estava errado. Agora eu também sabia que Lissa estava morta, morta por um lobo assassino que eu alimentei e criei com tanto amor.

Eu podia jurar que havia um sorriso na face de Nôgga, era algo como "– Olha só, papai, olha o grande feito que eu consegui!".

Parei à frente do meu filho adotivo e em apenas um golpe – indolor para ele, mas fulminante para mim –, decapitei-o. Sua cabeça caiu no chão, e junto, sua boca ensanguentada que continuava sorrindo.

Ao entrar em casa à procura dos restos mortais de Lissa, para fazer-lhe um enterro digno, e logo em seguida, um suicídio, eu sabia que minha existência já não tinha motivos. Meus dois filhos estavam mortos!

Mas para a minha desgraça, nada do que eu sabia, eu realmente sabia. O achismo, duvide quem quiser, é a pior catástrofe do mundo!

Quando entrei no quarto de Lissa caí no chão. Podia jurar que meus órgãos internos estavam dentro de um liquidificador.

Caí no chão por ter visto a segunda imagem que eu nunca esqueceria em toda a minha existência. A imagem que me condena, e condenará por toda a eternidade.

Quando entrei no quarto, achei a fonte do sangue que estava na boca de Nôgga, quando entrei no quarto de minha menina, não achei a carcaça de uma bebê doce, não, não achei! Achei sim uma jiboia dilacerada.

Lissa estava no seu berço muito assustada. Ao me vir, levantou num salto e sorriu. Procurou por Nôgga que deveria entrar logo em seguida, como era de costume, mas ele não entrou. Ela não pôde agradecer-lhe por ter-lhe salvado a vida. Ele não entrou no quarto. Eu não pude agradecer-lhe por ter salvado a minha doce menina. Ele não entrou no quarto.

Ele nunca mais entraria no quarto."

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.