Contos não cantados
3 Culpada
“Case com Loki e estará perdoada”
Era como se o tempo tivesse parado.
Eu ouvi o rugido das exclamações e injúrias dos aesir ao meu redor.
“Ela não merece isso!”
“Loki é o culpado”
“Ela se deixou seduzir”
“Ela sabia o que estava a fazer. Ela merece a punição”
“Merecia uma punição pior!”
“Traidora!”
“Meretriz!”
Apenas fechei os olhos e esperei pelo pior. Não me arrependia de nada. Eu não tinha feito nada de errado, eles é que eram monstros, cegos e tolos. Loki tinha razão o tempo todo.
Eu o escutei gritar com o Pai de Todos, mas o som era distorcido. Eu não conseguia entender as palavras, mesmo que estivesse a poucos metros de mim. Odin apenas lhe dirigiu um olhar, e Loki se calou. Os dois se afastaram do salão, e todos se calaram.
Depois de muitos minutos, Loki voltou, pálido e trêmulo. Olhou para mim de relance, balançou a cabeça, e foi-se embora. Nunca soube o que se passou naquele momento.
Eu tive de ser arrastada para meu quarto por Freya. Ela era das poucas pessoas ali que não queria me matar.
Nos sentamos na minha cama, ela na beirada e eu com as costas na parede, agarrada aos meus próprios joelhos. Sentia meu rosto dormente, e minha cabeça a girar. Se fechasse os olhos, conseguiria ouvir os uivos de Fenrir, nas profundezas de seu calabouço.
“Eu sinto muito, Sigyn” murmurou Freya, estendendo um braço para segurar minha mão “Eu queria poder fazer algo…”
Balancei a cabeça.
“Há piores punições” respondi.
Ela limpou uma lágrima que escorreu por seu rosto.
“Se ele… se…” Freya parou, e respirou fundo “Se ele te machucar, de qualquer forma… venha até mim e eu o castrarei com minhas próprias mãos”
“Se me ajudar, você será cúmplice de uma traidora”
“O dever de Frigga deveria ser de proteger as mulheres, mas ela não pode se opor ao marido. Eu já me opus a Odin antes. Eu não tenho medo de me queimar para proteger uma amiga de Vanaheim”
Eu apertei a mão dela, e deixei meu choro finalmente escapar. Freya me abraçou. Eu tinha medo. Eu me sentia sozinha. Eu queria voltar para casa, mais do que nunca.
Os preparativos para o casamento foram feitos apressadamente. Todos queriam despachar o assunto e se livrar de nós o mais rápido possível.
No dia seguinte ao incidente com Fenrir e o meu julgamento, já ninguém me dirigia a palavra, ou o olhar. Até mesmo Freya fora misteriosamente chamada para uma missão importantíssima por parte de seu irmão, e não voltou para me visitar. Fui dispensada de meus serviços para a rainha. Fiquei completamente sozinha, vagando Valaskjálf como um fantasma.
Foi em um dos jardins que finalmente encontrei meu agora noivo. Loki havia se transformado em uma cobra, e sorrateiramente rastejou até os meus pés, onde voltou ao seu estado natural. Quase tive um enfarto.
“O que faz aqui? Achei que os deuses te proibiriam de voltar ao palácio” sussurrei.
“Eu te pergunto o mesmo”
Suspirei, e me limitei a olhar para ele. Parecia cansado, os cabelos ruivos mais desordenados que o habitual, a barba parcialmente chamuscada e os olhos apagados. Não fez menção de sentar-se ao meu lado, permanecendo de pernas cruzadas em cima da grama seca.
“Desculpa” eu disse, depois de reunir toda minha coragem “Eu não queria que acabasse nisso, não… não fiz de propósito”
Loki deu um riso seco.
“Sigyn, eu nunca imaginaria que você armou isto tudo só para poder se casar comigo”
Desviei o meu olhar, e Loki tomou as minhas mãos.
“Não vou mentir, não esperava que você fosse tão corajosa a ponto de tentar libertar Fenrir” ele me disse “Mas se os aesir queriam me punir, bem, escolheram a mulher errada como punição. Você dificilmente é um fardo, Sigyn”
“Eles me odeiam, Loki…” eu continuei “O que eu faço agora? Como sei que não tentarão me machucar? Me condenar a um eterno sofrimento? Vanaheim conhece bem a fúria de Asgard. me dar a você foi só o início, o que virá depois?”
“Eles que tentem te atingir, minha querida” Loki respondeu, soltando minhas mãos e erguendo meu queixo para me encarar “Vamos provar que subestimaram Sigyn de Vanaheim. De alguma forma…”
“Vamos nos vingar” eu completei, mesmo sem acreditar muito no que estava a dizer.
Loki abriu um sorriso, e se ajoelhou, colando seu rosto ao meu.
“Eu te prometo” ele disse, e beijou meus lábios, com a mesma leveza que no dia anterior.
Eu ri, amargamente.
“Agora estou aceitando promessas do deus da mentira” murmurei, nossas faces ainda meros centímetros uma da outra.
“Garota esperta” ele respondeu, satisfeito.
Eu quis perguntar a Freya ou Baldr como se conjurava um Jötunn, mas esta pergunta seria vista como mais um ato de traição, ou então, uma maneira muito criativa de cometer suicídio.
Sabia que os gigantes não eram bem-vindos em Asgard, mas também já tinha visto Angrboda mais de uma vez se esgueirando pela periferia do reino, caçando, causando pequenas confusões, ou apenas aproveitando a companhia de Loki. Conhecendo os dois, eles provavelmente gostavam da emoção de serem pegos, e terem que matar um guarda ou outro para encobrir o seu caso.
Agora, com Fenrir preso, esperava vê-la com mais frequência ali, tentando resgatar o filho. Naquela noite, escapei do palácio com ajuda de uma ilusão para distrair os guardas, e meti-me floresta adentro, armada com uma pequena adaga e a chama em minhas mãos.
Andei por quase uma hora antes de encontrar a gigante numa clareira. Ela estava sentada numa enorme pedra, e afiava algum instrumento – eu assumi que era uma faca Jötunn, mas que em comparação com o meu tamanho parecia mais uma espada longa.
Me aproximei devagar, e fazendo barulho, para não a assustar, mas Angrboda me viu com o canto dos olhos muito antes de eu chegar perto dela.
“Ora, olá pequena Sigyn” ela disse, virando-se para mim e deixando a faca de lado “O que faz nestas bandas a esta hora da noite?”
“Eu estava à sua procura”
“Oh, e a que devo a honra?”
Suspirei e desviei meus olhos para o chão.
“Com certeza já ouviu as notícias”
Ela sorriu, não com maldade, mas como se estivesse a segurar o riso diante de uma piada.
“É claro. Meus parabéns ao casal”
Senti meu corpo todo tensionar, meus lábios se comprimiram, e eu me remexi onde estava.
“Eu achei que deveria falar com você”
“Por quê?”
“Só queria te dizer que… que peço desculpas. Não foi minha intenção, eu não queria… não queria que acabasse assim. Não queria que o Loki ficasse preso, de alguma forma, e que acabasse o roubando de você”
Para minha surpresa, Angrboda deixou a cabeça cair para trás, abriu a boca e gargalhou. Um som retumbante, que eu tinha certeza de que iria chacoalhar toda Asgard. Ela era uma criatura aterrorizantemente bela, com sua pele azul e os cabelos negros presos em tranças repletas de contas.
“Oh, querida Sigyn… não tinha que se preocupar comigo. Seja lá que armadilha Odin armou para vocês, não me afeta de forma alguma. Loki e eu não temos uma longa história de amor proibido, como certos cronistas gostam de espalhar por aí. Eu não estou zangada contigo”
“Mas…” eu balbuciei “Ele é pai dos teus filhos”
“Isso não tem nada a ver com amor, ao menos, não o amor romântico, que está claro que é o que você sente por ele” Angrboda retribuiu. Eu corei “Loki e eu temos gostos parecidos, mentes parecidas. E você sabe bem o quão charmoso e convincente ele pode ser. É outro tipo de amor, não é incondicional, ou eterno… eu o amo enquanto me for conveniente”
“E ainda o ama?”
“Como um amigo. Um parceiro de crimes. Não se preocupe, eu não vou interferir no seu casamento, tenho mais o que fazer. Jotunheim está desesperado pela minha liderança, e eu tenho planos a pôr em prática… mas não contes a ninguém”
Assenti, de certa forma aliviada, mas ainda me sentindo estúpida pelas minhas palavras. É claro que o amor funcionava diferente para Loki. Foi tolice minha assumir que ele era como uma pessoa normal.
Angrboda se levantou, e com um enorme passo estava perto de mim, e pôs uma mão gelada em meu ombro.
“Serei eternamente grata pelo que tentou fazer pelo Fenrir” ela me disse, seu sorriso quebrado por um furtivo olhar de tristeza “Pode não ter dado certo, mas é o gesto que conta. Eu arranjarei um jeito de tirá-lo de lá”
Era fácil se esquecer de que Angrboda era uma mãe em dor. Seus três filhos exilados. Loki indiferente, ou indisponível. Mas ela continuava sendo uma das feiticeiras mais poderosas dos nove reinos. Sua raiva por Asgard era lenha para sua fogueira, e não correntes para os seus pés.
“Eu queria ser forte como você” admiti.
“Você é forte, doce Sigyn” Angrboda me respondeu, agora com a mão em meu rosto “Mais do que imagina, e de mais maneiras que suspeita. Acredite em mim, eu reconheço minhas iguais”
Apesar do frio causado pela proximidade da gigante, meu rosto mais uma vez ardeu, não sei se de vergonha, ou algo mais primitivo. Agora percebia perfeitamente porque Loki se apaixonaria por ela.
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