Contos e Flores
1 Capítulo 1
Notas iniciais
CONTOS E FLORES
O dia mais curto do ano em Equestria, marcado por festividades comemorando o Solstício de inverno, data a partir da qual os dias começavam a ficar cada vez mais longos e simbolizavam a vitória de sua Regente, a Princesa Celestia, sobre as forças das trevas e da escuridão que oprimia a terra ocorrera a poucos dias, indicando o início oficial da estação mais fria do ano no reino.
As temperaturas assim como a neve haviam caído por toda Equestria cobrindo as paisagens com um cândido tapete graças aos esforços dos pequenos pôneis de todas as raças, sejam terrestres, unicórnios ou pégasos pois cada região possuía sua própria tradição para a passagem das estações e todos trabalhavam arduamente para que todo o reino estivesse pronto para uma das comemorações mais esperadas do ano, a Noite da Lareira Calorosa, também chamada de “Hearth's Warming Eve” em equestriano antigo, como preferiam os conservadores e os puritanos.
Isto porque, a Noite da Lareira Calorosa não era apenas mais um dos diversos feriados comemorados pelos pequenos pôneis mas simbolizava algo muito maior, não se tratava apenas da criação de Equestria como reino, mas sobre a união das raças que permitiu que derrotassem os Windigos e sobrevivessem as intempéries, não apenas do clima mas principalmente a que pairava sobre seus corações à época, aquecendo-os com a chama da amizade.
Em Canterlot não poderia ser diferente, os unicórnios haviam utilizado intrincados feitiços para trazer os primeiros flocos de neve logo nas primeiras horas do inverno e realizaram a passagem das estações em tempo recorde como de costume, de modo que a capital já se encontrava toda decorada bem antes do feriado chegar.
Como sempre acontecia nesta época do ano todas as ruas, casas e lojas da cidade estavam enfeitadas com luzes multicoloridas, que piscavam em padrões harmoniosos e fitas de diversas cores e formatos, mas os tons verde, azul e dourado se sobressaíam por simbolizarem, cada qual, uma das raças de pôneis existentes e sua união.
O azul representava o céu e os pégasos devido a sua habilidade com vôo e controle do clima, o verde simbolizava os campos gramados e os pôneis terrestres, incansáveis trabalhadores responsáveis pelas plantações que alimentariam todas as espécies e o dourado remetia a aura dos chifres dos unicórnios, mestres em magia.
Também era dedicada muita atenção a outro símbolo das festividades, a árvore da Lareira Calorosa que sempre era enfeitada com esmero pelos pôneis, pendurando belos globos de vidro delicado e ornamentados a casco de cores diversas e brilhantes com formatos variados como estrelas, gotas d’água ou meias-luas.
Além das decorações e luzes em residências, comércios e árvores espalhadas em praticamente todos os lugares ainda era possível ver diversos pôneis e fortalezas de neve construídas pelos pequenos potrinhos para sua própria diversão.
As brincadeiras, os sorrisos espalhados nos rostos dos transeuntes, as músicas calorosas cantadas pelos diversos corais espalhados pela cidade, tudo transmitia uma sensação de acalento e conforto que envolvia a todos de forma sublime, tudo era primoroso.
Mesmo aqueles que não eram unicórnios podiam sentir uma magia emanando no ar em forma de amor e felicidade quase palpáveis, era uma celebração que transcendia a tudo e a todos, inclusive outros povos como grifos e zebras que não participaram da fundação de Equestria também comemoram esta data tamanha importância e significado que ela carrega.
É praticamente impossível não se contagiar com este ambiente festivo e alegre, não se não se emocionar com as belas canções ou ficar extasiado com a beleza da decoração e todo o sentimento que o feriado carrega e sentir no próprio peito um calor reconfortante.
“Hearth's Warming Eve” para os pôneis tradicionalistas, “Weihnachten” para os grifos, “Matunda ya Kwanza” para as zebras, não importa qual o nome se dê a esta data tão especial uma coisa é certa, todo mundo gosta da Noite da Lareira Calorosa.
Bem, quase todo mundo.
Para Silver Tongue a Noite da Lareira Calorosa não passava de um coice nas bolas!
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Silver Tongue era uma égua balzaquiana no auge de sua forma física e mental, sua crina possuía uma tonalidade de cinza muito escuro, quase negro com algumas partes de tom mais claro estando sempre presa com um coque banana que deixava algumas mechas soltas caídas sobre seu rosto, o que aliados aos seus óculos de armação fina contribuíam para lhe dar um ar austero, porém mantinha sempre um sorriso jovial em sua face.
A pelagem alva de seu corpo esguio contrastava com a cor de sua longa cauda sedosa a qual tinha a mesma tonalidade de sua crina, ela trajava um blaser feminino azul marinho bastante fino e elegante, o que lhe conferia uma aparência muito bela, inclusive causando inveja a muitas éguas mais novas que ela.
Ela havia acabado de sair do anfiteatro de Canterlot onde assistira a clássica peça teatral sobre a Noite da Lareira Calorosa e a fundação do reino de Equestria com um sorriso malicioso no rosto, não que ela não conhecesse aquela história de cor e salteado, mas naquele ano a apresentação fora um pouco diferente.
Por algum motivo que desconhecia e nem fazia questão de conhecer, a Princesa Celestia dispensou a trupe de costume e deixou a peça a encargo de um grupo teatral desconhecido e claramente amador naquele ano, o que em sua opinião foi ótimo.
Por não serem profissionais acostumadas a representar aqueles papéis à exaustão a atuação daquelas atrizes iniciantes transmitia uma autenticidade emocional palpável como se fosse a primeira vez que faziam aquilo, o que foi um alívio à tradicional peça comercial e insossa que sempre era apresentada anualmente, até aquele pequeno narrador roxo e pentelho não atrapalhou tanto.
Mas o motivo do sorriso maroto em seus lábios na saída do teatro não era devido à encenação da peça em si mas sim uma por causa de uma pégaso azul de crina multicolorida que interpretou a comandante Hurricane:
"Santa Celestia, aquela égua é um colírio aos olhos de qualquer um com aquele corpinho musculoso e torneado, sem falar naquele temperamento impetuoso esperando ser domado." Silver Tongue suspirou devaneando, "aposto que poderia ensinar uma coisinha ou duas a ela.", pensou ruborizando de forma conspiratória, um tanto quanto ofegante até.
Mas o rubor, assim como o sorriso em seu rosto desapareceram quando a primeira lufada de realidade em forma de um vento gélido atingiu seu corpo na saída do teatro, sua família tradicionalista jamais admitiria um romance destes, de modo que tudo o que lhe restava era um sonho vago de ser feliz ao lado de alguém especial.
Ela suspirou fundo e chacoalhou a cabeça, seus parentes eram mais um motivo para não gostar daquele feriado estúpido, em geral todos eles eram idiotas, preconceituosos, interesseiros que se importavam apenas em manter o bom nome da família e com o valor dos presentes que poderiam ganhar.
Nenhum deles jamais aceitaria que ela aparecesse com uma égua como companheira no evento ao invés de um garanhão, afinal alguém de uma família refinada como ela jamais poderia causar um escândalo daqueles, a única exceção seria sua irmã mais nova Roseluck, que ficaria extasiada pois era a única que sabia do segredo de Silver e sempre a apoiara, encorajando-a a seguir seus sentimentos.
Por um momento fugaz a idéia de finalmente assumir sua homossexualidade e chocar seus familiares soou deliciosamente prazerosa em sua cabeça, “talvez eu devesse retornar lá e me apresentar àquela atriz.” pensou de forma conspiratória enquanto voltava seu olhar para a entrada do teatro porém desistindo do plano logo em seguida.
Por mais que Silver Tongue quisesse flertar com aquele pedaço de mau caminho em forma de pégaso ou enfartar um ou mais parentes naquela Noite da Lareira ela não tinha mais tempo a perder, já havia procrastinado demais aquela tarde e ela ainda tinha que comprar presentes para todos.
Com um suspiro cansado ela olhou ao redor, a despeito do frio as ruas estavam cheias de pôneis fazendo as últimas compras para a grande noite, as lojas estavam lotadas e todos andavam apressadamente pelas ruas, aquilo com certeza seria um inferno.
Ano após ano ela prometia a si mesma que compraria tudo antecipadamente para evitar aquela loucura de última hora, no entanto o que mais detestava na Noite da Lareira era exatamente comprar presentes e sempre adiava aquele momento torturante até o último segundo.
“Mas nem tudo está perdido, com um pouco de sorte algum monstro enfurecido vai aparecer e destruir a cidade ou serei raptada por cães diamante.” devaneou olhando esperançosamente para os lados, se decepcionando um pouco ao perceber que tudo continuava normal e nem um desastre nem outro iria acontecer.
Silver caminhou para o centro comercial lotado com a mesma disposição que alguém caminha para sua própria execução, o problema não era comprar os presentes ou enfrentar lojas lotadas em si, ela não se importava muito com o tumulto ou o valor gasto, o problema era outro.
O que a deixava irritada era o fato de ser obrigada a comprar presentes a toda à família apenas por uma obrigação social, para Silver presentear alguém significava encontrar algo que a pessoa realmente gostasse ou a representasse de alguma forma, algo simples mas ofertado de bom grado era o melhor presente que alguém poderia receber.
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Seu pensamento retornou a época em que era apenas uma potrinha e de como esperava ansiosamente pela Noite da Lareira Calorosa com sua irmã mais nova, naquela época tudo era mágico, tinha um significado diferente, mas agora tudo parecia comercial e apático.
Claro que ela gostava dos brinquedos que ganhava dos adultos quando seu flanco ainda era branco, mas o que mais gostava era dos presentes que ela e sua irmã faziam uma para a outra.
Como sempre gostara de escrever, Silver criava todos os anos uma poesia ou um pequeno livreto de aventuras para presentear sua irmãzinha na Noite da Lareira Calorosa e sempre recebia um colar ou uma coroa de flores em troca, pois este obviamente era o dom especial de sua irmã.
A lembrança do sorriso radiante no rosto de Roseluck era nítida em sua memória, a forma como seus olhos brilhavam quando os heróis das historietas que escrevia derrotavam os vilões e o abraço caloroso que recebia em troca sempre foi indescritível.
Inclusive foi em uma Noite da Lareira Calorosa que ambas ganharam suas belas marcas, sua irmã uma bonita rosa desabrochada devido a sua destreza em criar lindos arranjos de flores e Silver uma pena e um pergaminho que demonstrava seu amor e habilidade com as palavras.
Ganhar sua bela marca é um momento de grande felicidade para qualquer pônei em Equestria, no entanto um evento que deveria ser de júbilo para Silver e Roseluck na realidade marcou o início do desastre que culminaria separando ambas.
Silver Tongue sonhava em ser uma escritora de romances e escrever grandes e gloriosas sagas para divertir a todos assim como divertia sua irmã, no entanto, ainda que uma autora famosa pudesse ganhar muito dinheiro essa era considerava uma profissão indigna para uma família onde seus membros mais ilustres ocupavam altos cargos políticos ou diplomáticos.
Assim, mesmo a contragosto Silver se dobrou a vontade de sua família e seguiu a carreira jurídica, uma profissão incomum mas considerada nobre em equestria e com certeza uma opção bem mais adequada que desperdiçar seu talento com livros tolos.
Por mais que Equestria seja um reino pacífico e seus cidadãos pessoas honestas e de boa fé, conflitos sempre surgem entre os pôneis pelos mais variados motivos, a maioria entra em comum acordo ou levam pessoalmente seus casos ao representante local e resolvem as diferenças sem a necessidade de um patrono, por isso a profissão é tão rara.
No entanto, quando as disputas envolvem grandes somas de bits entre grandes produtores, redes de franquias ou mesmo comércio internacional os interessados preferem contratar outros pôneis com habilidade de persuasão para peticionar por eles nos processos.
Algumas destas contendas são justas, mas na maioria dos casos comerciantes poderosos recorrem ao sistema judiciário de Equestria para defender interesses mesquinhos, como tirar do mercado um concorrente ainda pequeno mas promissor de modo a garantir seu monopólio.
Ainda que o desejo de seu coração fosse outro, Silver mostrou-se extremamente habilidosa em sua profissão raramente perdendo uma demanda, fosse ela justa ou não e a maioria de seus clientes, indicados pela sua família se importavam mais com bits que com justiça, o que muitas vezes fazia com que ela sentisse nojo de si própria ao ganhar um processo.
Quando sua irmã declarou que iria abrir uma pequena floricultura sua família tentou fazer o mesmo com ela, argumentando que alguém de sua posição deveria ser a decoradora chefe do palácio real e ameaçando deserda-la caso continuasse com aquela idéia estúpida.
No entanto Roseluck sempre tivera um espírito irascível e não aceitou as imposições de sua família decidindo de forma irresoluta que partiria para viver seu sonho, com ou sem a benção deles.
Na noite anterior a partida de sua irmã, Silver argumentou, exigiu e até implorou de joelhos com os olhos cheios de lágrimas para que sua irmã desistisse de partir e ficasse junto a ela, mas Roseluck apenas sorriu e perguntou:
“– O que a Magnífica Gwen faria? Se acovardaria ou lutaria contra o mundo atrás de seus sonhos?”
Silver se calou, a magnífica Gwen era um dos personagens que ela própria tinha criado para os contos que escrevia para sua irmã, uma pequena mas persistente cadela diamante que jamais desistia não importando o quão difícil à situação fosse.
Naquele momento Silver notou que assim como a personagem fictícia que criara, sua irmã iria até as últimas consequências atrás de seu sonho e nada que pudesse dizer a faria mudar de idéia.
Roseluck partiria no dia seguinte para Ponyville e Silver sabia que a culpa era dela por encher a cabeça da irmã menor com sonhos tolos, foi a primeira e mais amarga derrota que teve depois de descobrir seu talento especial.
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Com um sorriso amargo Silver voltou seus pensamentos ao presente e imaginou o que aconteceria se escrevesse um romance ou uma poesia para cada membro de sua família e os presenteasse com algo tão singelo? Provavelmente seria internada em algum hospício, ou banida, ou banida e internada em um hospício dentro de uma masmorra.
Ela fitou de forma vaga uma das inúmeras vitrines decoradas com os mais variados tipos de presentes sem se decidir ou se interessar por algum item em específico, não que fizesse alguma diferença pois seus parentes jamais estariam satisfeitos e provavelmente iriam trocá-los de qualquer modo.
Por anos ela se esforçou para tentar agradar seus familiares e trazer de volta o real significado daquela data apenas para descobrir que tudo não passava de uma farsa, que a Noite da Lareira Calorosa era algo puramente mercantil apenas para aumentar os lucros dos comerciantes e todo aquele sentimentalismo se resumia a mentiras e convenções.
E ainda assim Silver atuava com perfeição aquela comédia grotesca, sempre comparecendo na reunião anual da família e presenteando a todos mesmo sabendo da indiferença de seu ato, cumprimentando e abraçando pessoas que não gostava e tampouco se importavam com ela, participando de brindes e votos de felicidade mútuos mas vazios.
Ela apertou os olhos e chacoalhou a cabeça para se livrar das lágrimas que estavam se formando e olhou ao redor com a vista embaçada, estava cercada de fantasmas, borrões de pôneis aglomerados se acotovelando para gastarem suas economias em presentes para pessoas que não gostavam, fingindo ter uma alegria que não existia.
O sabor amargo de bile subiu a sua garganta enquanto presenciava aquela cena dantesca, os pensamentos se formando como um turbilhão em sua mente:
“Tolos, imbecis, será que não percebem a inutilidade de tudo isto? Que não passam de fantoches manipulados?”
A ira e mágoa há muito represadas começaram a transbordar em Silver, sua visão cada vez mais borrada distorcendo tudo o que via:
“Hipócritas e idiotas todos eles, boçais que sequer conseguem enxergar que tudo isso é fútil? Que tudo isto é sem sentido? QUE MINHA VIDA É VAZIA?”
Seu último pensamento a atingiu de forma avassaladora e Silver não foi mais capaz de conter suas lágrimas, uma das éguas mais influente do reino, temida por todos dentro dos tribunais e capaz de convencer a própria Celestia a erguer o sol à meia noite com seus argumentos se encontrava chorando e tremendo silenciosamente em pleno centro de comercial de Canterlot.
Às vésperas da Noite da Lareira Calorosa.
Sem que ninguém se importasse.
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A certeza que sua vida era vazia e que não valia um bit sequer finalmente ficou clara para Silver.
Ela não tinha amigos, nunca havia vivido uma grande paixão e em tempo algum usou seu talento para criar algo que realmente gostasse, sempre agindo e se comportando de acordo com os moldes sociais ou o desejo de sua família.
Era tão pobre que tudo o que possuía era dinheiro.
“- Moça?”
Todas as máscaras que usava diariamente caíram uma após a outra. A máscara de felicidade, de determinação, de sucesso, de indiferença, todas se despedaçaram completamente deixando apenas uma potrinha sozinha e assustada no meio da multidão.
“- Senhora?”
E a única pessoa se importaria havia partido para longe muito tempo atrás por sua causa e essa certeza fazia com que as sombras a sua volta se avolumassem, deixando-a sufocada e com o peso da culpa consumindo-a cada vez mais.
“- Hei moça!”
Silver sentiu uma pata tocar gentilmente seu braço e se virou ainda um pouco aturdida, percebendo pela primeira vez a pequena unicórnio de pelagem branca levemente rosada e crina rosa claro que tentava chamar sua atenção ao seu lado, encarando-a com grandes olhos magenta.
“- A senhora está bem?” Perguntou a unicórnio.
“- Quando...eu...o que?” Balbuciou Silver ainda um pouco confusa, voltando a realidade aos poucos.
“- Eu perguntei se a senhora está bem?” Perguntou novamente a potrinha com uma preocupação genuína na voz.
“- Eu.....” Silver suspirou profundamente, se recompondo um pouco antes de falar:
“- Sim pequenina eu estou bem, muito obrigado por perguntar.” Respondeu tentando sorrir sem muito sucesso.
A pequena unicórnio de flanco branco continuou a encarando incrédula por um tempo antes de perguntar novamente:
“- tem certeza? A senhora estava chorando e tremendo.”
“- Eu....” Silver fechou os olhos escolhendo bem as palavras que iria usar para responder como estava se sentindo a uma criança:
“- Digamos que perdi algo muito importante que eu gostava e fiquei um pouco triste, mas já estou melhor.” Mentiu em um desabafo.
"- Por que não escreve para uma das princesas e pede pra ela te ajudar a achar?" Sugeriu a pequena unicórnio com o rosto iluminado pela inocência e continuou:
"- Mamãe me contou que na Noite da Lareira Calorosa elas podem te dar algo que quer muito." disse entusiasmada, "mas você tem que ser boazinha e se comportar durante toooodo o ano" e terminou a frase fazendo um arco lentamente no ar com a pata para enfatizar o longo tempo que deveria se comportar.
Ao ouvir aquilo Silver sorriu, com sinceridade desta vez e enxugou as lágrimas do rosto com a pata, a inocência daquela potrinha desconhecida era de alguma maneira reconfortante.
Mesmo que aquilo não passasse de uma lenda e as princesas realmente pudessem realizar desejos ela conhecia a governante de Equestria pessoalmente, e por mais que Celestia possuísse enormes e inimagináveis poderes mágicos ainda assim estava além de sua capacidade alterar o passado.
"- Acho que isso só funciona com potrinhas bonitinhas e educadas como você, além do mais eu não me comportei muito bem esse ano." Ou os últimos quinze ou vinte pensou, mas achou prudente guardar isto para si própria.
Ao ouvir aquilo a unicórnio alva ficou com o semblante sério antes de argumentar com uma lógica inocente, típica de crianças:
"- Mas isso não é justo, hoje é a Noite da Lareira e ninguém deveria ficar triste na Noite da Lareira" disse emburrada, mas logo em seguida abriu um sorriso entusiasmado "Já sei, feche os olhos."
"- Desculpe?" Perguntou Silver erguendo uma sobrancelha.
"- É uma surpresa, feche os olhos sim? Por favor!" disse, "e não vale olhar!" Enfatizou séria.
Com um suspiro Silver concordou e fechou os olhos, ouvindo logo em seguida o ruído característico que o chifre dos unicórnios emite quando fazem magia junto com alguns grunhidos da potrinha de crina rosada que com certeza ainda estava aprendendo as artes arcanas e aguardou um pouco até sentir algo sendo colocado em sua crina, próximo a orelha.
"- Prontinho pode olhar, aposto que vai se sentir bem melhor agora" disse a unicórnio, orgulhosa de seu trabalho.
Ela abriu os olhos e se virou para a vitrine que, ainda que não fosse o melhor dos espelhos era o suficiente para Silver contemplar sua imagem refletida e ficou atônita com o presente que havia recebido.
Um singelo botão de rosa, igual à bela marca de sua irmã agora decorava seus cabelos.
Seus olhos voltaram a se encher de lágrimas por um motivo completamente diferente desta vez, não era mágoa ou ressentimentos que sentia agora, mas uma saudade e nostalgia reconfortante.
Um presente simples e sincero, ofertado de bom grado por uma estranha foi o suficiente para Silver perceber que o problema não era aquele feriado, que parecia comercial e mesquinho aos seus olhos ou que todos os pôneis haviam se transformado em interesseiros e gananciosos com o passar dos anos.
Não foi a Noite da Lareira Calorosa que havia mudado, o que mudou foi a forma como Silver encarava a data se focando apenas nos pontos negativos ao invés de aproveitar o simbolismo de amizade e cooperação que ela carregava.
Não foram os pôneis que se tornaram mesquinhos mas foram as decisões que ela tomara durante sua vida que a deixou cercada de hipócritas e interesseiros.
Seus pensamentos se voltaram mais uma vez àquela fatídica noite em que implorou, sem sucesso, para que sua irmã desistisse de partir para poderem continuar unidas e se recordou que Roseluck também implorou, pelo mesmo motivo, para que Silver a acompanhasse e juntas vivessem a vida com a qual sonhavam, e não uma que fosse imposta a elas.
Ninguém no reino, nem mesmo a princesa do sol podia mudar o passado, mas Siver Tongue tinha o poder de mudar seu futuro.
Com este pensamento reconfortante e um sorriso no rosto ela agradeceu “tinha razão pequenina, eu me sinto bem melhor agora, obrigada.”
“- eu ainda não me apresentei, meu nome é Silver, e você, como se cham....”, mas ao se virar notou que a unicórnio não estava mais lá.
Preocupada Silver olhou freneticamente para a multidão a procura da pequena sem sucesso, do mesmo modo que parecia ter surgido do nada desaparecera no ar, provavelmente havia trotado para longe enquanto ela estava devaneando.
Silver olhou para a torre do relógio e percebeu que se fosse para a estação de trem conseguiria pegar o expresso noturno para Ponyville, a viagem era longa e chegaria ao seu destino apenas no outro dia, mas achava melhor assim, haveria tempo suficiente para escrever um conto de presente para sua irmã no caminho.
Por outro lado se levasse tal insubordinação adiante isso com certeza atrairia a ira de seus familiares sobre si, e eles eram influentes o suficiente para garantir que ela nunca mais conseguisse um cliente em Canterlot, tempos difíceis com certeza a aguardariam antes que conseguisse re-estruturar sua vida.
Abandonar tudo e recomeçar sua vida do nada sem qualquer garantia naquela altura de sua vida com certeza era loucura. Em trinta anos jamais tivera coragem de contrariar sua família e se partisse agora com certeza eles fariam de tudo para tornar sua vida um inferno.
“Que Celestia queime meus fundilhos com uma erupção solar se eu estiver mentindo, mas minha vida já é um inferno!” pensou com um sentimento de revolta juvenil crescendo dentro do peito, continuar com aquela vida vazia ou arriscar tudo e correr atrás de seus sonhos?
Silver riu ao se lembrar da resposta que sua irmã Roseluck lhe deu ao responder essa mesma pergunta muitos anos atrás:
“– O que a Magnífica Gwen faria?”
Fim.
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