Contos de Uma Guardiã

2 E mais um anel para minha caixinha de jóias.


Eu fitava-o, ele fitava-me. O passarinho já voava longe, a Névoa começara a se desfazer. Os Trovões caminhavam juntamente com a Tempestade e Nuvem que seguiam para leste; agora uma Chuva traquila era música de fundo daquela cena tensa.

— O-olha..., ahh...domo arigatou kotori-chan, demo...demo.... – essa era eu tentando falar em japonês para ver se o bicho entendia (eu sabia que ele estava longe, mas vai que ele tem ouvido super sensível e me escuta...eu já falei, um dia eu procuro um médico) – demooo... – merda, não lembrava como se continuava a frase – sabe de uma coisa? Foda-se! – essa era eu irritada com o pássaro que longe voava – Olha aqui pássaro bizarro! Não quero esse anel! Já tenho vários, não preciso de mais um! – e eu mexi meu braço, preparando-me para arremessar o anel janela afora.

Mas não consegui.

Era como se algo tivesse paralisado meu corpo. Algo me impedia de me desfazer daquela bijuteria.

Bijuteria? Seria mesmo? Minha curiosidade (que só me ferra, por sinal) falou mais alto (como de costume), fazendo com que saísse da posse de “arremesso” e fosse para a posse de “visão”: Trouxe a mão para perto do rosto e, abrindo a mão lenta e hesitantemente, pude notar que aquilo não era de latão.

O anel era pelo menos revestido de prata, com umas partes negras. Não, nenhuma pedra. Estranho. Aproximei mais ainda (é, estava na hora de ir a um oculista, acho que a hipermetropia começara a incomodar) e vi que na parte superior do escudo havia três conchas, logo abaixo havia duas linhas que faziam um “V” obtuso invertido e, na outra metade que sobrara, havia um Sol.

— É, Sol, era isso que eu queria agora – falei em um tom em que mesclava medo, hesitação e, claro, ironia.

E, não me pergunte como, neste momento o som das gotas d’água no asfalto parara. Virei-me para a janela e olhei para fora com uma cara “tensa”.

— Ca-cadê a chu-chuva?? – e fui andando em direção a janela, hesitante. Ainda enrolada na toalha azul-marinho, abri mais os vidros que estavam levemente abertos, coloquei minha cabeça para fora e olhei para o Céu. Limpo. Nem uma nuvem. Somente uma bola de fogo queimando no Céu mais a oeste. Era o Sol.

— Fiilho da Puuuuta... – sim, não é delicado uma dama falar palavrões o tempo inteiro, não que eu me importe com isso.

Olhei para o anel, que estava na palma de minha mão esquerda. Examinei-o. Realmente aquilo parecia um anel normal. Isso, só parecia, pois não era. Mais uma vez minha curiosidade veio à tona e, em busca de desvendar o mistério por trás daquilo, coloquei-o em meu dedo médio da mão direita. Um estranho e agradável calor percorreu todo meu corpo, uma sensação parecida com a de estar deitada no sol as duas da tarde de um dia de verão. “Torrante”, mas maravilhoso.

— Woooww!! – disse para as paredes e cortinas após o calor passar.

Fiquei a fitar o anel por alguns minutos, tentando, em vão, descobrir o que tinha sido aquela sensação. Porém meus devaneios foram interrompidos por um bater de asas até que familiar. Voltei-me para onde estava o som, a mesa de jantar. Sobre ela estavam o pássaro e uns pedaços de papéis. Ao aproximar-me vi que eram passagens de avião.

— 20 de janeiro de 2029. Amanhã? – Indaguei o pássaro. Ele assentiu. – Do aeroporto Roma Ciampino para o aeroporto de Narita. – Peraí, Narita... conheço esse nome... será que é no...Japão? – Oh passarinho estranho, estamos indo para o ...Japão?? – ele assentiu.