Contos de Ninguém
13 Um Mundo Perfeito
Notas iniciais
A única luz presente no cômodo era uma lâmpada que fracamente espantava a escuridão da noite. Ela oscilava conforme o vento atravessava a janela, o que diminuía ainda mais a visibilidade. Uma moça sentada numa simples cadeira, chorava em silêncio. Os soluços tentavam – em vão – ser reprimidos, como se não quisesse demonstrar fraqueza.
Ora ou outra, resmungava sobre como o mundo era injusto e a vida, terrível. Entre os lamentos contidos, um pensamento atravessou de súbito sua mente nebulosa. Lembrou-se de uma história infantil, sobre uma lâmpada mágica e um gênio que podia realizar três desejos, fossem o que fossem. E então, ela imaginou como seria se tivesse aquele poder.
Mesmo que anteriormente, pediria algo como dinheiro ou fama, no estado frágil em que encontrava-se, tudo em que conseguia pensar era num mundo perfeito.
Permitiu-se sair de seu sofrimento por um instante, mergulhada naquela utopia. Num mundo perfeito, todas as doenças teriam cura. O meio ambiente seria respeitado. Todas as crianças teriam um lar e educação. Não existiriam crimes, pois todos teriam boas condições para viver. E, acima de tudo, todos seriam felizes.
Ficou fascinada por aqueles pensamentos, quase parecia real... Até que o vento soprou com mais força, perfurando sua pele como facas. Sentiu como se tivesse atingido o topo do mundo, e então caído de volta ao chão. A realidade voltou novamente a dominar sua mente, e os soluços tornaram-se mais audíveis.
Por algum tempo, aquela cena angustiante prevaleceu. Mas, logo outro pensamento infiltrou-se sua mente, tal como os raios de sol que começavam a esgueirar-se por sua janela.
Talvez... um mundo perfeito não fosse a resposta. Afinal, a vida não seria supostamente uma luta pela felicidade? Se todos a tivessem, de que adiantaria viver? Ela então lembrou-se de um ditado que nunca entendera:
“Sem a tristeza, como poderíamos conhecer a alegria?”
A partir daquele pensamento, outros foram vindo e entrelaçavam-se, formando uma luz de otimismo que afastava a escuridão.
Todos os problemas enfrentados serviam para mostrar aos humanos o quanto os momentos de alegria são preciosos. Eles não devem nos enfraquecer, mas sim nos ensinar lições, e tornar-nos mais fortes para continuar indo em frente. Para continuar a viver neste perfeito mundo imperfeito.
E, naquele momento, o sol nascia no horizonte, iluminando o local. Juntamente com a alma da moça. Ela limpou as lágrimas, e sorriu verdadeiramente pela primeira vez em muito tempo.
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