Contos dos Caçadores de Sombras - O Ciclo

2 A Transformação de Luke, parte 2:


A Primeira Transformação

“O lobo faz o bando, e o bando faz o lobo.”

– Lema da Praetor Lupus

Idris, 1992

– Onde estou? – perguntou Valentim – Lucian? Jocelyn?

– Não se preocupe – disse Hodge – O Ciclo não perdeu nenhum integrante. – Valentim suspirou de alívio.

Hodge estava em pé, ao lado da porta. Usava o traje de combate, o que é curioso, pois ele não estava na Planície (preferiu ficar e estudar os vampiros, os próximos na lista de ataque).

– Lucian... A mordida... – disse Valentim, que agora percebia que estava em seu quarto, ainda com os trajes que usara na noite anterior, o couro do uniforme manchado de sangue, juntamente com seus cabelos louro esbranquiçados. Hematomas cobriam seu rosto; pelo visto, não dera tempo para fazer iratzes. – Hodge! Me conte algo, pelo Anjo!

Os cinzentos olhos de Hodge pareciam preocupados por trás dos óculos com lentes quadradas e levemente empoeiradas; quando se dirigiu para o lado da cama, disse cansado: — Tem uma coisa que você precisa saber...

Nesse exato momento, Stephen irrompeu porta adentro, interrompendo-o, até o exageradamente brincalhão Stephen Herondale parecia abatido.

O corpo de Lucian passara a noite inteira, e boa parte do dia, queimando. Amatis preocupada, havia chamado o Irmão Zachariah e lhe contado tudo que acontecera ao seu irmão.

Após longos exames, o Irmão já tinha quase certeza de seu diagnóstico, porém o que mais o assustou foi o grito de dor que saíra da garganta do homem quando foi tocado por um pingente de prata. O estranho Irmão voltou para a sala e encontrou uma Amatis apreensiva e ela tinha certeza que de que se os Irmãos do Silêncio tivessem expressões, a dele seria uma mescla de solidariedade e pena.

– Você vai contar o que o Michael fez? – falou Stephen, se dirigindo a Hodge.

– Na verdade...

– Contar o quê? – Valentim falou, impaciente, se sentando na cama.

– Nada. – disse Hodge.

– Nada? Deixar qualquer lobo fugir tudo bem, mas o líder do bando é mais complicado.

– O quê?! – Valentim ergueu a voz – Como eu não vi isso?

– Claro que não viu, quando Lucian... – e interrompeu-se imediatamente lembrando-se que Valentim ainda não sabia, e com certeza não seria ele que contaria a Valentim Morgenstern no que o seu parabatai tinha se transformado.

– Pelo Anjo, como pude me esquecer de Lucian?! – falou levantando-se abruptamente, mas uma onda de tontura tomou conta de seu corpo e uma intensa dor de cabeça o atingiu. Hodge o segurou, deitando-lhe na cama.

– Valentim, todos sabemos que as chances de uma mordida de lobisomem, em nephilim, se tornar licantropia, é de cinquenta por cento... — disse Hodge a um Valentim confuso – E, infelizmente, Lucian está incluso nessa porcentagem. Ele agora é um deles.

Valentim, quase inconsciente do que estava fazendo, correu imediatamente para o banheiro, e tirando a camisa, percebeu que o lugar onde antes estava a marca parabatai, agora nada mais era que um esboço do que antes existira ali. Nesse exato momento, a lua cheia alcançou o topo noturno de Idris e Amatis foi ao quarto do irmão e não encontrou nada além de uma cama vazia e desfeita.

Lucian passara tanto tempo correndo que teve a impressão que horas já haviam se passado. Mas não era possível, pois estava a menos de um quilometro de casa. Sentiu o desejo de voltar ao mesmo lugar onde fora mordido. De repente, seu corpo começa a queimar e suas mãos, se contorcerem. Sentiu sua pele rasgar e quando voltou a olhar para elas, essas não existiam mais. Em seu lugar, encontravam-se duas enormes garras.

Olhou para lua e uivou, assustando um corvo que estava próximo. Quando voltou ao chão, já não era mais humano.

Já era manhã, quando Valentim avistou o que um dia fora seu parabatai. Descendo do cavalo, chutou Lucian para certificar-se de que estava vivo. Apesar de tudo, ficou aliviado quando o outro mexeu e levantou-se, lenta e preguiçosamente.

– Valentim? – falou confuso – como você sabia que eu estava aqui?

No momento em que ia responder, o corvo de Valentim, Hugin, pousou em seu ombro.

– Digamos que eu tenha meus informantes. – disse, com um sorriso irônico – A propósito, lembra-se de Hugin?

Lucian assentiu e acrescentou:

– E o que você veio fazer aqui?

– Você não pode viver como um monstro, Lucian. – disse Valentim, sem se preocupar em esconder o desprezo em sua voz.

– Como você pode falar assim? Seu próprio parabatai! – disse, quase se exaltando.

– Eu não tenho mais parabatai – disse Valentim, friamente. E jogando uma adaga, acrescentou: — mate-se, é o melhor a ser feito. – e virando-se, montou em seu cavalo, partindo em disparada.

Lucian apanhou a adaga, que conhecia melhor que a própria, e por um tempo ficou olhando a lâmina Morgenstern, que tinha um cabo longo com as iniciais V.M.

Valentim Morgenstern.

A lâmina tinha um brilho prateado e gravadas de cada lado se encontravam três estrelas.

Lucian pressionou a adaga, sentindo o sangue descer ao longo de sua mão, e saiu. Adentrando mais profundamente o coração da Floresta de Brocelind.

***

– Espero que eu e Clary nunca precisemos passar por isso – disse Simon, para quebrar o gelo.

O Salão dos Acordos agora estava silencioso, mas movimentado. Jace estava ao piano, junto com James Carstairs, que tocava seu violino. Pelo que Simon sabia, eles ficaram bastante amigos desde que Jace, acidentalmente, libertou Jem com o Fogo Celestial. Jem, que era um Irmão do Silêncio, e também, que precisava de algum tipo de droga demoníaca que mantinha seu corpo parcialmente saudável. Jem também tinha sido parabatai de algum antepassado de Jace, e conhecia a família Herondale melhor que ninguém.

– Clary não é como o pai. Nem você é como Valentim, Simon.

***

Jocelyn estava sentada em sua poltrona, quando ouviu batidas na porta. Para sua surpresa, no momento em que abriu a porta, assustou-se ao ver Lucian Graymark na sua frente, coberto de sangue que descia dos cabelos castanhos desgrenhados até a curva suave e torneada dos músculos do tórax.

– Lucian! – falou Jocelyn, não segurando as lágrimas que escorriam pelo rosto pálido, tocando arduamente onde o sangue manchava sua pele.

Lucian virou o rosto, evitando o olhar de Jocelyn. Quando voltou o seu olhar, prestes a falar algo, uma voz surgiu das sombras.

– Por que você está falando com esse ser abominável? – perguntou Valentim – afaste-se dele imediatamente. – acrescentou, puxando-a para trás de si.

– Antes que você fale algo... – disse Lucian, puxando a adaga Morgenstern, fazendo Jocelyn levar a mão à boca apreensiva, pensando que Lucian atacaria o outro.

– Vai me atacar, lobisomem? – perguntou Valentim, provocando-o.

Lucian riu. E atirando a adaga aos pés de Valentim, disse: — Se é guerra que você quer, guerra terás. – E deu meia volta. Quando já estava aproximadamente a dois metros de distância, acrescentou: — Agora eu sou o líder do Bando de Brocelind. Ave atque vale, Valentim Morgenstern.

***

– Saudaçôes e adeus – disse Simon lembrando-se da saudação aos mortos dos Caçadores de Sombras. – Ótimas últimas palavras.

– Naquele instante, Valentim havia morrido para mim, assim como eu morri para ele. – seus olhos sérios fitavam o chão. – Ele foi um bom homem que fez as escolhas erradas, mas foi meu parabatai.

– Não dos melhores – e quando viu a cara de Luke, acrescentou: — digo, depois de tudo...

Luke sorriu, e desta vez foi um riso verdadeiro.

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui. Favoritem, por favor. E acompanhem! Em breve virá uma história totalmente original! Reclamações, sugestões e etc, mandem mensagem. See ya. Gente, só esclarecendo: quando tiver 3 estrelinhas/austerísticos (***), quer dizer que eu tô cortando a história pra 2008/2009. E quando tiver uma bolinha (•), quer dizer que eu tô cortando a história pro mesmo tempo, só que em lugares diferentes. Tipo quando Valentim tá na cama e Stephen chega, eles estavam no mesmo tempo (1992) que a cena seguinte, porém, na outra Amatis, tá com Jem e Luke no solar Herondale. Enfim, deu pra entender, né? Ok, ok.