Contos de um velho caderno

8 Noite de insônias e temporal


Em uma noite de tempestade, eu lutava contra a insônia, mas o som dos trovões e o excesso de pensamentos não me permitiam cair no sono. Por fim, levantei da cama, vesti aquela sua camisa que você esquecera em meu apartamento e fui até a janela.

Os relâmpagos iluminavam o céu em seus lampejos arroxeados, coisa que sempre me fascinara. Fiquei ali por um tempo, em silêncio, olhando a chuva e o colorido do temporal, devaneando. Algo lá no fundo estava me incomodando, e eu sabia que também era o motivo da minha insônia. Olhei para o meu próprio corpo, para a camisa que parcialmente me encobria. Faltava algo ali. Faltava a sua presença, a sua voz. Olhei para o telefone, hesitante. Já era madrugada. Depois de um momento de indecisão, deixei o egoísmo vencer e disquei o seu número. Você atendeu depois de três toques, e não tinha a voz realmente embargada de sono. Talvez estivesse na mesma situação que eu. Pedi para vir me ver, e você não hesitou um segundo em concordar. Vinte minutos depois, você estava à minha porta, os cabelos molhados caídos sobre a testa, aquele sorriso de menino nos lábios. Você me abraçou pela cintura e disse que também não conseguira dormir. Que sentia minha falta. Perguntou se eu queria deitar envolvida em seu abraço, mas àquela altura, eu já não queria mais dormir. Eu queria conversar.

Você estranhou, me pediu sobre o quê. Respondi que o assunto realmente não importava, o que valia para mim era ficar horas e horas conversando e rindo ao seu lado. Apenas nós dois, isolados do mundo. Você deu um sorriso atravessado e sentou-se na mesa da cozinha. Eu sentei em cima do balcão. E ali, falamos de tudo e falamos de nada. Nós rimos juntos e lembramos momentos. Ali, naquela noite de temporal, eu vestindo sua camisa sobre a minha roupa de baixo e você molhado de chuva, sentados sobre os móveis da cozinha às três da madrugada, nós falamos sobre o universo.