Contos do velho carvalho
1 Baltazar
Baltazar
Quando eu era jovem, sempre que íamos acampar, minha mãe e minha avó contavam histórias assustadoras. Essas histórias eram passadas de geração em geração, desde muito antes da era moderna, talvez até antes de Cristo. Elas falavam coisas inimagináveis, de outro mundo, mas, obviamente, eram só historias para assustar criancinhas, que acreditam em tudo que ouvem sem nem pensar se aquilo é possível ou não. Porém, quando elas contavam, tudo parecia muito vivo e real. Na época, eu tinha muito medo, mas conforme envelheci, o medo foi se acabando, até que parei de ter medo daquelas histórias e deixei de prestar atenção nelas. Esse foi meu maior erro.
No dia que completei 20 anos de idade, minha mãe e minha avó vieram me visitar durante noite, depois do meu expediente. Depois de jantarmos ficamos na sala conversando por umas boas horas. Era sexta-feira, então não havia problema em dormir tarde. Quando o relógio chegou perto das duas da manhã, um sono incontrolável tomou conta de mim, tentei ficar acordado, mas foi em vão. Lembro-me de minha avó dizendo:
— Vou te contar uma história.
Acordei no meio de um campo, parecia uma manhã, grama verde e baixa, ia até onde os olhos alcançavam. Minhas roupas tinham mudado, usava uma calça justa, de couro marrom, estava descalço e sem camisa. Mas não era só isso que estava estranho, minha pele ficou morena, um moreno bronzeado, meu cabelo era agora extremamente negro, muito mais longo, e eu parecia mais alto. Prestei atenção na minha fisionomia, meu corpo, que antes era largo e atlético, era agora mais esguio e leve.
Levantei-me e olhei melhor o ambiente que me cercava. Vi, há uns 100 metros de onde eu estava, um grande buraco na terra, na beirada haviam alguns jovens, eram morenos e tinham cabelos negros, assim como eu era agora, estavam organizados em fila, do outro lado do buraco, um homem mais velho parecia orar para os céus erguendo o seu cajado. Toda vez que ele batia o cajado no chão, um jovem pulava para dentro do buraco.
Fui até perto do buraco. De longe ele não parecia tão grande, mas de perto pude ver melhor, a fenda devia ter uns 15 metros de diâmetro e uns 30 metros de profundidade. O fundo estava cheio de ossos e corpos em decomposição, mas haviam 5 corpos frescos lá embaixo.
Por alguns momentos eu fui ignorado, mas quando tentei sair dali o velho me chamou em uma língua que eu nunca havia ouvido antes, mas que, por algum motivo que não consegui explicar, eu conseguia entender o que ele dizia. Quando me virei novamente em direção ao poço de cadáveres, meu corpo enrijeceu, do meu peito saíram tentáculos de sombra que formaram uma figura aterrorizante, o corpo era de homem, mas em vez de pele, tinha escamas negras e grossas, era careca e de trás de cada orelha saiam dois chifres que cresciam em direções diferentes, os olhos eram vermelho rubro, a íris era rajada, como a de um gato, os dentes pontiagudos e não tinha nariz, nas costas cresciam dois pares de asas, o par superior era como asas de morcego, só que muito maiores, uns 4 metros de envergadura, as inferiores eram como de pássaros, só que bem menores e falhadas, como se alguém tivesse arrancado as penas a força.
O ser, que agora levitava em minha frente, fez um movimento com o braço e meu corpo levitou até o lado dele, ficando há mais ou menos um metro do chão, então ele se virou e começou a falar com o velho.
— Demoraste mais do que eu esperava, xamã. – A voz da entidade saia como se várias vozes, masculinas e femininas, falassem ao mesmo tempo. – Mas fizeste bem o serviço que te deixei há 50 anos atrás.
— Desculpe-me senhor. – Disse o velho, com a voz rasgada e fraca. – Esse feitiço é complicado, até mesmo para mim. Trouxe-lhe o número exato que me pediste, e mais alguns.
A entidade de sombra ergueu a mão, mostrando a palma, e os jovens, que até agora estavam parados em fila, como se estivessem em um transe profundo, desmaiaram.
— Esses outros são seus, xamã. – Disse o ser maligno.
O xamã murmurou cânticos em uma língua que eu não consegui entender e os jovens levantaram e formaram uma linha, um ao lado do outro. Pude ver melhor agora os rostos dos jovens, cada um era mais jovem que o outro, e no meio deles havia uma criança, devia ter 5 anos de idade, ou menos, e iria se jogar no poço, não fosse minha chegada. Por um momento me senti aliviado. O xamã fez um movimento com a mão e começou a se distanciar e os jovens seguiram o velho. Caminharam uma grande distância até sumirem da minha linha de visão.
Horas se passaram e o ser não se mexeu mais. Eu também fiquei parado durante horas, não conseguia me mexer. O dia passou lento e pesado, e depois do que pareceu uma eternidade, a noite chegou. Noite sem lua nem estrelas, escuridão total, até que a certa altura da madrugada, o poço de cadáveres começou a brilhar, um brilho intenso e azul. Um faixo de luz subiu aos céus, cortando as nuvens.
O ser se moveu, porém eu ainda tinha meus movimentos restringidos. Aterrissou. Colocou a mão no enorme raio de luz que saia da vala. Gritos. Gritos horrendos, de dor, de medo, desespero, tudo isso combinado em uma sinfonia macabra. Os gritos vinham de todas as direções. Depois de longos minutos escutando aquela sinfonia agonizante, o ser tirou sua mão do faixo de luz. Espectros azuis, em forma humana, começaram a subir pela luz azulada. As faces atormentadas, agonizada.
Um espectro se aproximou dos limites do faixo de luz. A criatura escamosa segurou um espectro pelo pescoço. O espectro parou de gritar e fechou os olhos, parecia estar se acalmando, até que ele começou a mudar de cor, dos pés até a cabeça ele foi ficando vermelho. Quando ficou completamente vermelho o espectro abriu os olhos e seu semblante agora era de raiva. A criatura soltou o espectro vermelho no chão, fora do faixo de luz, o espectro caiu no chão e ficou em posição como se estivesse pronto para dar um salto, estava inquieto, se mexendo muito, farejava, rosnava.
— Você não tem medo. – A criatura falou para mim. – Isso é bom, mas também é ruim. O medo te deixa em alerta, melhora seus reflexos. Mas sentir medo não deixa você pensar, faz você ignorar suas feridas mortais e correr. Ou lutar. — Não pude responder. Não consegui responder. – Sou Baltazar, o colhedor, e como pode ver. – Apontou para o faixo de luz. – Estou colhendo. – Mudou o tom de voz para um tom de alguém que dá um conselho. — Sua avó cometeu um erro grave, ela não devia ter visto a história que você vai contar. A história da sua mãe quase a matou, a sua, com certeza vai matá-la.
Tentei me mexer, usei toda minha força e perseverança. Como assim minha avó iria morrer? O que estava acontecendo? Que sonho era esse?
— Isso não é sonho. – Ele voltou a falar, me assustando. – É a história que você vai contar para seus filhos, a história da sua geração.
O espectro vermelho agora se contorcia de dor no chão, enquanto ossos, músculos e nervos surgiam no corpo dele. O corpo que se formou no espectro era grotesco, não tinha pele, deixando todos os músculos a mostra, a cabeça era como a de um cão, só que muito maior, não tinha olhos nem orelhas, as unhas eram longas e pontiagudas e ele andava em quatro membros, não parecia conseguir se levantar. Baltazar fez um movimento com a cabeça e a criatura correu na direção que o velho seguiu com os jovens.
Minutos se passaram e mais nada aconteceu, eu não tentei mais mexer meu corpo e Baltazar ficou quieto olhando na direção que a criatura correu. Até que depois de alguns momentos, Baltazar sorriu. Gritos de dor e desespero começaram a vir da direção do velho e da criatura. Fumaça. Fogo. Baltazar gargalhou.
— Vê agora o que trouxeste para o mundo, velha! Eu não queria isso, mas não se cansam de se meter no que é nosso. – Ele olhou para mim como quem já se arrepende de algo antes de fazê-lo. – Desculpe.
Acordei no quarto da minha casa. Estava ofegante e meu corpo pesava como se tivessem me enterrado em cimento. Tentei levantar, mas minhas pernas não se mexiam, meu corpo mal respondia meus comandos. Consegui me arrastar com muito esforço até a sala só para ver ele novamente, Baltazar, sentado na poltrona em que eu adormeci. Continuei. Vi minha avó deitada no chão, a boca cheia de bolhas de saliva, os olhos arregalados, os dedos cheios de sangue e algumas unhas faltando. Me arrastei mais um pouco e vi minha mãe encostada na parede, uma poça de sangue a cercava, a garganta destruída e os restos de garganta se espalhavam pelo chão. Baltazar moveu a mão e eu levitei. Ele me pôs sentado na frente dele.
— Eu não tive escolha, jovem. Você viu o que aconteceu com eles lá, não pretendo, e nem quero, que aconteça o mesmo aqui. Viva e conte isso a seus filhos, até que eles tenham algo para contar. – Baltazar levantou-se da poltrona e estalou os dedos, fazendo toda a bagunça sumir, me olhou e assentiu com a cabeça, apenas assenti de volta e ele sumiu, deixando cheiro de enxofre para trás.
Desmaiei e não tenho outra memória desse dia.
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