Notas iniciais
Essa não é a primeira história que eu escrevo. Porém, é a primeira que posto no Nyah!. Espero que curtam. Críticas construtivas são muito bem-vindas. Obrigada por ler, Sunny.

Como sempre, eu havia despertado antes do Sol. Isso mesmo, "Sol" com letra maiúscula. Apolo, se você preferir.

Acordei antes dele, assim como nos dias anteriores. Acho que, por ser um escolhido de Plutão, eu acordo antes justamente para aproveitar um pouco da escuridão, antes do Sol nascer. Mas, quando ele chegou, todos que moravam em minha casa — empregados, meus pais, meu irmão mais novo -, simplesmente todos acordaram. É esse o efeito que o Sol exerce aqui em Égia, minha cidade. Acho que, por não termos nenhum deus patrono, acabamos aproveitando um pouco de cada, e agradecendo a todos.

Meu passatempo preferido dos minutos antes do Sol nascer era sentar na varanda da minha casa e observar a cidade iluminada. Era algo bem bonito e, quando a escuridão diminuía, eu via as luzes se apagarem, uma de cada vez, como um pequeno espetáculo silencioso e simples. Depois, desejava um bom-dia aos empregados da casa que, depois de mim, eram os primeiros a acordar.

Nesse dia, eu estava particularmente cansado, então resolvi tomar um café reforçado, antes mesmo de meus pais e meu irmão. Fui na cozinha e conversei com as três cozinheiras e seus ajudantes enquanto pegava as coisas que queria comer. Também pedi ajuda ao pessoal e eles prontamente colocaram as várias comidas que eu gostava na pequena mesa de madeira. Após terminar, agradeci, dei um beijo na bochecha de cada uma das cozinheiras, troquei um high-five com os ajudantes e saí.

Eu estava indo para a sala de treino, quando meu pai me chamou.

–Cássio! Está indo treinar? — meu pai era magro e alto, mas não tanto quanto eu. Tinha cabelos escuros, alguns fios brancos e olhos azuis. Emanava calma, sempre, e parecia ficar ainda mais calmo quando enfrentava problemas.

–Sim, meu pai. — respondi respeitosamente — Quer assistir?

–Ora, mas é claro!

Então fomos os dois. Meu pai adorava me ver treinar. Acho que era assim que ele lembrava de sua juventude que há muito já se perdera de seus ossos. Ele mesmo me ensinara como manejar as facas, mas com o tempo sua habilidade foi se esvaindo e ele teve que ensinar a teoria para que eu a colocasse em prática. A idade podia tê-lo alcançado fisicamente, mas sua mente continuava a mesma. Por causa disso ainda estava no Comando de Égia.

A sala de treino não era muita coisa. Apenas um enorme cômodo circular, com paredes cinzas e janelas enormes com vidro ultra-resistente. Era repleta de armas. Arcos, aljavas cheias de flechas, facas, gládios, escudos com mecanismos avançados, lanças, espadas e ioiôs — sim, ioiôs são excelentes armas. Chegando lá, peguei minhas facas preferidas — as que tinham um cabo preto — e comecei a treinar.

Meu pai aplaudiu quando acertei um manequim em movimento bem nas costas.

– Muito bem! Creio que está até melhor do que eu quando tinha a sua idade.

– Não, não, senhor Marco. Eu lembro de como lançava as facas. Abatia pássaros que voavam, carnívoros que avançavam... — eu o cutuquei com o cabo da faca — Até mesmo o ladrão das joias de minha mãe.

Ele sorriu, mas consegui ver o que a debilidade física o causava. Nunca mais seria ou se sentiria o mesmo.

– Não, não, Cass. Já não sou o mesmo de antes.

– Mas continua sendo meu herói. — meu pai sorriu novamente e nos abraçamos

– Agora vá. Você precisa treinar fora dessa gaiola. — ele arrancou uma faca que estava presa na parede — Floresta de Frígia, filho. Traga caça.

***

Arrumei minha mochila com o necessário. Algumas frutas e minhas facas serviriam para me manter vivo. A Floresta de Frígia poderia parecer magnífica de longe, mas podia esconder Ghouls, armadilhas da época da guerra, testes científicos radioativos e também fugitivos. Nunca se sabe.

Entrei na Floresta por meio de uma trilha, mas logo me distanciei dela. Nenhuma caça se aproximaria daquela trilha por ser protegida. Era usada nos tempos de meu pai para viajantes que só tinham as pernas para se locomover. Já havia sido esquecida há muito tempo, mas a proteção continuava funcionando.

Imensas árvores de todos os tipos se erguiam majestosamente. Acácias, carvalhos, ciprestes, oliveiras e pinheiros enfeitavam tanto quanto confundiam seu admirador. Encontrei até um Pau-Brasil modificado, que fora trazido para a Europa para reparar os danos causados ao meio-ambiente e aumentar a flora do novo império.

A Floresta era bastante perigosa. Alguém inexperiente se perderia facilmente e poderia morrer de muitas formas. Esse não era o meu caso.

Me embrenhei cada vez mais na Floresta. Escalei uma árvore enorme, avaliei o território e vi algo se movendo a mais ou menos quinhentos metros de distância. Não queria apelar para meus poderes, mas foi o único jeito. Foquei em um ponto escuro perto da presa e me imaginei lá.

Não era um animal. Era um ser humano. Era uma garota.

Ela segurava um arco e tinha uma aljava nas costas.

Rapidamente olhei em seus olhos e vi uma flecha perfurar meu corpo.

Notas finais
Olá, leitores! Pra vocês não ficarem perdidos, sempre que tiver uma palavra desconhecida, um nome de uma cidade ou de algum deus, eu colocarei aqui. - Égia: Cidade onde mora Cássio. É onde se encontra o Senado. Não possui deus patrono, mas é uma magnífica cidade. - Apolo: deus do Sol, da música, da poesia, da cura, da verdade e dos oráculos. - Ghouls: deuses menores nascidos do nada. Podem assumir qualquer forma. Vagueiam pelo mundo levando todo tipo de infelicidades. - Gládio: espada utilizada pelas legiões romanas. - Floresta de Frígia: Floresta localizada nos limites de Égia. É usada como esconderijo para fugitivos e ghouls. Espero que estejam gostando. Beijos, Sunny.