Contos não cantados
7 Despedida
Notas iniciais
Estou deitada no chão frio da caverna.
Acho que faz dias que Loki se foi. Eu não sei. Não vejo a luz. Nem sei se ela ainda existe. Afinal de contas, é o Ragnarök.
Escuto os sons dos gritos dos aesir, à distância. A Yggdrasil se chacoalha violentamente com os eventos causados por seus próprios frutos.
Por vezes, ouço ondas se quebrando, e a água invade parte da caverna. Guinchos, urros e raios que atravessavam a parede da caverna, seguidos por trovões. Até que os raios cessaram, e o mar se acalmou. Não ouvi nenhum trovão desde então.
Ouvi Fenrir também. Seus familiares uivos me pareceram triunfantes durante algum tempo. Alguma parte de mim ficou feliz por isso.
Mas até mesmo os seus latidos cessaram, num ganido agudo, e meu coração se partiu novamente.
Senti calor. Senti frio. Agora não sinto mais nada. Está tudo estranhamente quieto ao meu redor, mas não ouso supor que o crepúsculo dos deuses acabou. Também não ouso sair desta maldita caverna. Não tenho correntes, mas não quero saber o que terá acontecido com o mundo enquanto estive ausente. Não tenho correntes, mas tenho exaustão. Não sei dizer quantos éons seriam necessários para que eu recuperasse a minha vitalidade.
O que será feito de Vanaheim?
Sinto a caverna oscilar. Não sei se é a pedra a se mexer, ou a própria realidade. Ou se é tudo na minha cabeça.
Será a minha vez? Será que eu morrerei nos escombros deste lugar?
Para onde os deuses vão, quando não existe mais lugar nenhum para ir?
O vazio me incomoda.
Nossa era acabará, e uma nova irá tomar o seu lugar. Mas sempre ouvi sussurros de que alguns de nós sobreviverão para ver este novo ciclo. Será que eu serei um deles? Podemos viver sem trovões, sem trapaça, sem fogo, sem campos e prados, sem beleza. Mas e a fidelidade?
Quantos ciclos já se completaram, antes de nós?
Fecho os olhos por alguns instantes e sinto uma brisa em meu rosto.
“Narfi?” eu pergunto. “Loki?”
Não tenho resposta.
Meus olhos estão pesados.
Acho que é minha hora de ir.
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