Contos de Fumaça // Interativa
3 // Sinais e Cerejas
Notas iniciais
Eles lhe avisaram. O padeiro, o dono da hospedagem, ou mesmo seus poucos clientes. Haviam perigos ali, mas Dmitri ansiava por encontra-los. Se não por isso, por que se aventuraria noite adentro para lucrar em cima apenas de uma pedra de fogo qualquer?
O comerciante vinha pensado nisso há um certo tempo. Estava em Kanto há meses, mas poucas semanas em Lavender, de fato. Era um estrangeiro ali, depois de tudo, e a cidade odiava-os. Tinha que ter cuidado em quem o via, com quem o via, e andar um passo à frente dos outros mais do que lhe era rotineiro. Mas era difícil fazê-lo.
Dmitri atentou-se ao tempo no compasso em que entrecortou uma viela, apertou as mãos nos bolsos do pomposo casaco e se viu indagando ao vento, mais uma vez, se aquilo tudo estava certo. O peculiar objeto que carregava rente ao peito o aquecia um pouco, mas não era o bastante para apagar a sensação vazia que Lavender o trazia. Assim como o frio, o sufoco.
Embalou-se, então, com a ideia de que logo estaria em casa e foi-se. Se caso estranhou o breu das ruas, não disse. Não havia à quem. Como não poderia simplesmente sair por ai acompanhado por Orion, mantinha o tubarão de areia em um silente isolamento. Sua esfera, porém, sacolejava sempre em seu bolso, como se para despertá-lo para perigos eminentes.
O comerciante suspirou quando percebeu que ladrilhos eram o mais próximo de distração que tinha. Contava-os e, mesmo no escuro, seus relevos se sobressaltavam a tornar ainda mais singular a rua, esta que parecia há muito apagada da história da cidade.
As casas, para si, não eram nada além do que figuras fantasmagóricas, estruturas ironicamente desumanas, cascas vazias a mercê do tempo. Não pareciam em nada com as agitadas residências de sua adorável Castelia, ou mesmo com as tendas musicais dos desertos de Unova. Ninguém podia ser visto ou ouvido ali, até chegar aquele ponto.
Dmitri sentiu-se observado e apegou-se ao assovio do vento, na esperança de que algum Pokémon lhe aparecesse a afirmar que tudo aquilo era algum tipo de normalidade por aquelas bandas. Kanto poderia ser há muito uma possível potência conhecida em alto mar, como lhe dissera seu gêmeo, Dylan; mas era, em mesma intensidade, grosseira, medieval e repleta de segredos. Em síntese, irremediavelmente ameaçadora.
Pokémons eram tratados de uma forma deveras estranha naquela sociedade -, talvez por isso só os encontrasse na calada da noite. Alguns, eram tidos como monstros. Muitos, mitos, serpentes marinhas, lendas. Poucos, em verdade, eram alcançáveis ou passíveis de convívio. Dmitri podia contar nos dedos quantos deles havia visto nos últimos tempos.
Desvencilhando-se de suas reflexões, poucos minutos depois, o mercador chegou no ponto de encontro com seu cliente. Para um observador tão apegado às constelações, surpreendia-se com o fato de ter se localizado tão facilmente sem precisar parar para observá-las uma vez.
A praça decadente com a qual se deparou ali, porém, não simpatizou em nada com sua visita. Parecia sussurrar para que corresse dali, ordená-lo para que desaparecesse. Mas, teimoso, Dmitri não ouviu. Praças não falam. Escorou-se numa arvore ensombrada na esquina de uma grande ruína e fingiu adivinhar as horas para passar o tempo.
Embora não fosse lá muito importante, o mercador notou que tacs do relógio de sua mente pareciam tensos. Tic. Tac.
— Primeiramente, deixe-me dizer que duvidava que aparecerias aqui algum dia. O que me leva a ressaltar que és, ou muito inteligente, ou muito burro, rapaz.
Quando o relógio de uma longínqua torre de igreja bateu as três, um homem afirmou tal sentença ao materializar-se em sua frente, falando com divertimento enquanto focava em suas luvas apertadas. Mesmo com grande ausência da luz, ele se portava para muito além de um simples dono de terras. Então, o que o levaria ali, depois de tudo?
A lua, todavia, não parecia dar sinal de como sua aparência viria a se apresentar. E, estranhamente, a chama do pio lampião mastreado no final da rua se extinguira. O pequeno lacaio que Dmitri reparara aos seus pés rira, porém, de seu sobressalto, como se quisesse denunciar sua curiosa obra.
O comerciante desencostou-se de seu apoio logo após se recuperar da surpresa e não murmurou nada além de um saudoso cumprimento. Dmitri via agora que aquele sujeito não se parecia em nada com o idoso que bateu à sua porta naquela manhã, que contou-o histórias de um indefeso Vulpix que pretendia ajudar às escondidas. Mas, de certa forma, a situação já era esperada.
O mercador não moveu um ademais músculo de forma visível para o estranho, mas agarrou-se à esfera que prendia-o à Orion.
— Trato é trato, porém. — O freguês retomou em afirmação, enquanto a criatura de olhos vermelhos ao seu lado novamente riu. Parecia ser o trabalho tornar as coisas ainda mais desconfortáveis para o estrangeiro.
Tão rápido e direto quanto a sua chegada, entretanto, o homem levantou uma maleta em direção à Dmitri, mostrando-o generosa quantia de moedas douradas. “Deve pagar o seu silêncio”, aquilo queria dizer.
— Imagino que não vá desperdiçar uma pedra dessas em um Vulpix. Seja para o que for, isole-a em altas temperaturas. — Ele indicou, aprumando sua postura de modo que se elevasse às suas companhias inconvenientes. Talvez inconscientemente desejando intimida-los. — Não deixe os Curadores saberem. — Então, aconselhou.
O suspense do que viria a seguir pairou no ar quando ambos receberam suas respectivas partes do acordo, de forma que Dmitri utilizou o decorrer desse para perceber que não sabia bem o que aquilo que dissera significava. Mas seus acompanhantes sim, tanto que levantaram sorrisos macabros no fim da relação.
— Sinais soarão logo. Curadores não são os únicos com quem deveria se preocupar. — Dito isto, as duas figuras apertaram as mãos e sumiram outra vez. Voltaram ao pó, ao vento, para de onde quer que tivessem vindo anteriormente.
O comerciante arrepiou-se por dentro de suas roupas. Lavender era repleta de sinais como aquele que viria a seguir, de pistas e armadilhas. Ele lembrava bem de que precisara se esconder em uma carroça de peles para passar pelo portão do norte até o centro e evitar todos eles. Sabia também que a noite não era segura por conta dos passeios que os Curadores faziam, e que a grama alta era acompanhada por estranhos casos de ataques inexplicáveis e brutais mortes.
Visando não imaginar mais tais coisas, Dmitri deu meia volta e esgueirou-se para casa o mais rápido que lhe fora possível. No frio, evitava de ser embalado na sensação dos vazios de outrora ao mirar os amorfos ladrilhos. Mas ele ainda fora dormir pensando em como tirar aquele estranho encontro da cabeça.
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O amanhecer não fora tão sereno quanto seu parecer. Embora os pássaros formassem um coro agradável e o céu estivesse limpo, a cidade estava revirada por especulações e cochichos. Foi exatamente por isso que Dmitri fez uma nota mental para permanecer o mais invisível que lhe fosse possível, para assim evitar grandes infortúnios.
Na espelunca próxima ao seu trabalho rotineiro na fazenda, o rapaz fazia o desjejum sem muito ânimo. O pequeno bar continuava mal cheiroso, algumas mesas continham manchas de comida de dias anteriores e a higiene cada vez mais não parecia ser um grande critério para os donos dali. Uma Pichu até havia tentado roubar o seu pão de grãos, o cozinheiro chefe chutava dois Meowths de seu estabelecimento e as pessoas de sempre se entretinham nas suas respectivas rodas de conversa.
A garçonete ao longe piscava para Dmitri. Ela já havia o perturbado diversas vezes ao oferecer mais café por conta da casa e agora se dividia em servir um ou outro trabalhador exigente e monitorar o comerciante. Era divertido e, de certa forma, também um alivio que ela estivesse tão longe, uma vez que ele estava certo de que não sentira algum desejo em dar corda às investidas da moça. Ou somente não estava no humor para.
Dmitri ocupava, sozinho, a mesa num dos cantos mais escuros quando voltou-se ao cozinheiro para pechinchar mais pães. Não que ainda estivesse com fome, mas Orion provavelmente estaria. Este contava três dias a fio em enclausuramento.
No compasso que o homem deixou o seu pedido e retornou para seu posto, o mercador girou cautelosamente a tecnologia que reduzia tubarão em uma bola de energia e esperou.
— Encontrarei com o Cerejas em vinte minutos, coma rápido. — Ele informou em um cochicho quando a criatura se formou por entre as sombras, devorando velozmente o que Dmitri oferecia por detrás da cadeira.
— Negócios? — A voz árida e carregada do comum sotaque indecifrável de Orion arrastou-se, ao mesmo tempo em que uma garra desse deslizava pelas pernas de seu mentor, analisando-as. — É por isso que te vestes como um esmolé?
— Respostas. — Dmitri concluiu, levando a xicara de café à boca em uma expressão impassível.
Orion sabia que Cerejas era um grande aliado naquele território. Segundo o mesmo, havia navegado para Fiore com Dylan e confiaria tudo o que tinha ao rapaz. Uma vezes que ambos os rapazes eram exatamente iguais, era simples confiar em Dmitri também. Ainda assim, o tubarão sentia a falta de conversar com alguém.
— Objetiva então ganhar a pena dele, é isto? — O amigo provocou, apagando uma risada de suas ideias depois de Dmitri pigarrear.
— Ou algo do tipo. — Ele concluiu, ao que parecera ser minutos depois. Orion, por sua vez, espantou-se que Dmitri não o atiçara da mesma maneira, como seria o esperado dele. Teria o tempo em que estiveram separados o mudado tanto assim?
— Então, você me chamou apenas para ter com quem forrar o bucho? — Ainda tentou, tão sucessivo quanto da primeira vez.
— Eu te chamei para ouvir.
E Orion calou-se no instante em que o mercador pôs um dedo na boca de forma tão rápida que mal pudera acompanhar. Ele entornou a bebida e chamou alguém ao longe, sendo imediatamente cumprimentado com um entusiástico “Vou já”.
A dona de tal confirmação pairou até a mesa cinco minutos após o ocorrido, alargando o seu sorriso ao sentar-se na companhia de Dmitri. Era curvilínea, negra e mantinha os longos cabelos presos em tranças grossas. Esta era atrativa mesmo com as chulas calças, blusas e avental acinzentados do lugar.
O tubarão, já imaginando o que se passaria dali em diante, escondeu-se mais no canto ao visar sua inquietante proximidade.
— Eu não pude deixar de perceber uma estranha agitação por aqui nessa manhã. E o seu olhar anda meio baixo. Está tudo bem com você? — A postura do mercador mudou no momento exato em que a garçonete pôs os olhos sobre ele. Dmitri juntou as mãos na frente do corpo e fez força para que os músculos de seu braço fossem mais aparentes em seus leves tecidos abarrotados.
Orion percebeu os sinais que a mulher também distribuía, ela certamente o queria e Dmitri usara a consciência de tal fato a seu favor. Sua fala, depois de tudo, não queria dizer que se importaria se ela estava bem ou não. Ele gostaria apenas de estar ciente do movimento que aglomerava pingadas e diferentes pessoas naquele moribundo comercio.
— Sim. Comigo sim. — Ela indicou ao responder com certo pesar. Concluiu, então: — Mais um ataque ocorreu nesta madrugada. Um dos homens dos Nveens apareceu desfigurado no portão oeste.
Dmitri gelou e fingiu pensar ao morder o lábio inferior, estendendo a mão para fechá-la no braço da moça, como se em um gesto de conforto. Ele permaneceu silente enquanto relacionava que os Nveens deveriam ser importantes figuras para a história de Lavender. E, se eles apareciam com homens mortos, também significaria que tinham grandes inimigos.
Seria aquele o sinal do qual seu cauteloso cliente avisara na outra noite? Ou seria esse só mais um dos trabalhos dos Curadores? Seu polegar ainda roçava vagarosamente na pele da mulher quando as portas principais se abriram abruptamente.
— Ianis irá...— Mas a fala da mulher fora entrecortada com a entrada de grandes e armados homens.
A confusão instaurou-se em questão de segundos. Mulheres gritaram, mesas foram derrubadas, civis se esconderam e muitos outros lutaram enquanto os copos de vidro voavam. A garçonete se abaixou, Orion ofegou e o cozinheiro desapareceu sem deixar rastros.
Eles faziam perguntas pelos Nveens. E Dmitri sabia seria um alvo, quase que certamente. Muito embora ele continuasse estático no lugar, sem desviar os olhos do que acontecia, algo delatava para Orion que ele procurava pelas mais simples saídas dali.
Tudo que o tubarão de areia vira antes de virar mira da esfera de novo fora um tiro vindo na direção dos três. Ele não piscou, deixou o disfarce nas sombras de lado e recusou o pedido de retorno silente de Dmitri, despejando um jato de chamas no horizonte sem muito pensar. Este e o tiro atravessaram múltiplos daqueles metidos no furdunço e o barulho deixou os presentes com um zumbido nos ouvidos até certo instante.
Percebeu, em seguida, como Dmitri já corria a o puxar pelos cantos do estabelecimento. Depois de um olhar intenso e confiante que diz: “Vamos logo. Ainda me vou a encontrar com o Cerejas”; Orion já sabia de quais eram os tipos de respostas ele queria.
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