O grande lobo cinzento corria entre as árvores banhadas pelo sol da manhã. Os fios de seu pelo rasgavam o vento enquanto o corpo subia e descia; as patas desviando das raízes espalhadas pela terra. A gazela olhava para trás volta e meia, correndo o mais rápido que conseguia, mas tentando economizar a energia. Seu predador não parecia estar disposto a desistir.

Tentou buscar uma rota de fuga pela direita, entre dois troncos que o animal não conseguiria passar, mas desistiu ao ver três outros membros da alcateia o cercando. Eram de porte menor e um estava machucado, mas acompanhavam o líder do ataque sem esforço, frustrando qualquer tentativa da presa de sair com vida. A gazela aguardou um dos lobos, um filhote de pelo castanho, se aproximar para perfurá-lo com sua galhada, entretanto este mudou de posição na fileira de predadores que parecia crescer cada vez mais, dando lugar a uma fêmea branca como a neve e bem mais capaz de se defender que o jovem.

O número de predadores já passava da primeira dezena. Mais e mais lobos surgiam de todos os cantos e juntavam-se a caçada, tomando a posição precisa. Os mais jovens e mais rapidos iam na frente coma a intenção de mordiscar as pernas da presa, considerando até atirar-se para frente se isso significar a realização de sua função. Em seguida, os médios o acompanhavam, prontos para trocar de lugar com os pequenos caso a gazela tente resistir. Por fim, os maiores corriam pelos lados, impedindo que a presa fuja para qualquer lugar que não seja diretamente em frente. O feroz lobo cinzento se mantinha no fim da alcateia. Seus olhos enxergavam o que os outros viam. Seus ouvidos, o que ouviam. O olfato de dos outros pertenciam a ele. Durante a caçada, ele era a alcateia, e a alcateia era ele.

E então, sua concentração foi quebrada, e, consequentemente, a dos outros animais, quando um lobo negro passou ao seu lado, tão grande quanto o próprio. Ele não obedecia qualquer comando que a mente do cinzento gritasse, talvez nem mesmo pudesse ouvi-lo. Virou a cabeça apenas um pouco, para que seus penetrantes e reprovadores olhos fossem visto.

A atenção do líder voltou um pouco tarde. Havia um largo tronco caído no caminho, perto demais para saltar por cima, extenso demais para dar a volta sem perder a presa, por mais que esta agora estivesse longe demais para uma perseguição. Com claro descontento, optou pela primeira opção e suas patas evitaram a grama por um interminável segundo. Seu corpo então começou a mudar. Seu tronco esticou-se e os membros moveram de lugar enquanto uma tímida luz esverdeada surgia e apagava-se na pele que nascera embaixo dos pelos. No instante seguinte, um homem estava de pé na madeira seca, manuseando um rifle com ambas as mãos.

–Merda. –Disse Aylon enquanto puxava o gatilho.

Depois da gazela ser morta e rolar pela grama, os lobos arrastaram sua carcaça até um campo aberto afastado das sombras que as árvores projetavam. O líder permitiu que cada um pegasse um pedaço e depois se afastassem. Logo esqueceriam sua existência e que aquela caçada existiu. Aylon pegou o que restou do animal, improvisou uma fogueira, prendeu a carne em um graveto e a assou. Poderia muito bem come-la crua como seus subordinados, mas seu lado humano requisitava mimos.

Sentou-se em uma pedra, lentamente esticando seu corpo. Seu rosto ergueu-se, contemplando o forte sol matinal. Seus olhos se fecharam e, na sua mente, pode ver a campina em volta refletindo a iluminação como milhares de esmeraldas. Podia também claramente ver fumaça e partículas de mesma cor saindo das plantas, não muito diferente daquelas de quando ele se transforma em sua Segunda Pele. Aquela "visão-de-olhos-fechados" já ocorria há doze anos, mas nunca lhe fora útil ou explicada.

E então, uma onda de vermelhidão começou a infestar a campina. Uma a uma, as esmeraldas se tornaram rubis e a pacífica vista se tornou um lago de sangue. Aquilo ele sabia o que significava. Aylon abriu seus olhos e endireitou-se enquanto o lobo negro se aproximava a passos curtos. Quando a atenção estava nele, seu corpo começou a mudar, sendo envolvido por uma névoa escarlate. Logo, um homem estava de pé onde o animal caminhava anteriormente. Seu curto cabelo, cavanhaque e patilhas bem pronunciadas eram da mesma cor que os de Aylon, e seu rosto emitia as mesmas feições lupinas. Os olhos eram os mesmos da fera; julgadores e ameaçadores. Usava um casaco negro com ornamentos cinzentos e um cordão prateado de um brasão pontiagudo. Não mostrava nenhum milímetro de pele abaixo do pescoço. Aylon sabia que se aproximava, mas focava-se mais na comida sendo feita.

–Mesmo? Nem mesmo um "olá"? –Questionou Veizard. –Onde estão seus modos?

O homem de cabelo longo fingiu estar confuso, começou a vasculhar seus bolsos e, por fim, pôs as costas da mão na testa de maneira dramática.

–Puta merda, deixei cair no caminho! Me desculpe!

–Hilário. –Disse em tom seco enquanto agachava-se para se sentar ao seu lado, até Aylon apoiar sua perna esticada no resto da extensão da pedra. Veizard bufou e se sentou na grama. –As vezes eu esqueço com o que eu estou lidando. Quando você vai crescer? Parece ainda a mesma criança.

Aylon deu de ombros e acendeu um cigarro.

–Eu te frustro?

–Oh, sim.

–O suficiente para você me deixar em paz?

–Oh, não.

Seus ombros ergueram-se e abaixaram-se de novo. Veizard estalou os dedos e esticou a mão. Aylon deu uma tragada e passou para o outro, que fez o mesmo, contemplando o céu.

–Onde vamos agora?

–Eu vou para Torre Branca. Você faz o que quiser.

–Por que? Aquele mulher ordenou de novo?

–Ela não me dá ordens, ela me faz pedidos. Não sou um vassalo, sou seu marido... ex-marido. –Corrigiu-se.

–Tem razão, você não é um vassalo. Mas também não é um rei...mas poderia ser...

–Não comece. –Aylon soltou um suspiro cansado.

–Vamos para Farshal. Vamos tomar o que é nosso por direito. –Veizard tinha puro fogo em seus olhos.

–Em primeiro lugar, meu. –Corrigiu. –Em segundo lugar, não é meu direito e você sabe disso. Em terceiro lugar, eu não quero, e você também sabe disso.

–Você me decepciona, sabia?

–O segredo é não esperar nada de ninguém, assim você não se decepciona. –Deu um sorriso enquanto tragava o cigarro. –Eu espero tão pouco de você que tudo fica previsível.

–Vou me lembrar de praticar isso. –Devolveu. –E o que vamos fazer na Torre Branca?

–Um Caçador está indo para lá. Vou descobrir o que exatamente ele quer.

–Vai matá-lo?

–Não pretendo.

Veizard manteve seu olhar no chão por alguns segundos; uma mão grudada na outra enquanto sua mente e suas memórias trabalhavam. Por fim, ergueu o rosto.

–Muito bem. Vou te ajudar.

–Eu sei. –Aylon deu de ombros mais uma vez.