Contos de D&D - Uma aventura pelo deserto
2 O Grimório
O grupo deixou o oásis com o nascer do sol e seguiu caminho pelo deserto. Infelizmente para Ekto, o capitão conduzia a todos na direção certa.
Tinham desamarrado os pés do prisioneiro e devolveram-lhes as botas para permitir que ele andasse. Milo enrolara a capa nos ombros e no rosto de Ekto para diminuir a insolação, mas o capitão não devolvera o restante de suas roupas por imaginar que pudesse facilitar sua fuga.
Assim, a gangue seguiu, com o capitão na frente, guiando-os. Dois homens escoltando Ekto, seguido por Milo e pelos outros, organizados em fila.
Depois de muita caminhada, os homens que escoltavam Ekto pararam; os demais reduziram o ritmo. O prisioneiro caíra e, com as mãos presas atrás das costas, não pôde evitar bater o rosto no chão.
— Merda. – disse um dos homens. Milo aproximou-se e o capitão virou-se a fim de conferir o motivo da agitação no grupo.
O halfling abaixou-se de modo a ficar cara a cara com o prisioneiro, mas seus olhos viraram-se em outra direção. O capitão também agachou-se ao seu lado para acompanhar a direção do seu olhar.
— Esse homem precisa de água. – disse Milo.
O capitão olhou-o. Sabia que o halfling estava certo, porém seria necessário tirar a mordaça para fazer o prisioneiro beber. Seu olhar fixo, no entanto, chamou-lhe a atenção. Era como se estivesse delirando, mas um delírio de um mago poderia ser útil, em alguns casos. Favo segurou o prisioneiro pelo queixo.
— Estamos perto das ruínas?
O prisioneiro não respondeu. Estava preso no delírio resultante da desidratação. O capitão, então, deu-lhe um tapa no rosto, o que fez os olhos do rapaz voltarem à realidade por um instante.
— Estamos perto das ruínas? – o capitão repetiu.
— Sim.
O capitão olhou na direção em que o rapaz fixava o olhar. Era alguns graus de diferença para onde o grupo caminhava.
— Estamos no caminho certo?
— Não.
Favo apontou a direção em que o mago tanto olhava.
— Deveríamos seguir por aqui?
Hesitante, o prisioneiro fechou as pálpebras uma vez. Ele baixou os olhos, arrependido por não ter sido forte o bastante para guardar tão preciosa informação. Satisfeito, o capitão levantou-se, indicando aos homens a mudança de direção.
— Deveríamos confiar nele, capitão? – perguntou um dos homens
— Um homem neste estado não é levado a mentiras, Harlock.
Com a palavra do capitão, o homem assentiu. Favo percebeu o olhar suplicante de Milo e pensou, não pela primeira vez, que o halfling tinha um coração mole demais para aquela vida. Ele fez um sinal para dois de seus homens carregarem o prisioneiro sem forças e retomou a dianteira na caminhada.
Sem forças, Ekto foi arrastado pela areia escaldante do deserto. Sua respiração estava pesada e sua garganta, seca, pois não bebera uma gota de água desde o dia anterior. Seu estômago palpitava de fome o unguento do halfling há muito já tinha deixado de fazer efeito, de modo que a dor em suas costas era lancinante. Além disso, o sol castigava sua pele desprotegida e a pele do mago estava escura como uma moeda de bronze quando os homens finalmente viram as grandes pedras que anunciavam as Ruínas de Oreon.
— O miserável estava certo. – murmurou o capitão, que não deixara de considerar a pequena possibilidade de que o prisioneiro delirante tivesse se enganado.
Com as energias renovadas, o grupo rapidamente alcançou as ruínas. Descansaram sob a sombra de uma das pedras e o capitão aproximou-se do prisioneiro, encostando a faca em sua garganta e mostrando com a outra mão um cantil d’água.
— Vou tirar essa mordaça. Uma palavra sua e corto o seu pescoço. Você entendeu?
— Sim.
O capitão fez um sinal aos homens e Ekto viu duas bestas apontarem em sua direção. Os outros sacaram facas e espadas e mesmo Milo puxou do cinto duas pequenas adagas.
Um dos homens afrouxou o nó da mordaça e a puxou para baixo, revelando os lábios rachados do prisioneiro. Naquele momento, Ekto não poderia dizer qualquer coisa, nem se quisesse. Sua garganta estava tão seca que suas palavras certamente se perderiam antes de chegar à boca. O capitão virou o cantil na boca do prisioneiro, que bebeu o líquido como a um poderoso elixir de vida. Havia pouco mais de um litro naquele cantil, e Favo despejou até a última gota na boca do prisioneiro. Terminado aquilo, o homem mais uma vez amordaçou sua boca.
Com o sol ainda forte, o capitão não quis perder mais tempo. Fez o prisioneiro levantar-se e caminhar em sua frente. Favo pediu que dois homens ficassem de guarda na entrada de um túnel e um dos homens acendeu uma tocha.
O halfling assumiu a dianteira. Enxergava no escuro bem o suficiente para não precisar da tocha e, como em todas as missões da gangue, desativava qualquer armadilha que localizasse no caminho.
— Conhece o caminho? – o capitão perguntou ao prisioneiro.
— Não.
O capitão contentou-se com a resposta do mago. Avançaram pelo túnel até darem de cara com uma câmara que se bifurcava em dois caminhos bloqueados por desmoronamentos. Não havia saída.
— Droga! – o capitão murmurou. À frente de todos, o halfling percorria toda a parede entre as duas passagens e parou em um local.
— Capitão! – Milo chamou e, conduzindo o prisioneiro até ele, Favo pôde ver a inscrição talhada na parede de pedra. Era ininteligível. – Claro, é preciso um mago para entrar na casa de um mago.
— Consegue ler isso? – o capitão perguntou ao prisioneiro, que analisou a inscrição antes de virar-se novamente para o seu captor.
— Sim.
— Diz como entrar?
— Sim.
— Diga como.
Como se o capitão fizesse uma piada, o prisioneiro lançou um olhar à própria mordaça.
— Tenho uma ideia. – disse o halfling, tirando a pequena mochila das costas. – Mas pode demorar um pouco.
Quando Milo puxou o papel, tinta e pena, o capitão entendeu seus planos. Ekto olhava-o com uma admiração odiosa enquanto o halfling escrevia o alfabeto em letras graúdas em um pergaminho.
— Pronto, agora eu vou correr a pena pelo papel, e você piscará onde devo parar. Deste modo, traduziremos a inscrição.
Milo seguiu seu plano, mas Ekto apenas desviou o olhar. Não participaria daquilo, nem mesmo para o pequeno halfling. O capitão pressionou a faca no pescoço do prisioneiro.
— Vamos, rapaz. Você não quer me ver irritado novamente. – disse o capitão, mas o mago era implacável.
Um chute nas penas derrubou o prisioneiro, que caiu de joelhos no chão de pedra. O capitão usou a ponta da faca para abrir um novo ferimento no lugar onde uma das cicatrizes do chicote estava quase fechada, ao que o prisioneiro urrou de dor. Gotas de suor brotaram em seu rosto e Milo, sobressaltado, olhou o capitão, cujo rosto tornara-se assustador sob a luz das chamas.
— Temos o dia todo, rapaz.
— Apenas siga o plano, por favor. – disse o halfling, lançando a Ekto um olhar suplicante.
Um segundo corte fez Ekto, sem forças, cair no chão. O capitão suspendeu-o pelos cabelos e Ekto mandou-lhe um olhar com um brilho tão forte de ódio que o capitão e Milo estremeceram.
— Vou começar. – disse Milo, antes que o capitão continuasse a tortura. – Certo?
Seu corpo lutava contra sua mente e a dor e o cansaço finalmente venceram-no. Ekto piscou.
Quarenta minutos de trabalho foi o tempo que levou a transcrição. Milo pegou o pergaminho em que fizera a inscrição do texto traduzido e leu-o em voz alta, sentindo um arrepio percorrer sua espinha. A conversa com o prisioneiro no dia anterior voltou-lhe à mente e o halfling engoliu em seco.
Eis aqui o lar e o túmulo de um dos maiores poderes da Terra. Seu corpo é mortal, mas sua alma é eterna e estará presente enquanto lembrarem seu nome. Aqueles que reivindicam seu poder devem portanto fazer uma troca, pois do túmulo sua alma sairá para servir a vossa vontade.
Para abrir a câmara principal, dois homens devem inserir, ao mesmo tempo, suas melhores espadas nas frestas abaixo desta inscrição. Que o poder de Oreon seja a vossa maior arma.
Terminada a leitura, o halfling fitou o prisioneiro, que naquele momento encarava o chão de pedra. Era, portanto, impossível dizer o que estava pensando. O capitão, no entanto, já dava suas ordens. Dois homens sacaram suas espadas e as inseriram nas frestas indicadas pela inscrição.
Ekto olhou-os a tempo de ver o que acontecera.
Uma luz vermelha subitamente invadiu a câmara, como se irradiada pelas frestas na parede. A luz aumentava de intensidade, parecendo preencher todo o lugar, de modo que era impossível enxergar qualquer coisa. Os homens tentaram soltar as espadas, mas suas mãos pareciam soldadas a elas. E então dois gritos de horror tomaram o local, ensurdecendo os ouvidos de todos. À medida que a luz diminuía, Ekto abriu os olhos e pôde ver os dois homens de Favo desfazendo-se em pó, junto com suas espadas.
Um silêncio inquebrável deu lugar aos gritos daqueles dois infelizes. Pasmo, o capitão apontava a faca para o nada; com a boca aberta, os olhos esbugalhados e as orelhas caídas, Milo encarava para o lugar onde antes estavam seus dois companheiros.
Preenchido por cólera, o capitão avançou, derrubando Ekto de costas no chão e pressionando a ponta da faca em meio aos seus olhos.
— Filho da puta! Você sabia?
Milo colocou-se entre os dois, afastando o capitão do prisioneiro.
— Ele sabia tanto quanto nós, capitão. Ele apenas traduziu a inscrição.
O capitão tentou controlar a respiração exasperada. Um único homem que restara e o halfling encaravam-no com um misto de surpresa e choque, olhares que transformaram-se, aterrorizados, quando toda a câmara começou a tremer.
A parede com a inscrição então começou a se erguer, revelando uma passagem entre os dois caminhos bloqueados.
Com raiva, o capitão ergueu o prisioneiro pelo pescoço e o conduziu pela passagem recentemente revelada. O resto do grupo o seguiu e alguém soltou um assobio quando chegaram a uma grande câmara circular.
Havia um grande lustre no centro da câmara e tochas na parede magicamente acesas que iluminavam toda a câmara. Sob o lustre, um grande baú reluzia, chamando tanto a atenção de todos, de forma que ninguém viu os esqueletos que cercavam todo o lugar, compondo uma horripilante decoração.
O homem de Favo precipitou-se em direção ao baú e, como se quebrando o feitiço que prendia seus olhos naquela direção, Ekto olhou ao redor da câmara e lançou um olhar de alerta à Milo.
O halfling entendeu imediatamente e gritou ao companheiro um sonoro pare!, mas já era tarde. A precipitada movimentação do homem já tinha ativado a única armadilha que Milo não era capaz de desativar, e uma flecha voou em direção ao homem, acertando em sua perna esquerda.
Neste momento, todos puderam ver os esqueletos de desprendendo das paredes e avançando em direção ao grupo. Traziam facas, espadas, arcos e escudos nas mãos cadavéricas.
Em uníssono, todo o grupo puxou suas próprias armas. Ekto lançou um olhar para Milo, que armara-se com suas duas adagas e observava, tenso, a horda que esqueletos aproximar-se. O halfling o entendeu e calculou as chances do grupo, que tinha se reduzido para três componentes, de ganhar aquela horda. Não eram boas.
— Não conseguiremos vencê-los. – disse o halfling para o capitão. – Não sozinhos.
Antes que o capitão pudesse responder, Milo fez um movimento ágil com a adaga e cortou a mordaça do prisioneiro.
Com a boca livre e a garganta molhada, Ekto pronunciou as palavras na língua que nenhum dos homens conseguia entender:
— Que minhas amarras transformem-se em serpentes.
O capitão soltou o pescoço de Ekto, afastando-se, quando as cordas do mago começaram a contrair-se, transformando-se em duas pequenas serpentes, que soltaram um sibilo e caíram no chão e, livres, deslizaram pelo chão para a saída do túnel.
À frente do grupo, o homem de Favo ignorava a flecha em sua perna e sacara a besta, atingindo dois soldados esqueletos. Milo chutou as pernas de um dos esqueletos que se aproximara dele e, quando este caiu, cravou a adaga entre sua coluna exposta. O esqueleto desfez-se em pó.
O capitão usou sua faca longa para bloquear um esqueleto e lançou um olhar repreensivo para Milo enquanto via Ekto avançar para a câmara.
— Sejam devorados pelo fogo, maus espíritos.
Um raio de calor inundou a sala e o fogo atingiu um grande grupo de esqueletos que caminhavam em direção ao homem ferido. Houve um chiado desesperado e os esqueletos se desfizeram em pó.
— O-obrigado. – arfou o homem, com o suor escorrendo por seu rosto.
Ekto não respondeu. Virou-se para trás a tempo de ver Milo atravessando a adaga no pescoço de um esqueleto que o atacara por trás. O mago agradeceu-lhe com um aceno de cabeça e afastou-se, erguendo as mãos para cima e abaixando-as com brusquidão.
— Queimem!
Duas grandes bolas de fogo caíram sobre outros dois grupos de esqueletos, reduzindo-os a poeira. Milo derrubou mais um esqueleto, aproximando-se de Ekto.
— Eles não param de surgir. – disse. E, como Ekto constatou, o halfling estava certo. Mais esqueletos brotavam de todos os lados da parede, compondo a horda que parecia nunca acabar.
— É necessário anular a maldição, mas não posso lutar contra eles e fazer o encantamento ao mesmo tempo.
Milo assentiu.
— Capitão! Harlock! – o halfling gritou. – Devemos proteger o mago enquanto ele anula o feitiço.
O homem ferido rapidamente pôs se ao seu lado e o capitão relutantemente seguiu seu plano. Ekto olhou de esguelha o capitão, que compunha com os outros um triângulo em torno dele. Não havia alternativa: tinha que deixar sua vida nas mãos daqueles sequestradores, ou todos estariam mortos em poucos minutos.
Ele sentou-se sobre suas pernas, descansando as mãos sobre os joelhos e tentando ignorar a dor em suas costas esfoladas.
— Do poder de Oreon não espero uma mísera fagulha... – ele interrompeu-se, com uma careta de dor. O capitão empurrou um os esqueletos e atingiu outro com a faca, olhando o mago para conferir o motivo sua súbita interrupção. – Do poder de Oreon não espero uma mísera fagulha— Ekto continuou – Portanto rejeito sua maldição e seu encantamento. Com estas palavras, anulo o poder deste homem que há tempos já se foi e que não mais deve exercer influência sobre a Terra.
Com as ultimas palavras, os esqueletos pararam de avançar. O capitão continuou com a faca preparada, esperando o pior, mas todos os esqueletos restantes apenas desabaram no chão; os ossos sem vida desmantelando-se. Ekto levantou-se enquanto um grito de comemoração ecoava de Harlock e Milo. Ele viu o capitão virar-se para ele.
— Devo...
Ekto apontou-lhe a mão aberta.
— A energia dos céus aceita seus agradecimentos.
Um raio formou-se na mão de Ekto e atingiu o capitão no peito. Favo voou longe, e os dois homens encararam Ekto boquiabertos. O mago os olhou como se os desafiassem a atacar, mas nem o humano, nem o halfling esboçaram qualquer reação.
O mago então avançou em direção ao baú e proferiu algumas palavras que revelariam qualquer encantamento relacionado a ele. Milo e Harlock o viram abrir o baú e retirar de dentro dele um grosso e empoeirado livro.
— Não. – disse Milo, finalmente aproximando-se, com as adagas em posição de ataque – Você não vai leva-lo. Perdemos homens hoje; não...
— Homem e halfling, seus músculos são como pedras. Eu os paraliso por três horas. – Ekto disse, dando as costas aos seus captores. Como esperava, o halfling congelou no lugar, podendo mexer apenas seus olhos. Harlock acho aquilo estranho e tentou avançar, mas estava tão paralisado quanto o companheiro.
Sem poderem esboçar qualquer reação, eles viram o mago colocar a mão sobre as costas.
— Curar ferimentos— de onde estava, o halfling pôde ver os ferimentos nas costas de Ekto se fechando, de modo que o sangue parou de pingar. O mago virou-se uma última vez para Milo e apontou o capitão — Ele se recuperará em algumas horas.
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