Dez.

Nove.

Oito.

O som das grevas pertencentes ao guarda ecoavam pela pelo fechado e escuro espaço. Aparentava sentir desconforto. O som por vezes repetia-se em um intervalo mais curto, como se o jovem de boina vermelha tropeçasse com suas botas cinzentas da mesma cor que o peitoral de aço. Não estava habituado ao peso, portanto marchava pateticamente com a coluna arqueada. Era só um rapaz. Só um recruta.

Só um recruta.

Não importa.

Sete.

Seis.

A mão esquerda de Dairou empunhava sua balestra e a apontava para a testa de sua potencial presa enquanto sua mente contava regressivamente. O marrom escuro que pintava a arma e o virote, assim como o sutil branco metálico de sua máscara, eram os únicos pontos de cor em meio às trevas que habitavam às vigas antigas próximas ao teto. Tudo que seu indicador precisava fazer era mover o dedo pousado no gatilho meio centímetro para trás e a vida do jovem se encerraria. E ele precisava fazer aquilo nos próximos seis segundos.

Cinco.

Quatro.

Três.

Dois.

Um.

...

Ele pôs a arma de volta em suas costas e observou o jovem passar exatamente por debaixo dele e continuar seu caminho, ignorante à sombra que pairava sobre ele. E Dairou era, certamente, uma sombra. Não o viram invadir Eroeus, não o viram invadir a adega...sombras não matam pessoas, e, naquele momento, continuar uma sombra lhe era favorável. Ajeitou a corda que envolvia seu corpo do ombro direito à cintura esquerda, pendurando uma sacola de couro negro ao lado de seu corpo, e tentou abstrair-se da existência do jovem guarda.

Saltou para a viga seguinte, a outra após esta, para o alto vão na parede, e continuou seu caminho. O rosto precisava ficar virado enquanto o corpo abraçava aquela mistura de rocha e mármore negros. Sua máscara forjada no formato de um bico de corvo era longa demais e sempre precisava manter-se. Não que se incomodava. Já estava acostumado. Era seu rosto; seu verdadeiro rosto, assim como era o caso com todos awreens. Por mais que, de alguns anos para cá, não se sentisse mais um membro de sua espécie. Era algo diferente.

Três à frente.

Vinte metros.

Dois estavam no que A Sombra concluíra ser o andar superior, por mais que parecesse apenas uma plataforma para ele. Ambos conversavam entre si sobre algo que não conseguia ouvir e não jugava importante. Havia uma porta logo atrás, entretanto.

Importante.

Embaixo, um guarda posava sozinho com seu rifle em mãos, próximo a uma potente lamparina que era a única fonte de luz daquele lado. O homem usou a ponta para tentar abafar um bocejo. Dairou considerou se a possibilidade de ele acidentalmente puxar o gatilho e encerrar a própria vida era beneficial a ele naquele momento. Chamaria a atenção dos outros dois, deixaria a porta livre e ele descobriria se seu objetivo estava lá atrás. Seria. Entretanto, aquela baixa probabilidade não ocorreu. A mente da Sombra recalculou seus futuros atos.

Continuou com a lateral do rosto encostada na parede e arrastou-se um pouco mais para frente, não deixando espaço entre seus pés a cada passo que dava pela estreita superfície. Passou por um portal de rocha polida; uma pequena dica de que, em algum momento da história, alguém tentara embelezar aquele estranho local. Passando dele, Dairou olhou para cima e viu inúmeras plataformas de madeira, com escadas de mão que levavam à diferentes portas. Mais acima, a mistura de rocha e mármore tornava-se apenas este segundo em uma cor branca. Logo percebeu que estava em uma masmorra que se estendia para cima e conectava-se com o quartel. Concluíra que se estendia também para o lado até possivelmente se transformar em uma adega tangencial ao grande salão de festas, que era o destino do infiltrador.

Claro, eventualmente, sombras teriam de matar. Não estava vagueando pela escuridão para se entreter, mas sim em busca de Manus Gilesbuoi. O caçador era importante em Eroeus; o governador decidira planejar uma festa para aquela noite e, como todos os Caçadores e nobres em geral da cidade, Gilesbuoi certamente estaria presente. Seria a ultima festa de sua vida, mas Dairou antes precisava encontrá-lo.

Afastou-se da parede quando suas botas tocaram em um chão estendido. Estava agora em uma plataforma de pedra. Três escadas de madeira iniciavam-se nesta, mas não havia ninguém nos pontos superiores. Inclinando a cabeça para cima novamente, o awreen conseguia ver apenas pequenos pontos luminosos; certamente archotes, velas e lamparinas, mas nenhum o iluminava. A luz do nível onde estava provia-se apenas das fontes do outro lado do grande salão e de seis velas no elevado onde estava. Fazendo uma pinça com os dedos, apagou cada uma das chamas até novamente seu corpo pertencer ao vazio. Dois dos homens perceberam que estava mais escuro, mas não conseguiram concluir o motivo.

O rosto da Sombra lentamente vira-se para o lado e seus olhos abaixam para um pequeno buraco oculto nas trevas. Ele viera de lá, quarenta minutos antes. Não percebeu o grande espaço e por isso seguiu por uma dúzia de corredores até chegar onde estava, mas o tempo não o preocupava. A possibilidade de Gilesbuoi ainda não ter chegado o incomodava. Haviam poucas luzes no local e não teve problemas evitando os guardas, o que lhe informava que a maioria estava na festa. Atravessar o escuro foi fácil, mesmo com o caminho traiçoeiro e construído como um labirinto, de maneira que ele inicialmente achou que estivesse no esgoto. As lentes em frente aos seus olhos, mais escuras que a noite se vistas por fora, permitiam-no de ver sem dificuldades mesmo quando as luzes estavam mortas. Criaram Dairou para ser um servo fiel da noite. Um arauto da morte. Um assassino.

Conseguiram.

Se arrependem.

Seus devaneios encerraram-se ao ouvir um alto rangido. O som rebateu nas paredes e reverberou pelo ambiente. O pescoço da sombra se virou e o olhar focou-se na porta; antes fechada, agora aberta, e no homem que passava por esta com um barril vazio. Os dedos do awreen giraram a lente da máscara e sua visão aproximou-se até ele conseguir identificar que, previamente, havia vinho naquele compartimento. O homem arremessou o pesado objeto para o nível mais abaixo, assustando o distraído homem com o alto eco que parecia repetir-se por inúmeros segundos. Duas conclusões saltaram à sua mente: a adega que ele tanto buscava estava atrás daquela porta, o que significava que a cozinha se localizava tangencialmente e, portanto, agora tinha uma entrada para o salão de festas; e o eco do local era forte e intenso.

Puxou a arma de suas costas e a apontou para baixo. Os dedos giraram a lente novmente, dando-lhe uma visão mais clara e mais próxima. Seus olhos seguiam toda a extensão do dardo e terminavam no vidro que envolvia a luz presa à parede. Sua mão direita se ergueu, deixando o trabalho de mirar para sua irmã. O dedo central pousou no polegar; o couro de sua luva negra tocando-se.

O ar saiu de seus pulmões e foi assoprado pelos buracos embaixo do aço de sua máscara. Foi puxado em seguida e expelido mais uma vez. Após repetir o movimento novamente, seu dedo indicador esquerdo puxou o gatilho. O objeto em forma de seta rasgou o ar, se aproximando da lamparina como um fantasma. E foi neste momento que a mão direita tomou ação. Os dedos deslizaram por si próprios, como se patinassem pela pele um do outro. O som do estalo e do vidro se quebrando ocorreram em perfeita sincronia.

Os três homens, agora rodeados pelo vazio, contemplando atarantados, sem compreender de onde viera o amalgama de sons que se repetiam. Quiçá um deus apagara a luz. Era uma razão tão plausível quanto qualquer outra naquele momento; como não ouviram o vidro se quebrando e estava escuro demais para ver os estilhaços. Cada um olhava para um canto, levantando a guarda e gritando entre si, aterrorizados. Dairou sabia que tinha apenas uma chance. Medo não é um sentimento duradouro; assim como confusão.

A Sombra guardou sua balestra novamente, deu dois passos para trás, correu até a beirada de sua plataforma e saltou. Uma Essência escura saiu de dentro de sua pele e o envolveu em trevas; a escuridão em volta da escuridão. O tamanho de seu corpo diminuiu, mas a coloração permanesceu a mesma. O couro e linho transformaram-se em penas. Logo, Dairou não existia mais, e em seu lugar um cego corvo voava. Seus olhos pálidos como a lua mal podiam discernir o ambiente onde estava, portanto o assassino precisou fazer a conta exato de segundos que precisaria permanescer em sua Segunda Pele.

Três.

Dois.

Um.

O corpo do animal expandiu-se novamente e a Primeira Pele de Dairou voltou a ser a dominante. Seus pés tocaram o solo do nível superior com a mesma violência que uma pena. Os dois guardas não o viram. Não perceberam quando seu corpo empurrou a porta e sorrateiramente esgueirou-se para dentro da adega, deixando eles e a masmorra para trás sem nunca fazer um mísero barulho. Nunca viram a Sombra.

O novo local era diferente daquele atrás da passagem. O assassino foi transportado para um mundo de cores terrosas. O frio das rochas foi substituído pelo calor da madeira. Diferentes barris ocupavam longas estantes, enquanto pequenas lampadas elétricas iluminavam suavemente os inúmeros corredores. Era raro para Dairou ver aquele tipo de fonte de luz. As tábuas no chão estendiam-se como setas apontando o caminho para seu destino.

Ele jogou no chão a sacola que carregava e a abriu. Retirou uma elegante cartola com uma fita logo acima da aba com a mesma coloração que a balestra que carregava nas costas, uma capa preta que escondia tal arma, um bonito casaco, uma calça de linho e uma bengala desmontada com a cabeça de uma ave em seu punho. Vestiu-se, ligou as partes da bengala, pôs o chapéu e a capa e começou a deslocar-se pela adega, inicialmente praticando uma caminhada torta e manca até acostumar-se e fingir a debilidade com maestria.

Não queria ser visto, mas também não se preocupava em se esconder. Não era mais Dairou, a sombra; era Dairou, o nobre. Qualquer situação poderia ser resolvida com algumas trocas de palavras. Ele, entretanto, não queria abrir sua boca mais do que o estrutamente necessário. Por sorte, encontrou ninguém perambulando pelo local e adentrou a porta que levava à cozinha.

Suas paredes eram de azuleijos pálidos, com as panelas polidas e outros apetrechos de metal em cima das bancadas de mármore refletindo-as. Era um espaço consideravelmente grande e haviam por volta de dez pessoas correndo de um lado para o outro com pratos e copos; todos usando roupas que pareciam camuflar-se nos arredores. Um cozinheiro finalmente o viu, soltou um gritinho assustado e se aproximou com as duas mãos coladas. Fez uma pequena reverencia antes de começar a falar.

—Perdão, senhor, mas os convidados não são permitidos aqui. –Sua voz era trêmula e nervosa. Atrás, homens e mulheres gritavam um com os outros sobre comida e sujeira. Dairou pôs a bengala embaixo de seu braço esquerdo e usou a mão direita para se apoiar em uma mesa. Sua voz saiu autoritária e severa.

—Eu e meu par pedimos um vinho em especifico. Estamos esperando-o a trinta minutos e ainda não temos nossa bebida.

—Perdoe-me, senhor, é que estamos com alguns problemas de arrumação e...

—Não vou tolerar tal ultraje. Demando minha bebida como prioridade.

—Sim senhor! –O homem aparentou mais nervoso e assustado.

—Vinho do sul de Lethgo. Branco. Frisante.

—É pra já, senhor! Mandarei um garçom buscar o barril imediatamente e levar para o senhor e o seu par! –O garçom assentia repetitivamente.

Ele fez um sinal com o braço para Dairou seguir por uma porta. Girando sua bengala e voltando a mancar, ele fez como lhe foi sugerido. Cozinheiros gritavam sobre vinhos enquanto ele empurrava a madeira e finalmente adentrava o salão de festas.

Dairou contou quinze lustres antes de declarar aquele exercício fútil. A forte luz amarelada refletia no chão de mármore branco, tão polido que parecia um espelho. Uma grande escadaria coberta por um tapete de veludo vermelho ocupava metade da largura do grande salão, até dividir-se em duas que levavam ao segundo andar. Havia um terceiro além deste, e diversas salas menores no andar onde o homem que costumava ser uma sombra estava. Quatro homens tocavam violinos e duas mulheres o violoncelo, mas sua música era abafada pelas centenas de convidados. Garçons passavam de um lado para o outro com pratos carregando vinhos e aperitivos, enquanto uma mesa no centro segurava comidas mais sofisticadas.

Ele caminhou por entre os nobres, calculando por onde deveria começar. Todos usavam máscaras, mas grande parte cobria apenas a parte superior de seu rosto. As bocas estavam livres, talvez para não serem irreconhecíveis uns aos outros. O assassino não compreendia o ponto de usarem máscaras, se fosse o caso. Sentia-se um pouco incomodado por aquilo; afinal membros de sua raça eram forçados a pôr a máscara desde a infância, sem maneira alguma de tirá-la. Dairou não sabia como era seu rosto. Dairou nunca vira o rosto por trás do rosto de qualquer awreen.

Cambaleou até um homem qualquer. Usava uma máscara prateada incrustada com diamantes e um terno negro. Estava sozinho, bebendo enquanto observava a todos de maneira julgadora. Volta e meia olhava para o fundo de sua taça e suspirava.

—Musicos habilidosos. –Observou Dairou. O humano virou-se para ele e sua postura mudou, tornando-se mais convidativa e calorosa. A mentira estava estampada e cada milimetro de seu ser.

—Sim, sim, são maginificos! Estava pensando isso neste momento.

—Gostaria que tocassem “Última Noite Dos Reis”, mas não me atreveria a a pedir.

—Ora, mas é um clássico! Creio que fariam. –Ele sorriu, mas depois se acanhou. –Como disse que era seu nome mesmo?

—Não disse. –Trocou a bengala de mãos e estendeu a esquerda para que o outro apertasse. –Livie Rocco.

—Den Heins. –O outro a apertou. –Não o conheço, senhor Rocco. Não vive em Eroeus?

—Vim da capital. –Assentiu. –Sendo honesto, vim conversar com o senhor Manus Gilesbuoi. Sabe onde posso encontrá-lo?

Den Heins afastou a mão e o encarou. Sua expressão por baixo da máscara passava desconfiança.

—Não lhe informaram, senhor?

—Sobre?

—Ele não está presente em Eroeus hoje.

Dairou não teve reação alguma de início. Apenas ficou pardo, recalculando todo o traçado que havia feito em sua mente. Ficou alguns segundos demais em silêncio, de acordo com o rosto de Den Heins, portanto torturou-se para dizer alguma coisa.

—Onde ele está?

Seu tom saiu de maneira agressiva e desesperada, o que levou um sorriso confiante à boca do homem.

—Boa noite, senhor Rocco.

E com isso, afastou-se. Mergulhou em um mar de gente e desapareceu da vista do assassino. Dairou imediatamente se moveu até a escadaria e subiu alguns degraus; o suficiente para ver cada pessoa no salão. Haviam mais pontos negativos do que positivos se decidisse correr atrás do homem. Descobririam que não é manco. Destruiria seu disfarce. Portanto, apenas passou os olhos pelo salão algumas vezes e encontrou Heins. Caminhava mais rapido qualquer um e dirigia-se até uma das portas no canto do salão. Calmamente desceu os degraus e seguiu para seu destino.

Heins foi o primeiro, com Dairou entrando na nova sala após três segundos. Era similar ao grande salão, porém com detalhes negros no mármore branco. Havia um piano encostado no canto e as cortinas estavam fechadas. O homem olhou para trás, viu o awreen e olhou para o único guarda naquele local fechado, posicionando-se ao lado da porta. Foi necessário apenas um pequeno aceno de cabeça para que entendesse as ordens. Ficou na frente do estranho awreen.

—Senhor, temo que o senhor não pode ficar aqu...

Sua voz foi interrompida pelo som molhado de sangue subindo à garganta. A Sombra não mataria Gilesbuoi naquela noite, mas não seria uma noite desprovida de violência. Empurrou o corpo sem vida do guarda e olhou para sua presa enquanto limpava a adaga e voltava a escondê-la no vazio que eram suas roupas. O líquido escarlate tornou-se negro ao encostar em seu casaco.

—Quem é você?! –Gritou Heins, apavorado.

—Se disser mais uma palavra que não seja exatamente o que quero ouvir, eu vou cortar sua língua. Se gritar por ajuda, eu vou cortar sua língua. Se tentar gritar mesmo sem língua, vou lhe arrancar os dentes. Estamos entendidos?

Heins o encarou e imediatemente virou-se para fugir pela porta ao seu lado. Sem mover um músculo a mais que o necessário, Dairou sacou sua balestra e atirou na perna do homem. Ele gritou de dor, mas logo se calou, assustado enquanto gemia no frio chão. Dairou moveu-se para perto, se agachou e segurou seu terno com ambas as mãos.

—Gilesbuoi. Onde está?

Silêncio.

A mão esquerda do awreen caiu sobre o rosto do humano. O pedaço de um dente voou para o lado.

O único som que podia ser ouvido era o repetitivo barulho do impacto de carne em carne.

Em seguida, o mesmo som, porém um pouco mais abafado; molhado.

Por fim, o som de informação.