Dairou estava no vazio, sentado com suas pernas cruzadas em um estado meditativo. Não havia espelhos à sua volta, apenas o nada. Com o canto de seu olho, viu tijolos negros sendo erguidos, um a um, depois dois a dois, até centenas flutuarem em uma mesma direção e formarem uma construção; um templo.

Dairou se levantou ao ver isso ocorrendo em todos os ângulos para onde olhava. Uma vila estava sendo formada. Sombra de Ishmoth, especificamente. Dairou se lembrava vividamemente daquele local.

Ouviu passos à sua direita e os seguiu com cautela. Pelo timbre e pelo curto intervalo entre eles, soava como uma criança correndo. Sentia que era um Troca-Peles. Desde o dia em que saiu daquele ligar, Dairou pode identificar, sentir a presença e rastrear Troca-Peles. Vê uma luz azulada no local onde o membro de sua raça está, mesmo se estiver atrás de alguma parede. Nunca descobriu o quão longe consegue senti-los com essa habilidade, mas sempre pareceu longe o suficiente.

O awreen entrou em uma ruela, precisando caminhar de lado para caber no espaço entre duas casas, e cercou o ser que fugia. Era realmente uma criança. Um garoto. Usava roupas inteiramente negras, assim como todos os awreens daquela vila, e uma máscara de corvo. Ao ver o outro, o garoto se virou e saiu correndo em pânico. Dairou hesitou em segui-lo.

Sentiu uma coceira em sua mão esquerda. Olhou para ela e viu o desenho de um corvo brilhando na sua pele embaixo da luva; um brilho tão forte que podia ser visto mesmo através do couro de mesma cor. O desenho se moveu; primeiro as asas, depois as pernas e por fim o bico. Parecia desesperado. Parecia estar tentando fugir.

Por fim, conseguiu. Primeiro a asa esquerda se levantou, libertando-se primeiro da pele e depois rasgando o couro. Ainda estava conectada à carne e não foi fácil desprender-se dos músculos. Sangue escorria a cada ligamento arrebentado, e jorrou mais ainda quando a segunda asa fez o mesmo. Dairou não sentia dor. Não sentia desespero. Sentia–se vazio como o lugar à sua volta era minutos antes.

A cabeça do corvo conseguiu escapar da carne, soltando um grito estridente por entre seu bico agora vermelho. Movia seu corpo de um lado para o outro, formando um buraco ainda maior na mão de Dairou, até finalmente conseguir sair e levantar vôo. Sangue e ligamentos musculares caiam de suas penas a cada bater de asas. O awreen olhou para sua mão esquerda. Seu minhdinho e anelar estavam no chão. Os outros dedos estavam em posições anormais, com seu polegar estando quase abaixo do punho. Sua mão estava quase dividida em duas.

O corvo vôou até o topo de uma torre com um sino em seu andar logo abaixo do telhado. Pousou lá e seu corpo mudou. Dairou não viu o processo se desenrolando por completo. Piscou uma vez e o animal agora era uma outra entidade. Suas patas, agora longas, sustentavam uma criatura humanoide de quase três metros de altura. Seu corpo era coberto de penas, mas não inteiramente, dando espaço para carne podre ser vista por entre vestes negras rasgadas. Sua mão direita, moldada como suas patas, seguravam uma foice dupla, enquanto a mão esquerda, revestida por uma luva metálica, tocava no telhado, ajudando a criatura a manter o equilíbrio. Em seu rosto havia um bico metálico, inicialmente estático, até o ser aproximar uma de suas lâminas e o abrir no meio, soltando um estridente grito.

Sinos começaram a tocar, primeiro vindo da torre onde ele estava localizado, depois vindo de um prédio atrás de Dairou, à esquerda, à direita e, por fim, todas as construções na Sombra de Ishmoth. Dairou pode ouvi-los de início, mas logo o som cessou. Todos os sons cessaram.

E então, fogo. Um incêndio começou, tendo o mesmo padrão que os sons. A vila foi tomada pelas chamas, até não restar nada além de cinzas. Duas labaredas cercaram o awreen, aproximando-se cada vez mais depressa, abraçando seus membros e mergulhando-o no calor; incinerado cada parte de seu ser.

E então, Dairou acordou.

Estava de volta na carroça de antes. Seu guia estava na sua frente, com a mão estendida, prestes a acordá-lo. Recuou violentamente quando o homem se mexeu.

—Ch...chegamos.

Dairou olhou para o lado de fora e se viu em Vatace. Sem dizer nenhuma palavra, levantou-se e foi embora, deixando o humano para trás.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.