Contos e Descontos

1 Alfred & Anthony - Parte Primeira


Era noite, estava em um beco com um homem que havia conhecido há somente três dias. Deus, como minha vida mudou tanto de lá pra cá.

“Venha”, ordenou. O segui até uma porta de madeira escura no fim de tal lugar. Ele deu três batidas e foi atendido por uma mulher com cabelos brancos e olhos fundos e negros, ela abriu passagem e entramos. Lembrei-me de um abatedouro no momento em que pus os pés dentro da estranha sala. O odor fétido de corpos em decomposição me deu enjoos. Mesmo assim, segui em frente.

O homem que me acompanhava, cujo nome era Alfred, andou até um cômodo no andar inferior e eu, naturalmente, acompanhei. Fomos até outro homem, este totalmente desconhecido para mim. Alfred o cumprimentou, e eu também o fiz, imitando seus movimentos. Levado pela curiosidade e sem pensar, perguntei:

“Como vocês mantém um local como esse?”, imediatamente percebendo meu erro. O homem me olhou com reprovação, me intimando a ficar calado, o que eu prontamente atendi.

Alfred me olhou com certa preocupação, porém no mesmo instante virou a cabeça para aquele indivíduo nas sombras de sua cadeira e começou sua conversa de negócios. Que negócios? Você provavelmente está se perguntando, bem, deixe-me explicar desde o começo.

Meu nome é Anthony. Sou, ou melhor, era um assassino profissional. Cada cabeça explodida me rendia um ótimo dinheiro, até o dia em que fui pego. Na prisão, Alfred me ofereceu uma saída. Eu poderia me juntar a ele e trabalhar para sua organização ou eu poderia apodrecer na cadeia. Veja bem, mesmo nos dias atuais ainda é possível manter uma organização secreta, com alianças certas e dinheiro suficiente para subornar até mesmo os mais influentes políticos, você pode fazer qualquer coisa. Mas o assunto não é esse. Aceitei a proposta, e Alfred soltou um pouco de dinheiro para o juiz que decretou minha sentença e num prazo de dois dias estava solto. Ou seja, ontem. Como ele me conheceu? Ainda não sei, porém creio que eu tenha simplesmente matado as pessoas certas.

Alfred não me paga e me proibiu de aceitar quaisquer outros trabalhos fora aos que ele me propor. Mas ele foi o homem que me deu a liberdade novamente, o que eu posso pedir em troca disso? Eu morreria trancado numa cela, sem comida, cama ou roupas de qualidade se não fosse por ele.

Ele e sua organização, a qual eu nem sei o nome, fazem pesquisas com seres vivos enquanto ele ainda estão, bem, vivos. Isso é tudo o que sei até o momento, pois ele não me disse muito sobre tal organização secreta. O homem do outro lado da mesa ouvia atentamente tudo que era dito por Alfred, e depois de pensar muito bem em todos os termos apresentados, concordou.

Um pequeno resumo do que eles concordaram pode ser dito em três palavras: corpos para estudo. Mas não eram corpos normais. Os corpos em questão eram de algo não humano, que não sei exatamente como definir. Alfred havia me dito para não fazer perguntas, apenas segui-lo e imitar seu comportamento, e eu o fiz, deixando todas as perguntas para mais tarde.

Assim como minha vida havia sido modificada, os corpos também seriam. Ao voltarmos para o centro de pesquisas de Alfred, os corpos foram abertos, órgãos retirados e tudo o que poderia ser feito, foi feito.

“Sabe o que é isto?”, perguntou-me. Fiz que não com a cabeça. “Esse é o espécime mais raro de toda Terra. Imagine o quanto eu posso aprender com o meu próprio drocar? Uma espécie como essa é difícil de se encontrar, e mais ainda de se controlar. Quando me ligaram dizendo que Janos tinha encontrado o corpo de uma, não me aguentei de felicidade”. Segurou as asas do ser, que lembrava muito um humano, e cortou um pedaço. “Está vendo isso? É a pura essência da magia, veja como perde sua cor a cada segundo que passa longe do corpo”.

Alfred parecia em choque com tudo aquilo. Perguntei-lhe porque ele estava me dizendo aquelas coisas e o que eu tinha a ver com isso. “Tudo a seu tempo”, foi o que ele respondeu.

Continuou me contando sobre a antomia do corpo, falando o quanto ele poderia descobrir com aquilo e tudo mais. Perguntei de onde tal animal se originava, e ele me respondeu que não sabia, e que uma drocar não era um animal.

“Você não chama um lobisomem de animal, ou um vampiro de animal, nem mesmo uma fada, porque deveria chamar uma drocar? Não, elas são inteligentes, as vezes mais que nós, humanos. E diferentemente de nós, elas tem poder. Eu já vi com meus próprios olhos o momento em que uma drocar flutuava no chão. Estava tentando capturá-la, no entanto, fui eu quem fiquei desacordado por várias horas, acordando sem saber onde estava”.

Depois de muitas horas de estudo, comigo anotando tudo o que ele dizia, como ele havia me pedido, ele finalmente me deixou descansar. Fui dormir, e acordei na manhã seguinte com uma carta e uma bolsa em minha cabeceira.

Sentei-me na beirada da cama e abri o envelope, era de Alfred.

“Anthony, devo agradecer pelo seu trabalho nesta noite. Dentro dessa bolsinha está um pagamento simplório pelo que você escreveu. Tive de sair hoje, durante a manhã. A drocar ainda está aí, se quiser brincar um pouco com ela, fique a vontade, mas anote tudo o que você fizer. Tenho outro trabalho para você está noite.

Sem horário para chegar em casa.

Atenciosamente, Alfred Bourbon.”

Abri a bolsa e contei o dinheiro. Aproximadamente setenta euros.

Depois de tomar meu café da manhã, decidi sair um pouco daquele lugar. Fui andando pela rua, sem pensar em algum lugar para ir, até que cheguei a um parque. Andei por lá e por fim me sentei, observando aqueles que passavam por lá. Se você nunca observou os comportamentos e estilos das pessoas, não sabe o que está perdendo.

Um senhor, de aparentemente cinquenta anos, sentou-se num outro banco, exatamente na frente de onde eu estava, e começou a alimentar os pássaros. A cada pipoca que ele jogava, comia cinco. Usava um chapéu que encobria parte de seu rosto e olhava para os lados como se esperasse alguém, depois de algum tempo assim, ele levantou-se a foi embora.

No mesmo momento, uma mulher passava com sua filha, e por algum motivo a criança não estava feliz. Presumi que talvez ela estivésse indo embora contra a vontade da filha. Ri quando a menina se jogou no chão em um protesto muito escandaloso a o que fosse que sua mãe estava fazendo, mas me senti culpado quando percebi que a menina estava gritando não por protesto, mas porque quando se jogou acabou machucando o nariz.

Depois de muito observar tantas outras cenas, percebi que estava com fome, e assim saí para almoçar. Olhei no meu relógio e já eram mais de duas horas da tarde. Pensei em voltar para o tal centro de pesquisas de Alfred, que agora era minha casa, mas no entanto, fui para o McDonalds mais próximo e comi um daqueles lanches gordurosos, que com certeza me matariam no futuro se eu continuasse a come-los.

Por fim, depois de uma tarde que passei andando por aí, tentando não ser reconhecido pelo pouco público que acompanhou minha prisão, voltei para a minha “casa”. Alfred ainda não havia voltado.

Fui para onde o corpo estava, fiquei observando por um tempo, até o momento em que notei algo diferente. Procurei por todas as anotações que tinha feito na noite anterior e nada mencionava aquilo, talvez Alfred tivésse deixado aquilo passar despercebido, devido ao tamanho. Antes de mexer em qualquer coisa, anotei.

A criatura também tem um órgão a mais no corpo, uma pequena bolsa próxima ao pâncreas. Não sei de que se trata, retirei-a para análise.

Então, como vi Alfred fazer tanto na noite anterior, peguei uma de suas lâminas e cortei com todo cuidado o pequeno órgão, o colocando em um vidro proporcional ao seu tamanho com o tal líquido que servia para manter a aparência dos órgãos retirados, segundo Alfred. Quando fechei o vidro, ele chegou.

Assim que ele chegou no local em que eu estava, contei para ele o que havia descoberto, e ele prontamente retirou aquilo de dentro do vidro e começou a analisá-lo, cortando-o, fazendo pequenos esquemas nos papéis, falando muito (e eu anotando o que ele dizia e fazia) e tentando descobrir tudo o que podia sobre aquilo.

No fim, o pequeno órgão acabou tão desgastado que ele já não podia fazer mais nada com ele. Nesse momento, ele se frustou. Começou a estudar todas as minhas anotações, assim como seus diagramas, esquemas e tudo o que tinha desenhado sobre a bolsa. Depois de muito tempo lá, perguntei para ele se eu poderia sair e ele, sem prestar atenção, acenou com a cabeça.

Ficou vários dias assim, fascinado com o que eu havia descoberto, e mais ainda com o que ele descobriu depois com isso. Demorou para me chamar depois disso, o que finalmente aconteceu no sétimo dia.

“Anthony, você irá fazer uma coisa para mim esta noite”, disse ele. Perguntei o que era, e ele explicou detalhadamente. “Nestes dias que passei estudando o que você descobriu, recebi uma ligação. Uma drocar foi vista em Londres, num lugar não muito longe daqui. Preciso que você a capture, viva de preferência. Caso não seja possível, mate-a. Você encontrará tudo o que precisa no aparador perto da porta de entrada da casa, agora vá!”. Saí e me dirigi ao meu quarto, lá, troquei minhas roupas e fui até o tal aparador, uma mesinha de canto ao lado da porta, e peguei um bilhete, uma pistola semi-automática e um frasco de sonífero. No bilhete, tinham todas as informações que eu precisava para achar a criatura.

Catedral de São Paulo, parte traseira.

E assim segui para lá.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.