Notas iniciais
Sim, eu notei a GRANDE demora para postar. Tive um belo de um bloqueio criativo, fora que ninguém comentou nada no capítulo anterior e fiquei meio desanimada... Mas, mesmo assim, acho que tenho uma ideia para o próximo. Não se preocupem, vou anotar para não esquecer. Como transcrevo as palavras do nosso doce Escritor Anônimo, já estou acostumada com a falta de resposta independente da necessidade. Espero que dessa vez agrade vocês... Até as notas finais!~

Algumas pessoas devem achar que só porque eu pareço um zumbi ou uma múmia e quase não saio de casa, estou morto. Claro, vivo me escondendo do síndico que também vive me cobrando o dinheiro do condomínio! Sempre invento viagens para lugar nenhum com data de volta para sei-lá-quando e nunca saio pro corredor...

Ainda sim, não estou morto, droga!

Minha vizinha de porta só faltou enfartar ao me ver. As mechas morenas se misturavam com fios grisalhos, presos em um coque que ela parecia nunca desfazer e segurava sacolas de compras recheadas, quase para entrar no apartamento 304.

— Bom dia. — Murmurei, trocando a garrafinha de mãos. A senhora? Exclamou, assustada, e repousou a mão sob o peito como se tivesse realmente visto uma assombração. Isso deve te fazer imaginar o quão bonito estou, uhn?

Mas, ao notar quem resolvera dar o ar da graça — levando em conta que estou ligeiramente irônico enquanto preencho essas páginas —, respirou bem fundo e tentou retomar a pose, segurando as sacolas plásticas e endireitando a postura.

— Bom dia, Sr. Christopher… — Fitou-me por trás das lentes dos óculos, piscando levemente como se tentasse ligar os fatos em silêncio. Ergueu a face com um tipo de meio sorriso “terno”. — Vai sair para caminhar? É uma boa manhã para fazer exercícios!

Encolhi os ombros. Por um momento, acreditei estar sendo chamado indiretamente de gordo, mas não foi algo que chegou a latejar em minha mente, portanto ignorei. Tentei retribuir o sorriso, por mais que não me sentisse à vontade parado na frente de casa enquanto tinha uma conversa desconfortável para ambas as partes.

Não que eu seja antissocial. Acontece que desde pequeno acho inusitado como podem bilhões de seres que só tem a espécie em comum conviverem nas mesmas ruas, mesmos bairros, cidades, estados, países… No mesmo planeta!

Fascinante, sei disso. Me sinto uma formiguinha vadia que não faz seu trabalho dentro de um grande formigueiro. Quem seria a Rainha? Uhn.

— Vou sim.

— A senhora anda tendo problemas com ratos? — Franzi o cenho e acabei sendo acompanhado por ela. Piscou, olhando ao redor e encontrando, por acaso, o pacote de veneno de rato escapando da sacola.

— Ah! Isso…? Bom, digamos que sim. Nada sério! De qualquer forma, divirta-se na sua caminhada, Sr. Christopher. Aproveite. — Dei de ombros e tentei parecer cordial, mas ela simplesmente me deu as costas e sumiu pela porta com aquela cara de quem quer fugir.

Notou que sempre tem alguém que faz essa cara pra mim em algum momento? Impressionante como todos parecem achar que sou uma cobra pronta para dar o bote. Tsc.

Ignorei a história do veneno de rato. Na verdade, tentei apagar tudo da minha mente e relaxar de uma vez. Minhas caminhadas conseguiam me deixar pelo menos um pouco mais calmo, mas para isso precisava de concentração.

E quem raios se concentra enquanto imagina se aquele veneno de rato não vai parar na comida de um outro alguém?! Ninguém, acredito. Eu não!

Tudo bem. Vou admitir que esse é um defeito meu irreparável. Se alguém me deseja bom dia, está com uma faca. Se alguém se oferece para carregar minhas compras, quer me atacar. Caso uma editora me ligue, vai ser pra me colocar na rua.

Sou uma pessoa parcialmente negativa. Não de todo negativo, pois uma parte de mim é positiva em acreditar que algum dia algo vai me dar zero motivos para desconfiar dele. Algum dia bem distante desses atuais, imagino.

Enquanto caminho pelas ruas, exercitando os músculos, meu olhar vai se cruzando com situações cotidianas e pessoas comuns; para mim, todos escondem alguma coisa. Coisas ruins. Todos têm segundas intenções.

Minha mãe me dizia sempre: A janta nunca é de graça, Christopher. Alguém sempre vai pagar a conta, mesmo que esse alguém não seja você.

Às vezes é bom falar dos próprios defeitos. Acredito ter um lista extensa, então de nada me custaria contar um pouco dos casos em que fui mais irritante do que qualquer outra personagem da trama, certo?

Vamos começar pelo fato de que descrevo e falo como se fosse um narrador de radionovela. Sim, desnecessário. Outro? Falo sozinho. O tempo inteiro. Como agora.

Quando estava na sexta série, meus amigos diziam que eu tinha a mania de sempre pular e passar por cima de todo tipo de obstáculo no caminho da escola mesmo sem vê-lo. Quando parecia que ia cair de cara no chão, desviava do objeto.

Não sei se é um defeito real, mas por essas e outras que Alec sempre colocava o pé na minha frente.

Simplesmente não sei mais confiar nas pessoas ou em suas palavras. Nada me convence. O que me faria acreditar na palavra de alguém, se há algum tempo atrás, ouvi as mesmas coisas e nada foi cumprido?

E isso me leva à crer que venho me tornando um pouco cético e cínico com o passar do tempo. Pessoas assim nunca se surpreendem e ninguém as quer por perto por estarem sempre desacreditando ou não colocando fé nas coisas.

Por exemplo, quem gostaria de iniciar um relacionamento com alguém que diz abertamente: “Nós dois não vamos durar três meses”? Ninguém, acho. É desanimador, sei disso. Porém, é mais fácil aceitar esses meus defeitos e a possibilidade que minha vida nunca vai ser como sempre quis que fosse.

Vê? Mesmo tendo sonhos e metas para alcançar, não consigo me empenhar em acreditar em nenhuma delas. Já li infinitas vezes que isso tira a força e a fé das coisas, mas não consigo fazer diferente.

Sou uma criatura presa à rotina mais imprevisível. É sempre certo que o trem vai sair dos trilhos alguma hora e não importa o quanto eu tente fazer dar certo.

Não dá.

Acho que só houve uma vez na vida que encontrei alguém tão ou mais negativo que eu, em todos os sentidos. Foi em um banco de praça e uma da situações que mais me abalaram em pouco minutos.

Tinha levado um livro para ler ao ar livre. Da data não me recordo muito bem. Foi um dia em que apenas quis sair para relaxar, e já tinha passado dos vinte anos. Sentei-me, abri o livro e suspirei, observando folhas secas pelo chão. Algumas caíam em meus ombros; ignorava.

Era tom de elegia, cenário de lamentações e em seguida viria um diálogo de dois infelizes. Tinha lido apenas algumas páginas quando me veio um rapaz de blusa de mangas longas e gola alta. Eu, em meu bom e velho sobretudo escuro, não desviei o olhar do livro.

Alguns segundos. Ele fungou, se espalhando no banco de madeira com a tinta descascando. Em silêncio, fitei-o. Usava um gorro para se aquecer, os braços estavam naturalmente cruzados e o olhar para cima, ignorando toda a paisagem para ver as nuvens cinzentas sobre nossas cabeças.

Pisquei.

Boa tarde.”, murmurei baixo e permaneci com os olhos em sua figura. Ele ainda levou um bom tempo para abaixar o rosto, como se o cérebro processasse minhas palavras. Trocamos olhares silenciosos.

Boa? Tem certeza? Acabaram de assaltar uma senhora na esquina.”, franziu o cenho. Acho que fiz uma careta enquanto o encarava. Whoa. “E a moça do tempo disse que os ventos ficarão cada vez mais frios aqui no litoral. Uma árvore caiu no centro essa manhã!

E novamente ele ergueu a face, trazendo o silêncio incômodo para o banco de praça. Não disse nada, apenas tentei compreender o que leva uma pessoa à agir assim. No fim, sorri de lado e balancei a cabeça suavemente, retomando minha leitura.

O silêncio não perdurou.

Está frio, não está?” perguntei apenas para testar o humor do rapaz.

Notou só agora? Estamos todos encapuzados! Se nevar não vai ser surpresa nenhuma, eu garanto!”, resmungou feito um velho mau-humorado, enfiando as mãos nos bolsos. É. Um retrato de criatura alegre e positiva.

Mas claramente não era apenas dele que eu ia falar, de início. Seria muito óbvio, não acha? Com certeza. Acontece que passaram-se mais alguns minutos quietos ali ao redor. Nem arrisquei mais puxar conversa; tinha a impressão de que se tentasse, ele me bateria. Então, o silêncio.

Foi após um curto período de tempo que um casal passou pela frente do parque. A garota ia na frente, sacudindo o cachecol ao vento enquanto corria, parecendo conter o choro. Já o rapaz, aparentando ser uns oito ou nove anos mais velho que ela, veio correndo atrás.

Nunca me esqueci do seu olhar desesperado ao que gritava seu nome, pedindo-a que parasse. Dora. Pois quando ambos estavam há alguns metros do nosso banco, Dora parou de repente. A bagunça tinha afetado também o homem ao meu lado, que encarava os dois com uma expressão incomodada.

Me deixe em paz!” ela berrou, balançando os braços. Ele também freou, olhando nervosamente para os lados. Parecia implorar que não fizesse um escândalo ou chamasse atenção, mas parecia ser tarde demais. “Não está vendo que isso não vai dar certo?!”.

O que está dizendo? Fique calma, por favor, Dora! Fale baixo, relaxe!” e ainda sim nada que dissesse fazia efeito. Ela parecia disposta a não escutar! E nós dois? Sentados, parados e quietos do mesmo jeitinho de antes. Inclusive, minhas pernas ainda cruzadas.

Ele não parecia com vontade de partir para a violência, então… Até o momento, nenhuma intromissão parecia necessária. Era a vida deles.

Relaxar?! Você nunca me disse que era casado! É um professor… Casado! Como quer que nosso relacionamento funcione?! Vai me jogar fora depois de usar. Eu sei que vai! Quer me jogar na sua cama para depois voltar para os braços da sua mulher?! Não vai conseguir!” se bem que aquilo parecia tê-lo deixado irritado.

O que?! Você também tem outras pessoas! Eu te vejo com aqueles garotos para lá e para cá nos corredores… Aposto que já deu para todos eles e sou só mais um com quem você transa.” ele riu, alterado. Foi quando resolvi marcar a página do livro e fechá-lo, desfazendo a pose serena de antes.

Ele havia agarrado o braço da garota com força, olhando direto em seus olhos. De ambos os lados, cada um parecia apostar suas fichas no ruim, sem nem hesitar. Um tentava destruir ao outro, e não estavam nem começando.

Sei que não sou a primeira aluna com quem você se relaciona… E não devo ser a última! Seu velho promíscuo! Tentando me fazer passar como uma qualquer?!” Dora chorava alto, se balançando a fim de escapar das mãos fortes.

Tensionei os ombros e espiei o rapaz ao meu lado pelo canto dos olhos. Parecia enojado, pronto para levantar e bater em alguém até sangrar. E se tivesse uma filha na mesma situação? Seria terrível, não seria?

Você é uma qualquer! Piranha… E ainda quer que eu me separe para ficar com você?! Minha mulher pode ser tudo, mas não sai dando para os professores e nem nada do tipo! Você tem má-fama por toda a escola, e ela existia até mesmo antes de mim!

Foi quando eu entendi tudo. As coisas passaram como um flash, e se fosse comigo, mal teria chance de me defender. Acabei ficando parado assistindo tudo, sem mover um músculo. De fato, o Sr. Mal Humorado havia levantado e batido em alguém até sangrar.

Aparentemente, pela forma agressiva e estrondosa como a qual gritou o nome da jovem, era mesmo sua filha. Pobre Dora. Se outra pessoa não passasse na hora, teria apanhado também. O professor? Com o nariz quebrado e todo moído.

Nenhum grito daqueles conseguiu me tirar do estado catatônico. Sim, verdade que minha vida inteira tinha sido um circo de horrorrores… Mas àquele ponto?! E o pior nem era ver uma briga tão violenta. Talvez tivesse a ver com… Puxa, a aura negativa daquela praça.

Durante tudo, ela estava ali. Rondando, pairando. Em mim, na garota, nos dois homens. Vai ver aquela coisa de atrair energias ruins realmente fosse real, e um pensamento de “pode piorar?” soasse como um convite.

Mesmo após dar meu depoimento na polícia, não consegui relaxar. Fui direto para uma lanchonete e comprei o maior hambúrguer que podia pagar, como fazia minha mãe quando estava magoada ou nervosa com alguém ou alguma coisa.

Depois de sair, passando em uma das ruas do centro, me deparei com um tipo de hippie sentado no chão. Em cima de uma toalha, colares e pulseiras que pareciam estar à venda. Os cabelos longos eram cheios de dreads, e pareciam nem serem lavados. As roupas coloridas, folgadas, velhas. E mesmo assim, um sorriso calmo no rosto.

Comparando-me a ele, éramos opostos. Na época eu ainda tinha uma situação melhor, estabilizada. Podia me bancar, e ainda esperava o pior — pior este que um dia viria a acontecer. Ele tinha muito menos, mas tinha uma aura positiva e alegre!

O senhor parece muito nervoso.” ele disse, tirando-me de meus devaneios. Pisquei algumas vezes e enfiei as mãos nos bolsos, chegando mais perto. “Tem uma coisa negra o envolvendo. Uma energia negativa, carregada…

O encarei em silêncio, sem ter resposta alguma. Ele também havia notado? Estava tão aparente?! Crispei os lábios, confuso e avulso — rima obrigatória, sinto muito. O hippie não se importou com a falta de reposta, correndo o olhar pelos produtos no chão.

Pareceu encontrar o que tanto estava procurando: esticou a mão, pegando um colar artesanal. Uma pedra média esverdeada, escura… Aparentemente, uma jade. Com um olhar compreensivo, me estendeu o colar.

Vai te ajudar a se libertar de pensamentos e energias negativas, independente de onde venham. Receba como um presente. Divindades trouxeram você aqui para recebê-la.” mal pude agradecer direito. Minha voz saiu como um murmúrio baixo, e permaneci ali feito um fantasma enquanto encarava o objeto.

Para não sair sem comprar nada e levar apenas o presente, comprei uma pulseira trançada e a coloquei, saindo dali como se o cheiro do hippie tivesse me deixado entorpecido ou coisa parecida. Não sei se foi, mas a dúvida fica para vocês também.

No fim, o pendurei no pescoço e voltei para casa me perguntando se aquilo realmente funcionaria. Será que essas tais divindades realmente estavam pensando em mim? Tudo que eu poderia fazer seria agradecer!

Talvez funcionasse… Não saberia. A pulseira ainda está comigo até hoje, de fato! Gosto dela, não tiro do braço. Porém o colar se perdeu na bagunça do meu apartamento durante um… Surto meu. O arremessei contra a parede e nunca mais encontrei.

Seria uma boa tê-lo de volta. Preciso desesperadamente de uma jade para curar meu físico e espiritual e converter toda essa energia negativa em algo bom. Apesar de que… Retirar meu lado negativo e "defeituoso" seria sumir com o Escritor Anônimo.

Me faria alguma falta?

Acho que sim. Aquele vendedor devia ter me dito que é difícil se livrar da energia ruim quando você cultiva o seu pior lado como se fosse um animal de estimação. Aparentemente todos esses escritos estão de prova.

Esse deve ser, de todos, o meu pior defeito.

Notas finais
Espero que tenham gostado! ;-; De qualquer forma, deixe sua opinião aqui embaixo. Mande ideias, se quiser! Só evite falar da demora... ;3; Eu a notei e realmente quero consertar isso e chegar ao final da história, mas preciso do apoio dos leitores. Muito obrigada! Beijocas com glitter e caramelo! Vejo vocês no próximo capítulo!~