Contos de amor
1 Montanha Russa
Notas iniciais
Você se apaixonou
Por algo que não sou
Pelo beijo na montanha russa
Nesse amor de montanha russa
Seria difícil falar de amor sem mencionar o garoto de olhos azuis como o céu, que me entregou flores de maio e seu coração.
Parceiro de todos os momentos, aventuras, meu primeiro e até então único namorado, por quem me apaixonei aos quatorze anos e sempre irei amar e evitar.
Quem aos quatorze anos de idade sabe muita coisa? Mesmo que, na adolescência tentamos parecer entender de tudo, não querendo perder nada. Foi por esta pensar pretensioso e carpe diem que não exitei em dizer meus sentimentos ao garoto que mais parecia uma estátua diante de mim — “Eu gosto de você”- como eu saberia que uma frase tão simples teria tanto poder? A verdade, é que em minha inocência, pensei que nada aconteceria, mas no momento que essas palavras saíram de minha boca, percebi que nada seria como antes.
Mas vamos começar do início, pelo dia que o conheci, quando sequer imaginava que iria me apaixonar pelo garoto tímido, de óculos garrafais que se apresentou de forma tão simples que sequer me lembro.
Era uma tarde ensolarada, um dia perfeito para a viagem escolar planejada, iríamos para São Paulo conhecer as antenas ou algo assim, não me lembro ao certo a razão da viagem, mas sem dúvidas me recordo que nenhuma das minhas duas únicas amigas da época foram então, fiquei completamente sozinha na hora do almoço no refeitório de shopping mais lotado que vi em minha vida.
Foi assim que conheci cinco meninos, amigos de longa data, precisavam de um lugar para se sentar e minha mesa, bem, estava completamente vazia. Um em especial chamou minha atenção, com sua forma articulada de falar, olhos curiosos e castanhos como seus cabelos, o garoto iluminava o lugar apenas por estar lá, até a tradução literal de seu sobrenome era “bom”, fiquei tão encantada que sequer percebi seu amigo sentado ao canto com suas piadas inteligentes.
Foi um dia divertido, onde cantamos e contamos histórias uns aos outros, me sentia acolhida por aquele grupo e queria até montar uma banda com eles para ter uma desculpa para passar o tempo com esses garotos, desejei tanto que fossemos amigos… Naquela época não tinha muitos, sentia tanta inveja pela união deles, queria fazer parte daquilo.
O tempo passou, o garoto por quem tinha me encantado me chamou para ir no cinema, fiquei super animada mas nunca chegamos a ir, ele começou a namorar com outra pessoa e, aparentemente quis me unir a seu amigo no passeio escolar seguinte, meio ano mais tarde, para o Butantã, onde parecia fazer questão de que ficássemos sozinhos, eu e aquele menino que antes quase não falava, mas com o tempo foi se soltando e passou a puxar os mais diversos assuntos.
Nós nos entendíamos bem, tínhamos gostos em comum, ele falava pouco, eu falava demais, nos aproximamos de pressa e quando percebi, já estava completamente apaixonada.
Desde então passamos a nos ver acidentalmente mais e mais vezes, ele parecia sempre estar por perto, o que era estranho já que nunca tínhamos nos visto antes.
Pensei nesses incidentes como obra do destino e passei a considerar a dizer meus sentimentos a ele.
Quero deixar claro que, não sou perfeita, nunca fui, nem como pessoa, nem como heroína de um romance, eu amava ele, mas gostava de outros também, o que posso dizer? Que tenho um coração grande? Espírito livre? Talvez eu seja mesmo a vadia que desenharam por cima de minha personalidade, mas o que posso fazer? Sou quem sou e amo amar.
A princípio pensei em escrever escondendo a verdade, pintando meus olhos apaixonados da época e escondendo os conflitos, afinal, quem quer ouvir uma história de amor quebrada? Mas, se eu fizesse isso, estaria traindo meu passado e consequentemente a função de meus dizeres seria de sonhar com o que poderia ter sido, sem nunca curar as feridas daquilo que já passou, pensei em finalizar na hora certa, afinal, toda boa história de amor acaba de forma conveniente no momento de seu ápice, sem que esta seja contagiada pela amargura dos problemas da realidade, mas cheguei na conclusão que é a hora de trazer a verdade nua e crua, pois, busco meus fantasmas, na esperança que eles deixem de me assombrar.
Ao mesmo tempo que planejava dizer meus sentimentos ao menino que havia aprendido a amar, sabia que receberia uma declaração de um garoto de quem gostava cujo o qual passei a conversar por achar o irmão mais velho dele bonito(queria saber o nome do irmão dele, mas acabei me afeiçoando a ele, o que pode ter dado esperanças) e também planejava beijar alguém na frente de um garoto com quem estudei a maior parte do ensino fundamental e que, apesar de liderar o bullying contra mim, nitidamente sentia algo e eu? Eu queria vingança, queria amar, ser amada, queria tudo e sendo mais uma vez pretensiosa, pensei ser capaz de ter.
Como cheguei a esta conclusão? Teria um passeio escolar mais uma vez, escolas particulares parecem encontrar os motivos mais inusitados para passeios escolares, nesse caso, seria para o lazer, em um parque de diversões famoso da região.
Todos estariam lá, meu plano era declarar meu amor e levar um fora, aceitando o pedido de namoro do menino por quem eu tinha uma afeição, na época, pensava que bastava ser amada para amar, seria então um erro recusar o gostar de alguém, mesmo que não fosse exatamente recíproco, beijaria ele então na frente do demônio que infernizou meu ensino fundamental.
Era um plano egoísta, de certa forma cruel e definitivamente arrogante de minha parte.
Mas apesar de tudo isso, o universo parecia estar do meu lado.
Pois, mais uma vez, como prova de que estávamos destinados, encontrei o garoto por que cultivava os mais belos sentimentos na fila da montanha russa que minha amiga queria ir, nos juntamos a ele e parecia o momento ideal.
Meu coração batia forte, eu já tinha amado, me apaixonado, mas nunca havia me declarado a alguém.
“Eu gosto de você”- Foram as únicas palavras que me vi capaz de dizer.
Eu realmente gostava, estava disposta a dizer as razões, declamar a música que eu tinha escrito meses atrás ou mesmo....
“BEIJA!”
Um coro de pessoas que nunca havia visto na vida gritavam sem parar, beijar, parecia ser uma boa ideia, já que ele não tinha reação nenhuma sem ser a de ficar cada vez mais vermelho e com os olhos mais arregalados.
Reuni toda a coragem que existia dentro de mim, respirei o mais fundo que pude, naquele momento, pareceu que todo o ar tinha deixado de existir, fechei os olhos e fui em direção dele, primeiro dei um beijo em sua bochecha mas isso não pareceu ser o suficiente para agradar o público a nossa volta, também não parecia ter resolvido o problema de paralisia temporária de meu amado.
Respirei fundo mais uma vez, com minhas mãos em seu rosto, aproximei meus lábios aos dele e, como em um sonho, eles se tocaram, o calor que eu sentia era absurdo, a adrenalina da montanha russa não chegou aos pés daquele momento, era como se toda a minha vida até então tivesse me levado a aquilo, o tempo parou, e eu só existia naquele beijo.
Quero deixar claro que na época eu era inconsequente e prepotente e que não faria nada disso se tivesse outra chance, beijar alguém sem a certeza de que é recíproco é invasivo, errado, assim como declarações públicas muitas vezes coagem a pessoa a aceitar sentimentos que ela não corresponde.
Felizmente, no caso, foi recíproco, nos beijamos pelo restante do dia e ao questioná-lo sobre o que éramos, ele respondeu simplesmente “namorados”.
Para ele as coisas eram simples e concretas, sim ou não, nunca existindo espaços para um talvez.
Por fim nos despedimos com mais um beijo, que foi presenciado pelas pessoas que estudavam comigo, o menino que pretendia se declarar para mim se sentiu magoado, seu amigo aborrecido comigo, iniciou minha imagem de vadia sem coração, o garoto que fazia bullying comigo também viu tudo e, como esperado, ficou furioso e mais tarde provou ser capaz de tornar minha vida escolar ainda pior.
Como eu e meu “namorado” não estudávamos na mesma escola, éramos jovens demais e com pais que não permitiam saídas tão frequente, três semanas se passaram e não tínhamos nos visto uma única vez.
Também ficamos sem nos falar, o que era frustrante.
Para tornar tudo ainda pior, me tornei assunto na escola, de estranha passei a ser vadia, desejada e odiada, rodeada de burburinhos e fofocas, me sentia inquieta, angustiada e sufocada.
Não era o amor que eu tinha fantasiado e talvez, não fosse sequer amor para começo de conversa.
Eu me sentia presa em uma relação inexistente e decidi pôr um fim nisso.
O fim, assim como o começo, foram por iniciativas minhas, por mensagem, expliquei que éramos novos demais, que eu tinha medo, que estava confusa, ele disse sentir o mesmo, optamos por dar um tempo.
Ele então me perguntou ao fim se eu o amava, diante de um talvez, optei por um sim, não era mentira, mas também não parecia ser verdade.
Um ano mais tarde, nos falamos mais uma vez, pensei em dar mais uma chance de nos vermos, afinal costumávamos no dar tão bem!
Chamei meu antigo amor a uma feira escolar e nos divertimos bastante.
Mais um ano se passou e saímos juntos para um encontro que durou um dia inteiro, passeamos pelo centro, parque, compramos uma codorna, tudo parecia simples e divertido.
Seguimos saindo de tempos em tempos, espaçados porém constantes, fazíamos piqueniques, íamos no cinema, na casa um do outro, nos presenteavamos , era como se fossemos amigos com a ideia de um romance que era adiado mas nunca realizado.
Ele era paciente, parecia acreditar que um dia voltaríamos, mesmo que, anos tivessem se passado, bom, a verdade é que o tempo parecia ter passado só para mim, ele ainda me via como a mesma menina que conheceu, qualquer novidade em minha forma de pensar ou agir parecia forçado a seus olhos, tentei me manter a mesma mas sempre mudei muito de forma muito rápida, era cansativo fingir ser alguém que fui, nossos encontros pareciam cada vez mais uma tentativa de não machucá-lo e de, ao mesmo tempo, de fazê-lo desistir de mim, do que de fato um momento de descontração.
Com dezessete anos então, ele me presenteou com uma música, era sua vez de se declarar e eu preferi fingir não perceber, eu o amava, mas de uma forma estranha, queria a sua felicidade, mas não o queria para mim.
Me afastei aos poucos, deixando ele por completo ao entrar na faculdade, ele se manteve mandando mensagens até os meus vinte anos, nunca respondi mais que o necessário, tinha medo de tudo voltar a ser como era, pois, nunca vou ser capaz de dizer adeus, mas também não acho certo prendê-lo por sentimentos pela metade.
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