Contos de um velho caderno
9 Lembrança de uma noite de tempestades
A chuva riscava os vidros em uma noite sem estrelas, ao mesmo tempo em que as lágrimas marcavam seu rosto e queimavam meus olhos.
Você estava sentado na beira da cama, com os cotovelos nos joelhos e a cabeça entre as mãos. Eu, parada em pé junto à janela, segurando um cigarro e proferindo as palavras mais frias e afiadas que eu conseguisse pensar. Você estava sem defesas e eu, me aproveitando disso.
Naquela noite, nós deixamos de ser “nós” e voltamos a seguir nossas vidas sozinhos. Eu acreditava que seria melhor assim. Então, num dia de outono, eu o vi. Em um café perto do parque, sorrindo e usando aquele cachecol que eu sabia que você adorava. E havia uma garota sentada à sua frente.
Eu não deveria me importar, mas você olhava para ela do jeito que, uma vez, você costumava olhar para mim. E aquilo me partiu por dentro. Porque fora eu quem estragara tudo. Porque você havia encontrado alguém que secara suas lágrimas. E eu, naquela noite de outono, voltei a chorar junto à janela, segurando um cigarro, mas dessa vez as lágrimas não continham mais raiva. Não continham palavras afiadas. Apenas o reconhecimento de um erro. Mas, mais do que tudo, aquelas lágrimas continham você.
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