Contos dos Três Planos
6 Dairou II
As tábuas abaixo dele tremiam a cada galopar do equino. Tentava manter seu corpo em uma posição estável, com sua coluna formando um ângulo de noventa graus em relação à madeira onde se sentava, mas não conseguia. A estrada de pedra era particularmente irregular. Não era reformada havia décadas, portanto paralelepípedos individuais estavam faltando. Quase sugeriu para seu guia que fosse pela floresta, mas o humano possivelmente não teria coragem. Já aparentou intimidado pelas vestes de Dairou.
Em um momento de fraqueza, saiu de sua posição de lótus e puxou a pequena cortina da carroça fechada. A luz do sol que passava pelas árvores lhe informava que já era de tarde, talvez pouco depois do meio-dia. Trocara apenas seis palavras com seu guia desde que o contratara na noite anterior. Fugir da festa foi fácil. Culpar alguém pelo estrago que causara era dificil demais para que considerasse um caminho válido, então apenas se afastou o máximo que podia de Eroeus e contratou o primeiro ser ínfimo que aceitou levá-lo até a Torre Branca. O cavalo que guiava a carroça era um pouco velho demais para seu gosto, entretanto.
Percebeu que a velocidade constante diminuiu até o veículo parar por completo. A madeira subiu de forma amena. Dairou prestou atenção nos passos do lado de fora, dando a volta no animal e no veículo e se aproximando. O homem que contratara abriu a cortina sem perguntar se era devido. Dairou não parou para analisar seu rosto fino e cabelo arruivado na noite anterior devido à escuridão. Também não parou para perguntar seu nome, mas, neste caso, foi por falta de interesse e não planejava voltar atrás em sua decisão.
—Olha, eu decidi dar uma parada. –Disse o humano.
—Estou vendo. –Respondeu Dairou.
—Não, quis dizer que tem uma cidade aqui perto, então parei para ir comer alguma coisa. Tudo bem?
—O que você faz com o dinheiro que eu te entreguei não é da minha conta ou de meu interesse.
—Não, eu... –O homem balançou a cabeça. –Eu tô falando para você ir também. Comer. Falta ainda um dia de viagem.
Dairou virou seu rosto levemente e encarou os olhos do homem, que não conseguia reproduzir a ação através das lentes negras do awreen. Depois voltou a encarar o vazio em silêncio, aguardando o homem relembrar as diferenças fisiológicas entre humanos e sua raça sozinho. O homem então o fez e se afastou, apenas pedindo para que mantivesse guarda sobre o cavalo.
—Se o animal fugir, significa que você é um péssimo adestrador, portanto, não posso confiar em você como guia e nem confiar a ti meu dinheiro. –Disse, mas presumiu que o homem não escutou. Já estava longe demais para isso.
Quando o humano desapareceu de sua vista, Dairou fechou a cortina novamente, envolvendo-se nas sombras. Sentou-se no centro do veículo de madeira, mantendo suas costas retas. Finalmente podia meditar. Sentia a necessidade de explorar sua própria mente, especialmente naquele dia. Achava que precisava de conselhos, não tendo certeza sobre o que ou de quem.
Nenhuma luz passava por suas lentes ou por seus olhos. Ouvia o som da floresta lá fora; um riacho ao longe, animais passando pela relva, folhas tocando umas nas outras em pleno ar e sendo levadas pelo vento. Seu corpo movia-se apenas com sua leve respiração.
O som ficou mais fraco. O riacho, os animais e as folhas; todos sumiram. Não notava mais mudanças em seu corpo, como se o ar não adentrasse mais seu pulmão. Sentia-se uma estátua. Sentia-se sem vida.
E então, tudo voltou simultaneamente. Percebia sua respiração e sentia seu corpo; na verdade, sentia-o mais do que geralmente, contando a quantidade de vezes que seu coração batia por segundo sem necessitar por a mão em seu peito. Conseguia ver, por mais que não houvesse nada visível. Ele se levantou, agora não mais na carroça ou em lugar algum do Primeiro Plano. Estava em um infinito Vácuo negro que estendia-se em todas as direções para onde seu rosto se virava.
Verticalmente, podia ver-se tanto em cima quanto embaixo, como um espelho. Em cada um, podia ver outras infinitas reflexões suas. Moveu um braço e todas as decima e de baixo repetiram o movimento, algumas demorando frações de segundo a mais para completá-lo.
—Hm. –Disse em voz alta.
Todas as reflexões repetiram, cada uma com um atraso maior que a outra. O som nunca se encerrou de fato, apenas ficou cada vez mais baixo enquanto seus inúmeros clones em ambas as direções continuavam o som e o levaram para longe. Sem ter uma ideia concreta do que fazer naquele peculiar lugar, começou a andar em linha reta. O som de seus passos também ecoava, desta vez misturando-se em um barulho incompreensivel que mesclava seus passos atuais com os passos das reflexões.
Como você voa se não tem asas?
Uma voz ponderou no nulo, mais alto que os passos e sem eco algum. Dairou parou, perguntando-se por meio segundo se aquilo fora seu pensamento ou algo diferente. Rapidamente concluiu ser a segunda opção.
Responda.
—Não tenho nesta pele. –Dairou falou sem pensar.
Não tem em pele alguma. Por que se limitar?
Dairou ficou em silêncio.
Responda.
Dairou ficou em silêncio.
Responda.
—Tenho medo. –Disse ele.
Fraco.
Fraco.
Fraco.
Fraco.
Fraco.
Correntes surgiram do solo, prendendo-o pelos membros e o puxando para baixo. O awreen não conseguia ver de onde originavam-se; era como se o espelho embaixo existisse apenas para ele. As reflexões foram puxadas para o chão simultaneamente ao seu dono, e o som de impacto também ocorreu em uníssono, mas nenhuma corrente as envolvia.
Recusa-se a ser livre. Carrega correntes. Tome suas correntes.
Uma quinta envolveu seu pescoço. Ele não conseguia se mover para afrouxá-la. Cada vez mais respirar ficava difícil, até tornar-se um ato impossível. Os reflexos desapareceram um a um, sufocados, até deixarem de existir, restando apenas o Dairou original.
E então os olhos sob suas lentes se abrírarm. Sua respiração não mudara, nenhuma corrente prendia seu corpo...ele estava bem. Estava seguro. Dairou via pelo pequeno vão da cortina que o guia havia terminado de almoçar e caminhava em sua direção, hesitando um pouco.
O awreen abriu-a, assustando o homem. A mente de Dairou saltava de pensamento em pensamento, mas a máscara escondia seus sentimentos. O tom de sua voz precisava combinar com seu humor antes da meditação.
—O que? –Questionou monotonamente.
—Uhh....já acabei. –Disse o guia. –Podemos ir?
—Sim. –E fechou a cortina.
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