Contos sem Fadas
2 O Que Importa
Abriram a sela, e neste exato momento, eu a avistei. Pedi que se retirassem, queria conversar com ela a sós.
Lá estava ela, sentada num canto do local sujo e empoeirado, seus cabelos loiros e brilhantes, agora sujos e opacos, já não contrastavam com sua pele igualmente cinza e sem vida. Os olhos marejados, porém serenos. Não havia percebido minha presença.
Eu sempre me perguntei como ela conseguia ser tão calma... Para mim nunca fora segredo que a minha amiga não era feliz, apesar de ela nunca ter dito isso diretamente. Estava sempre sorrindo, porém dentro de seu ser, eu sabia que sua vontade era de se desmanchar em lágrimas. Sempre me defendendo, me animando, e agora chegara ao cúmulo de entregar a vida para me proteger. Tudo graças ao meu egoísmo, porque eu fui me apaixonar por um idiota galante.
Agora, o que me resta fazer é agradecer, pois renegar seu esforço ou tentar alguma loucura seria uma ofensa a tudo o que ela já havia sofrido por mim.
De repente, uma enorme gratidão me invadiu, como uma avalanche que despenca tudo de uma vez, por uma vida inteira. E então, em um impulso impensado eu corri para os braços dela e me joguei em seu colo. Tudo o que eu queria agora era retribuir todo o carinho que ela me dera durante uma vida como minha Dama de Companhia e lhe dar algum conforto em seus últimos momentos de vida.
Mas algo deu errado, de repente começamos a desaparecer.
Só então ela olhou para mim, com um misto de repreensão e melancolia. Sei que fui insensata, mas posso jurar que não estava em meus planos nos teletransportar, até por que eu nem sei como fazer isso. Mas aconteceu. E agora, em alguma praça de Tókio nos encontrávamos, encolhidas no chão, abraçadas tão forte que poderíamos morrer sufocadas.
E então, em uma confidência mutua nos fitamos, e choramos. O fizemos por nossa amizade de anos, por nosso companheirismo, e por nossas vidas. Afinal, as chances de que saíssemos vivas eram mínimas. Mas nós estávamos juntas, e foi só isso que importou.
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