Notas iniciais
A mentira realmente tem perna curta?

Renata era diferente, não fisicamente, era de aparência normal, saudável e brincava com as outras crianças durante o recreio da escola como era esperado. Era seu comportamento esquisito que chamava a atenção de todos a sua volta. Algo que no início não era problema, normal criança inventar histórias. Mas ela era diferente demais, tinha manias e inventava histórias absurdas, bastava que alguém perguntasse e vinha algo fantasioso que só poderia sair da cabeça de uma criança “diferente”.

Certa vez na escola, contou a sua professora sobre os gritos da sua mãe sobre uma cama ensanguentada, enquanto seu pai com as mãos cheias de sangue mandava que ela se calasse. Obviamente essa travessura levou a polícia a sua casa, onde encontrou a mãe muito bem e nenhum sinal de sangue. Isso fez com que todos perdessem tempo com a investigação, contribuindo para que ninguém mais acreditasse em suas histórias e deixando seus pais extremamente irritados. A partir desse dia, algo do amor deles por ela morreu e Renata se tornou apenas mais uma na casa.

Mesmo tendo chegado a adolescência, ela continuava a mesma menina em que não se podia confiar, fazendo os seus pais gastarem dinheiro com tratamentos e especialistas, que nada resolveram. Natural nessa situação que nenhum namorado ficasse por muito tempo ou que nenhuma amiga aparecesse para uma festa do pijama.

Certa noite ela e irmã ficaram sozinhas em casa enquanto seus pais comemoravam algo em algum restaurante. Normal para duas adolescentes de dezessete e dezoito anos, talvez não tão normal para Renata.

A casa da família era terréa, com um quarto para cada filha, uma suíte para o casal, cozinha, sala de estar, sala de jantar e um banheiro. Uma ótima casa para a família de advogado e uma mãe que decidiu parar de trabalhar para cuidar das duas filhas.

Alice não quis ficar no mesmo cômodo que Renata e foi para o próprio quarto. Na verdade, fazia anos que ela hostilizava a irmã, algo a ver com as muitas mentiras contadas sobre ela na escola. Histórias sobre comer insetos ou pequenos animais vivos.

A noite estava abafada e quente. Aquele clima de deixar a pele pegajosa, escorrendo suor. Noite entediante. Renata não tinha amigas ou namorado, ninguém para conversar ou segui-la nas redes sociais. Ficou deitada na cama rolando o feed do facebook, mas nada de interessante prendia sua atenção. Ela tinha inveja das fotos de passeios em grupos e festas, queria participar e não entendia porque não era aceita.

Uma foto chamou sua atenção, era um menino da sua sala com os amigos passeando pelo shopping. Ele era muito bonito e de repente ela sentiu muita vontade fazer parte daquilo, ser normal, ficar, namorar e curtir uma adolescência que logo ia acabar.

Abriu a porta do guarda-roupa, que também era um espelho de corpo inteiro, e escolheu algo para vestir. Não qualquer coisa, algo que chamasse atenção. Então veio a tristeza de sempre, nunca chamaria a atenção de ninguém, porque não havia uma única pessoa que a escutasse. Fechou a porta sem dali tirar uma única peça de roupa e de cabeça baixa.

Levantou a cabeça e foi quando o viu pela primeira vez, refletido na porta espelhada do guarda-roupa, estava debaixo da cama, submerso no escuro que a colcha pesada e desnecessária formava. Dava para ver uma mão retorcida puxando o tecido para o lado, enquanto projetava o sorriso num esgar estranho, largo demais. A pele era pegajosa e de aparência úmida, escura como se tivesse secretando algum tipo de óleo lamacento. Sorria para ela, até que colocou a língua anormalmente longa para fora e lambeu os lábios.

Ela ouviu um grito que só reconheceu como seu quando invandiu o quarto da irmã.

…………………………………………………………………………………………………………

—_ Pela última vez não há nada debaixo da sua cama! Olhe você mesma!

O homem segurou uma Renata descontrolada pelo braço e puxou para perto da cama, praticamente esfregando seu rosto no chão. Ela não queria abrir os olhos, mas ele não pararia até que ela olhasse. Abriu os olhos e não viu nada.

—_ Pare com isso – disse a mãe.

Não parecia se importar que a filha estivesse com medo e chorando a beira de uma crise, na verdade a mulher estava ansiosa para sair dali e cuidar de outra coisa. Algo mais do seu interesse do que a caçula mentirosa.

—_ Amanhã a primeira coisa que ela vai contar na escola é sobre o monstro debaixo da cama e sobre como você quase quebrou o braço dela.

Alice estava na porta, com os braços cruzados e balançando a cabeça. Ela estava certa, Renata contaria aquilo tudo para todo mundo.

O pai estava furioso e num segundo puxão segurou a filha mais nova pelo braço e sacudiu.

—_ Quem acreditaria em você e nas coisas que inventa? Menina Mentirosa!

Jogando a filha sobre a cama saiu do quarto e foi para a suíte, batendo a porta com força para não ouvir mais nenhum choro da filha.

A mãe olhou para a cama com decepção e perguntou:

—_ Até quando você inventará coisas, já é praticamente uma mulher. Estou tão cansada de você.

A única que ficou foi Alice, na mesma posição. Como se quisesse falar algo, mas hesitasse.

Ainda chorando Renata sentiu raiva. Não aguentava o olhar de pena da menina perfeita.

Tirando coragem para gritar com, pelo menos, um membro da família, berrou:

—_ Fale logo e vá embora como papai e mamãe!

Alice olhou para a irmã e fez cara de tristeza.

—_ Você é uma aberração, mas tenho pena. Até mesmo aberrações merecem viver.

Aberração? Que todos dissessem que ela era mentirosa entendia, mas aberração?

Alice ainda com olhar de pena espiou o corredor. Então abaixando a voz, disse seriamente:

—_ Vá embora! Saia dessa casa e será muito melhor para você e para nós.

Alice saiu do quarto fechando a porta.

Apesar de ser obrigada a olhar debaixo da cama, e saber que não tinha nada ali, Renata passou a noite acordada e gelada de medo.

…………………………………………………………………………………………………………

O despertador tocou fazendo o mesmo som estridente de sempre e mesmo sabendo que deveria levantar ela ficou ali, segurando o lençol perto do peito e com medo de pôr os pés para fora da cama. Debateu consigo por vários minutos até que reuniu coragem suficiente para levantar.

Demorou alguns segundos para entender porque foi parar no chão. Tinha escorregado em algo viscoso. Parecia saliva, como se algum animal grande babasse ali.

O pânico tomou conta dela mais uma vez, lembrou da criatura e de como sua pele secretava algo, mas também lembrou que quando seu pai esfregara sua cara no chão não tinha nada. Então….

Aquela criatura só podia ter voltado, mas como? Ela tinha ficado acordada a noite toda.

Pensou nisso por alguns minutos, então uma mão malformada saiu por entre a colcha caída e tocou a sola do seu pé com a unha grande e afiada.

Sem pensar em mais nada saiu correndo dali para o quarto dos pais.

Abriu a porta e sem olhar para a cama disse gaguejando:

—_ Tem… tem… algo estranho no meu quarto.

Foi quando levantou a cabeça e viu a cama vazia. Onde estavam seus pais?

O quarto de Alice também estava vazio.

Tremendo se perguntou onde sua família poderia estar. A criatura tinha muitos dentes e uma boca anormalmente grande. Será que tinha feito algo com sua família?

Tremendo foi para a cozinha pensando que deveria ligar para algum parente antes de chamar a polícia, não percebeu de imediato que todos estavam ali. Foi recebida com gargalhadas.

—_ Perdi a aposta. Dessa vez ela não chorou ou ligou para alguém.

Alice parecia bem descontraída, estava arrumada para o colégio e mesmo sendo repetente do primeiro ano do Ensino Médio, era o orgulho de seus pais. Os três pareciam uma foto de comercial de margarina. Todos sorridentes, felizes e satisfeitos uns com os outros.

Caminhou para a cozinha sentindo-se deslocada como se aquela família não fosse sua. Seu pai perdeu o sorriso no momento em que a viu se aproximar.

—_ Por favor nos esclareça sobre o porquê de você ir até o meu quarto, entrar sem bater e ficar correndo pelos corredores.

Era óbvio que, apesar da fala calma, seu pai não estava calmo. Eles estavam na cozinha assistindo ela dar um pequeno show matinal e esperaram para ver o que ela faria. Uma mãe normal teria acalmado a filha, mas nada na vida dela era normal.

—_ Tem…tem…

Seu pai bateu com força na mesa.

—_ Se sair da sua boca que tem algo debaixo da sua cama …

Renata se calou pegou um pedaço de bolo que estava em cima da mesa. Ao colocar na boca cuspiu imediatamente. O bolo estava cheio de pequenas larvas.

Todo riram da sua cara de nojo e continuaram a comer enquanto ela jogava todo o bolo fora.

Por um minuto olhou para sua família confusa, parecia que todos tinham enlouquecido.

Voltou para o quarto e olhou para o chão, a gosma estava ali, mas se chamasse alguém diriam que ela tinha feito aquilo. Tinha que se arrumar para a escola e sabia que a coisa estava debaixo da cama. Foi até o guarda-roupa e enquanto andava pelo quarto ouviu o rastejar. Não estava mais debaixo da cama.

Notas finais
Continua...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.