Contos de Ninguém
15 O Nascer do Sol
Notas iniciais
Não importava como o céu estivesse, ao redor da aquela casa, tudo parecia escuro e frio. O garoto costumava tomar a mesma rota para o colégio todos os dias, sempre passando por uma majestosa mansão, tão linda que parecia um sonho.
Mas, com certeza, a parte mais impressionante da propriedade era o jardim, que era maior do que a construção em si, e haviam flores e árvores dos mais variados tipos. E apesar de tudo ser muito bem cuidado, o jardim parecia não ter vida.
Porque aquela sensação era tão latente?
Se havia algo mais curioso ainda, era o fato de nunca ter visto alguém ali. As janelas e portas estavam sempre fechadas, mas a casa não estava a venda. Certa vez, o garoto pensou ter visto uma sombra na janela. Contudo, assim que olhou novamente, não havia nada.
Quem será que morava ali?
Noutra ocasião, ele tinha de conseguir um presente de última hora para sua mãe, então resolveu entrar no jardim e pegar uma flor. Porém, assim que arrancou uma rosa do caule, alguém jogou uma pedra aos seus pés. Ele virou-se, mas ninguém estava lá.
Porque o tal habitante nunca saia?
Todas aquelas questões giravam em sua mente, até que a curiosidade tornou-se insuportável. Numa noite como qualquer outra, o garoto esgueirou-se até a mansão, numa tentativa de descobrir a resposta para aquele mistério. Ora, se durante o dia “ele” nunca saíra, talvez à noite...
Mas, de todas as hipóteses mirabolantes que ele idealizou, nenhuma se comparava à resposta verdadeira. Na calada da noite, com somente a luz da lua iluminando o local, havia uma garota em meio ao jardim. Ela movia-se graciosamente, cuidando de cada planta com extremo cuidado. Cantarolava uma música suave, enquanto um sorriso descansava em seus lábios. Era uma bela cena, até que a garota parou de sorrir e lágrimas escorreram por seu rosto.
Em choque, observou seu choro silencioso, carregado de mágoa e dor. Aquilo cortava seu coração tão profundamente como uma lâmina. Num certo ponto, ele deixou seu esconderijo, e adentrou o jardim. A garota arregalou-os olhos ao vê-lo, recuando. Mas assim que ele abraçou-a, ela desmoronou. Seus gritos e lamentos ressoaram na escuridão.
Dentro daquela escuridão, cheia de desespero. Segurando um grito por tanto tempo, abandonada e com medo. Naquela noite fria, ele ouviu-a dizer: “Eu tento escapar deste mundo paralisante, mas nada funciona! Eu procuro uma maneira de escapar dessa loucura, mas não encontro! ...Ninguém sabe o que é ser a única nesse buraco.”
Mesmo que sequer a conhecesse, sentiu necessidade de curar seu coração partido. Mesmo que mais e mais perguntas se formassem em sua mente, tudo o que importava era aquele momento.
O garoto então sussurrou-lhe ao pé do ouvido: “Está certa. Eu não sei. Mas não irei para minha sepultura até que a diferença seja feita. Se quer lamentar-se, faça. Mas somente até o nascer do sol.”
“O nascer... Do sol?”
“Sim... Ele irá resplandecer por todo esse jardim e espantar a escuridão. Ele irá tirá-la deste buraco.”
“Se é assim, então o sol já nasceu para mim... Obrigada.”
E naquele momento, quando um sorriso verdadeiro aparecia em ambos os rostos, era como se a luz finalmente adentrasse naquele jardim sem vida. A noite ainda permanecia, mas o sol já nascera no coração daquelas almas.
“De tempos em tempos, surgem entre os humanos
Pessoas que parecem transpirar amor, tão naturalmente como o sol
Dando calor.”
Fale com o autor