— Pegue isso, vai te deixar melhor. — disse a mulher de rosto gentil e que cheirava a caramelo, após ajudar o garoto a levantar do tombo que tinha levado.

Ele desembrulhou rapidamente a bala que recebeu e a comeu. Era de chocolate, seu sabor preferido. Mas assim que ele a engoliu o mundo ficou cinza e todos na rua viraram estátuas como que por mágica. Uma forte dor atingiu a parte de trás do olho do menino o fazendo gritar. Vultos começaram a surgir por todos os lados e, quando ele tentou fugir, tropeçou e caiu no chão.

Viu que as sombras que o cercavam eram apenas crianças. Uma delas se aproximou e agachou perto dele. No lugar dos olhos dela haviam duas crateras enormes e negras. O menino olhou em volta e viu que todas as crianças eram assim. Um objeto brilhou na mão da menina a sua frente: um bisturi. Ele tentou se arrastar para trás mas as outras crianças o barraram. A garota se aproximou, colocou o bisturi na mão dele e suplicou.

— Ranque seu olho, rápido, antes que seja tarde. Você precisa arrancar!

Assim que ela terminou a frase o olho do garoto começou a arder como se estivesse pegando fogo. Chorando, ele hesitou um pouco e então enfiou o bisturi no olho, arrancando-o para fora. Um verme negro com dentes afiados saiu junto, com as presas fincadas no órgão. Então, a voz da mulher gentil surgiu num grito desfigurado de raiva, fazendo o mundo tremer.

O garoto acordou no chão, no mesmo local em que tombara. “Foi tudo um sonho?” pensou. Mas logo notou que só enxergava por um olho e que sentia uma dor estranha no lugar onde ficava o outro. Ele levou a mão ao próprio rosto e gritou. Ao tocar sua pálpebra seus dedos afundaram no buraco vazio que havia atrás dela.