Contos de Europa
10 Cássio
Notas iniciais
Brisa gritava a plenos pulmões e se contorcia no chão. Ela devia estar sentindo uma dor excruciante, pois se debatia, revirava os olhos e, quando tentava falar, o que saía era um gemido agudo. Por um momento, tentou a todo custo se afastar daquela entidade, então percebi que era aquilo que a machucava por dentro. Eu não havia descansado o bastante, e isso não permitia que eu usasse meus poderes. Além disso, minha cabeça latejava, como se aquela entidade estivesse fazendo mal a mim também, e a dor ficava mais forte a todo segundo. Eu temia que ela se agravasse mais até o ponto de me fazer perder os sentidos e não poder salvar Brisa. Então, antes que isso acontecesse, levantei-me, peguei minhas facas e avancei contra aquela coisa.
Aquilo tinha um corpo de mulher, mas que não era composto por matéria. Assim que tentei golpeá-la, minha faca passou direto por seu corpo e aquilo congelou meus ossos, minhas veias e toda a minha mão esquerda. Gritei de dor. Tentei desesperadamente tirar a faca de minha mão congelada, mas a dor de cabeça me desconcentrava e eu segurava a arma com muita força. Enquanto isso, a entidade tentava se aproximar de Brisa, que, incrivelmente, conseguiu acender sua luz para se proteger. Ela ainda lutava pela vida. Contudo, eu podia sentir a mesma deixando seu corpo. Se eu não agisse rápido, Brisa morreria e toda aquela viagem não faria mais sentido nenhum.
Foi aí que tive uma ideia. Procurei todo e qualquer resquício de adrenalina que pudesse obter em meu corpo e me concentrei em transportar-me pelas sombras até o lado de Brisa. Tentei uma vez, mas o desespero não me ajudou. Acabei indo parar do lado de fora do abrigo, onde tudo estava estranhamente calmo e silencioso. Eu não ouvia mais os gritos de Brisa, mas ainda sentia a aura dela: estava fraca, e diminuía cada vez mais. Eu precisava voltar para lá, mas sabia que não tinha energia suficiente. Mesmo assim, resolvi tentar. Tirei a pedra preta de meu bolso, aquela que eu achava que seria importante um dia, e roguei a Plutão que me ajudasse. Então, algo aconteceu: a pedra ficou mais clara. Passou de preto para um cinza escuro. Nesse momento, senti que aquela pedra havia me dado uma pequena carga de adrenalina que seria suficiente para chegar até Brisa. Talvez até mais. Concentrei-me novamente e me transportei pelas sombras, desta vez para o lugar certo. Eu estava ao lado de minha amiga e, naquele momento, soube exatamente o que deveria fazer. Usei a energia dada pela pedra e foquei em minhas cordas vocais, foquei no que eu iria dizer. Então, falei:
– Mainá!
Aquela palavra era uma ordem de expulsão. Uma vez proferida, qualquer coisa ou pessoa que tivesse sido “agraciada” com ela não poderia chegar perto de quem a havia dito, no caso, eu. E, como eu estava perto de Brisa, aquilo também não chegaria perto dela. Assim que falei, uma rajada de vento entrou por uma pequenina janela e arrastou consigo a entidade.
Brisa tossiu e vomitou em seguida. Eu desmaiei.
Quando acordei, ela dormia serenamente em um sofá velho e encardido, do outro lado do cômodo. Minha cabeça ainda doía um pouco e meus músculos latejavam tão incessantemente que eu não conseguia levantar nem me mexer. A pedra preta continuava em minha mão direita e eu não conseguia abri-la. Eu estava tonto e fraco, não conseguia falar, então decidi ficar onde estava até que Brisa acordasse.
Felizmente, isso não demorou. Cerca de quinze minutos depois de eu ter acordado, ela se sacodiu no sofá e quase caiu. O susto serviu para despertá-la por completo, o que a fez perceber que eu tentava chama-la quando gemia.
– Ah, meus deuses! – exclamou – Cássio, o que houve com você?
Percebendo que eu não conseguia falar, Brisa começou a olhar para todos os lados a procura do causador daquilo. Como não achou, se concentrou em me curar. Para isso, ela usou uma técnica que, para mim, era mais avançada do que a outra que ela havia usado outro dia: ela passava as mãos a um palmo de distância de meu corpo e delas saía uma luz azul. A luz era acolhedora e praticamente entrava em meu corpo, relaxando meus músculos e acabando com a dor de cabeça. Quando ela terminou, uma pequena quantidade de sombras saiu de mim e saiu do esconderijo.
– O que era aquilo? – perguntei assim que senti que minhas cordas vocais estavam aptas a funcionar.
– Dor – Brisa respondeu – Agora, me diga, Cássio, o que foi que aconteceu? Uma das suas mãos estava congelada, sua cabeça doía, todo o seu corpo estava imobilizado, até as suas cordas vocais!
– A mão congelada eu posso explicar. Foi aquela entidade que estava aqui.
– Você quer dizer, aquela Harmonia? – Brisa perguntou e eu não pude acreditar. Estava prestes a falar algo, mas ela me interrompeu – Sim, aquela “entidade” era uma Harmonia. Eu também demorei a perceber. Você não devia tê-la espantado, mas está tudo bem.
Era incrível como Brisa estava calma, mesmo após ter passado por tudo aquilo. Além disso, ela havia ficado cara a cara com uma Harmonia, uma deusa da pureza, e, para ter sentido todas aquelas dores e chegar bastante perto da Morte, ela com certeza devia ter feito algo realmente ruim. Eu suspeitava que ela tivesse matado alguém, e fazer isso, mesmo que em sua própria defesa, era algo terrível para as Harmonias. Isso justificava tudo.
– Você queria ser perdoada – Brisa me olhou como se estivesse me examinando – Seja lá o que você tenha feito para merecer isso, você queria ser perdoada.
Ela assentiu.
– Acho que você já sabe o que eu fiz – ela falou, séria.
– Sei – eu disse, e então respirei fundo – Você matou alguém.
Assim que falei, Brisa olhou em meus olhos e eu pude vê-la com a aljava nas costas e o arco pendurado, desesperada, destrancando portões de salas completamente brancas e claras. De repente, um ponto preto aparece. Era um homem. Ele segurava uma arma de choque e tinha seringas penduradas em seu cinto, que provavelmente continham sedativos. De repente, ele cai no chão, pois uma flecha o acertou bem no coração. Ouço um choro, o choro de Brisa, e ela sai correndo, pedindo perdão aos deuses por ter matado aquele homem.
Voltei à realidade e me senti mal por Brisa. Ela não queria matar ninguém, mas o fez em sua própria defesa. E agora, por ter feito aquilo, sofreria todas as vezes que encontrasse uma Harmonia. Não. Eu não queria que isso acontecesse mais.
– Ei – falei, procurando seus olhos – deve haver algum jeito de consertar isso. E nós vamos encontrá-lo.
– Mas há – ela respondeu – e eu poderia ter feito isso agora.
– O quê?
– A Harmonia... eu poderia ter sido perdoada, naquele momento, se aguentasse o bastante.
Eu percebi a besteira que havia feito e me culpei na mesma hora.
– Desculpe. Eu... eu não sabia.
– Não – Brisa disse – Você não sabia. Pensou que eu estava a ponto de morrer. Não foi sua culpa.
– Mas agora você vai continuar sentindo tudo isso quando chegar perto de uma Harmonia.
– Isso mesmo. As Harmonias sempre voltam para que as pessoas saldem suas dívidas com elas. Uma delas vai voltar, e então, eu estarei preparada.
A determinação de Brisa era incrível. Mesmo sabendo a intensidade da dor que teria que sentir para ser perdoada, ela encarava aquilo tudo muito bem. Parecia que havia sido treinada para aquilo desde pequena. Mas ela realmente havia sido. Aguentar ser cobaia dos Canalizadores por tanto tempo era um treino bom o bastante para tudo aquilo que ela estava passando.
– Certo – ela falou, depois de alguns poucos segundos em silêncio – Agora me diga o que foi que fez você ficar assim.
Naquele momento, comecei a falar sobre a pedra que havia me dado energia extra para me mover pelas sombras e falar a palavra do Aeorien que tinha soprado a Harmonia para longe de nós. A cada palavra que eu falava, Brisa franzia mais a testa. Por fim, ela pediu para ver a pedra e eu a mostrei. A reação dela não foi muito boa.
– O que é que você tem na cabeça, Cássio? – ela perguntou, quase gritando – Essa é uma pedra do Submundo, e você sabe o que elas fazem? – fiz que não – Elas te dão energia. Certo. Mas, para te dar essa energia, elas a retiram de um ponto do seu corpo de onde não deve ser tirado nada! É o lugar onde ficam guardadas as suas últimas reservas de adrenalina, e isso abusa muito, muito mesmo do seu corpo. Ainda bem que você não utilizou tanto dessa pedra. Mais um pouco dessa energia e seu coração dispararia tão rapidamente que você teria um infarto!
Olhei para ela, assustado. Eu não sabia de nada daquilo.
– Aonde você conseguiu essa pedra? – indagou.
– Eu... eu a peguei quando estava treinando minhas habilidades. Consigo pegar ou guardar coisas no Submundo.
– Certo, certo – Brisa respirou fundo — Me prometa que não fará nada com essa pedra, a não ser que seja estritamente necessário.
– É a segunda promessa que faço em dois dias...
– Prometa!
– Prometo! – falei, erguendo a mão direita.
– Bom – Brisa falou, respirando normalmente.
– Deixe-me adivinhar: não a devolveremos porque talvez eu precise dela, a qualquer momento – sugeri.
– Nunca se sabe – ela confirmou – Temos Ghouls pela Floresta. Legionários e Rastreadores na nossa cola. Uma hora você talvez deva pedir ajuda.
Assenti.As habilidades curativas de Brisa e a conversa me ajudaram a me recuperar. Então sugeri que era melhor partirmos, afinal, não chegaríamos ao templo de Apolo, se ficássemos parados ali. Sendo assim, juntamos tudo o que tínhamos e saímos pela Floresta, conversando sobre o que poderia acontecer.
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