Quem conhece o Deserto dos Ossos sob aquele sol infernal de meio de dia jamais imaginaria que um ser vivo cruzaria aquele local por livre e espontânea vontade. Por isso, quem passasse por Ekto Pavo decerto imaginaria estar sofrendo alucinações.

O rapaz enrolara a própria capa no pescoço e nos ombros de modo a cobrir o nariz reto, deixando apenas os olhos à mostra. O vento criava uma barreira a mais em seu avanço pelo deserto, e sua jornada que poderia ser realizada em dois dias logo foi extrapolou seus cálculos. Ekto estava em seu terceiro dia quando viu alguma coisa reluzir no horizonte.

Água.

Seu corpo exausto não concordava com sua mente racional e suas pernas não obedeceram ao comando de poupar energias. Logo ele corria em direção àquilo que só podia ser uma miragem, mas ele não podia evitar. Como seus cálculos estavam errados, a quantidade de água que levara seria insuficiente para o tempo que permaneceria ali, desta forma a parte racional de seu cérebro convenceu-o de que valeria a pena arriscar.

A visão da lagoa foi ficando cada vez mais próxima. Gramíneas cresciam ao redor daquela magnífica fonte d’água e algumas árvores formavam uma paisagem paradisíaca para os seus olhos. Ekto correu e deixou-se cair na margem da lagoa, com uma felicidade que não cabia em sua boca ao constatar que aquilo era real. Como se temesse que toda aquela água fosse desaparecer de um minuto para o outro, ele encheu todos os cantis. Só então tirou suas roupas e, como uma criança, jogou-se na lagoa.

Ekto nadou até o meio da lagoa só para constatar que não havia fundo. A água ali, contudo, estava muito escura para mergulhar, e o rapaz achou melhor não correr o risco de acabar perturbando algum animal perigoso. Ele saiu da lagoa com a deliciosa sensação da água pingando em seu corpo.

Com o calor e o vento, seus cabelos cortados na altura dos ombros quase secaram enquanto ele caminhava de volta para a margem.

— Não se mexa. – a apenas alguns passos de seus pertences, ele ouviu a voz, não percebeu, contudo, qualquer barulho que denunciasse seu companheiro. – Muito bem.

O dono da voz saiu de trás de uma das árvores. Trazia em uma mão uma faca longa e Ekto pensou se ainda era rápido o bastante para alcançar suas coisas, onde escondia uma cimitarra.

— Nem pense nisso. – disse o homem, como se adivinhasse seus pensamentos. Neste momento, um movimento nas folhas chamou a atenção de Ekto. Ele viu com o canto do olho outro homem aparecer por entre as árvores, colocando-se a poucos metros dele, com uma besta armada.

O homem aproximou-se, ainda apontando-lhe a arma. Outros começaram a emergir da pequena floresta, cercando-o, e Ekto começou um a pronunciar algumas palavras o mais baixo que podia, enquanto o homem com a faca aproximava-se de seus pertences.

— Que me vejam como a um ali...

Ao ver algo em sua mochila, o homem da faca ergueu-se subitamente e o encarou.

— Façam-no parar de falar. Agora!

Ekto interrompeu-se com um grunhido. Uma flecha atingira-o no braço. O homem que o abordara primeiro avançou em sua direção, rápido e, antes que ele piscasse, sentiu a faca pressionada em sua garganta tão firmemente que uma palavra poderia arrancar-lhe sangue.

— Corda e uma mordaça, rápido!

Um dos homens obedeceu rapidamente àquele que parecia o chefe. Ekto amaldiçoou-os em pensamento e ralhou mentalmente consigo por sua falta de atenção. O homem amarrou sua boca com um pano velho e prendeu seus pulsos e tornozelos com a corda. O chefe enfiou o cotovelo com força em seu abdome e Ekto caiu, sem ar.

— O desgraçado é um mago. – disse o chefe para seus acompanhantes. – Reconheci o livro em sua mochila. Bom, rapaz, você nos será útil. Afinal, um mago no Deserto dos Ossos só pode significar uma coisa: você está à procura das Ruínas de Oreon. Estou certo?

Ekto o fitou e o chefe pôde reconhecer o ódio em seu olhar.

— Estou tentando estabelecer um diálogo, meu rapaz. Deixe-me ajuda-lo. Pisque uma vez para sim e duas vezes para não.

Na falta de resposta, o chefe começou a irritar-se. Ele abaixou-se, de modo a nivelar os olhos com o de Ekto.

— Está a caminho das Ruínas de Oreon?

Mais uma vez, o rosto do rapaz permaneceu impassível.

— Maldição! – gritou o chefe. Em seguida, ele apontou para dois de seus homens. – Levem-no para uma árvore. Este idiota vai aprender que não se brinca com o capitão Favo.

Ekto sentiu duas mãos ásperas erguendo-o pelos braços. Olhou ao redor enquanto os homens arrastavam-no, obedecendo à vontade do chefe que, como o infeliz rapaz ouvira, chamava-se Favo. Ele localizou cinco homens altos e fortes, além do capitão, de meia idade. O sétimo homem era um sujeito pequeno com aparência infantil. Seus cabelos encaracolados cobriam parte de suas orelhas pontudas e, apesar de nunca ter visto um de sua raça, Ekto soube que era um halfling.

Todo o grupo acompanhou enquanto penduravam-no pelos braços em um galho de uma árvore. Ekto apertou os olhos para tentar conter a dor da flechada.

— Deixe-me falar com ele, capitão. – o halfling pôs-se na frente de Favo. Deveria conhecer os métodos do chefe e seu rosto angustiado mostrava que não os aprovava por completo.

— Sujeitos como este só respondem a uma linguagem, Milo. E é a da violência. – como se para enfatizar suas palavras, Favo tirou do cinto um chicote que fez estalar no ar.

O capitão tentou se desvencilhar do pequeno homem, mas o halfling insistiu.

— Só uma tentativa. E eu não mais insisto.

O capitão fez-lhe um sinal para ir em frente e o halfling colocou-se em frente a Ekto.

— Eu gostaria que tivéssemos sido apresentados em melhores circunstâncias. Meu nome é Milo Semlar e acho que temos o mesmo objetivo, portanto podemos cooperar. Você ouviu o que o capitão disse, portanto pisque, uma vez se a resposta for afirmativa e duas, se for negativa. Você procura as ruínas, não é?

Ekto considerou um pouco antes de responder.

Sim.

O rapaz viu as orelhas do halfling se mexerem e um breve sorriso brotou em seus lábios pequenos.

— Foi isto o que pensamos. Você se perdeu no caminho para lá?

Duas piscadas. O halfling reformulou a pergunta.

— Você vai demorar mais tempo que o planejado para chegar às ruínas?

— Sim.

O halfling olhou o capitão como para constatar se o que ele ouvia abrandava sua expressão furiosa. E dera certo.

— Vamos fazer um acordo, certo? Você nos leva lá e nós o soltamos.

— Não.

O chefe fez menção de intervir, mas Milo fez-lhe um sinal com a mão.

— É o melhor acordo que poderá fazer agora. O capitão tem... outros métodos para convencê-lo e nenhum de nós dois quer que as coisas vão tão longe, por isso pergunto-lhe: você sabe onde exatamente ficam as ruínas?

— Sim.

— E você nos guiará?

— Não.

Milo virou-se para o chefe, que já mexia-se no lugar, irritado.

— Vamos leva-lo de qualquer jeito. Se não nos guiar, todos nos perderemos em meio ao deserto novamente e será difícil achar outro oásis como este. Ao invés de ajudar-nos, morreremos todos de sede e calor. Vamos fazer o acordo?

A resposta de Ekto foi um categórico não.

O capitão afastou o halfling com um braço e entrou em sua frente, posicionando-se atrás do rapaz e preparando o chicote.

— Você fez o que pôde. Agora é minha vez.

Um grunhido involuntário escapou dos lábios de Ekto e perdeu-se na mordaça quando o couro esfolou sua pele, quase fazendo-o esquecer a dor da flechada no braço. Os homens do capitão olhavam a cena, alguns com um meio sorriso cruel no rosto; outros com uma expressão tão séria que era impossível dizer o que pensavam. Não havia, contudo, sinais de compaixão entre eles. Eram homens acostumados àquela rotina.

A segunda chicotada foi ainda pior que a primeira, pois atingiu a parte já ferida em suas costas. Ekto acompanhou com o olhar o halfling afastar-se dali. Se é que havia compaixão naquele bando, estava com aquele pequeno ser, ao qual todos pareciam respeitar.

À noite, o bando reuniu-se em volta de uma fogueira, perto da qual ouviam uma história do halfling que exemplificava todos os seus atos com gestos dramáticos. Quando Milo terminou sua história, um homem deu-lhe uns tapinhas no ombro e o halfling sentou-se para ouvir a uma música improvisada. Seu olhar, contudo, vacilava na direção do prisioneiro e ele não permaneceu muito tempo à roda.

Ekto tinha sido mantido afastado do calor da fogueira. Tiveram a decência de descerem-no do galho e ele deitara de modo a não encostar ao chão as doloridas cicatrizes recentes. Sem as roupas, ele tremia, pois o calor do dia tinha sido substituído pelo frio noturno.

O halfling conferiu o curativo feito no braço do mago. Ele desconfiava que os dons de cura do prisioneiro pudessem ser muito mais práticos, mas ninguém arriscaria tirar-lhe a mordaça.

— Sinto muito. – disse o halfling simplesmente. O prisioneiro encarava-o com a testa franzida, mas Milo não ousou perguntar-lhe o que sentia. — Deixe-me ver suas costas.

Hesitante, Ekto virou-se de modo a ficar de bruços no chão. Ele esboçou alguns gemidos de dor, que foram abafados pela mordaça.

Milo sentiu uma fisgada no peito ao perceber as costas deformadas do prisioneiro. Ekto posicionara as mãos amarradas sobre as costas de modo a não encostar aos lugares onde sua pele fora esfolada por uma das trinta chicotadas que ganhara do capitão. O halfling subitamente levantou-se.

— Espere um momento – ele afastou-se, mas retornou em pouco tempo trazendo a capa de Ekto e um pequeno pote em mãos.

O halfling abriu o pote e despejou parte do conteúdo na mão.

— Isto vai doer um pouco, mas ficará melhor, eu garanto.

Ektor acompanhou suas mãos com o olhar enquanto o halfling passava um dedo na estranha geleia verde que ele tinha em mãos e aproximava o dedo de suas costas. O prisioneiro soltou um ruído alto e contraiu as costas quando Milo acompanhou um de seus ferimentos com o dedo. À fogueira, os homens pararam de contar histórias e encararam o mago. Ao perceberem o sinal de ok do halfling, voltaram a sua conversa. Ekto lançou um olhar mortal ao halfling, que ele fingiu não perceber.

— É uma receita do capitão. Então de certa forma, ele está ajudando-o.

Um segundo olhar mortal de Ekto não pôde ser ignorado.

— Ele não é um sujeito tão ruim. – sem poder retrucar, Ekto rolou os olhos, ignorando-o. – Você pode não acreditar, mas o capitão já salvou minha vida. Por isto devo muito a ele.

De forma alguma Ekto queria conversar, mas as palavras do halfling chamavam sua atenção e ele não pôde deixar de prestar atenção ao que o seu pequeno sequestrador falava.

— Você recusou-se a colaborar, para principio de conversa. – Milo parou ao perceber que os músculos de Ekto contraiam-se com a dor ao seu toque, e então continuou – Por que não nos guia, se sabe onde são as ruínas?

Um suspiro abafado escapou dos pulmões de Ekto. Acabando de passar a pomada, Milo limpou as mãos na roupa. Ekto sentiu uma sensação refrescante nas costas e toda a dor foi substituída por uma sensação gelada, o que, somado ao frio, o fez tremer ainda mais. O halfling, no entanto, estava preparado para aquilo e cobriu-o com a própria capa do prisioneiro. O prisioneiro não pode deixar de dirigir-lhe um olhar agradecido.

— Você quer todo o tesouro para si? – perguntou o halfling.

— Não.

— Há tesouro nas ruínas?

Nenhuma reação. O halfling viu-se obrigado a reformular a pergunta.

— Você sabe se há tesouro nas ruínas?

— Não.

— Então o que você procura? – o prisioneiro lançou um olhar à própria mordaça, ao que Milo balançou a cabeça. – Você procura... deixe-me ver... um livro?

— Sim. – o prisioneiro fez um sinal com a cabeça, como se perguntasse o mesmo ao pequeno halfling.

— Bem, só o capitão deve saber, uma vez que foi ele quem recebeu a missão do mago.

Ektor encarou-o, com os olhos arregalados. O halfling olhou por cima do ombro para se certificar de que ninguém prestava atenção em sua conversa e então perguntou, num tom mais baixo:

— Acha que é isso o que o capitão procura?

Sim.

— Este livro... – Milo engoliu em seco. Sua mente já sabia a resposta, mas ele perguntou mesmo assim – é perigoso?

Como esperado, uma piscadela.

— Qualquer mago pode saber da localização deste livro? Quer dizer... – o halfling não precisou continuar, pois o prisioneiro já respondera com duas piscadelas – Isto restringe um poucos as coisas. Você poderia conhecer o mago que fez o pedido?

— Não.

— Você não quer nos guiar porque não confia em nós? Não confia neste mago?

— Sim.

O halfling afagou o rosto com as mãos. Ele queria acreditar que o mago estivesse mentindo, mas algo dizia-lhe que não poderia encontrar alguém mais sincero.

— Bem, amigo, não posso fazer nada por você.

Ekto lançou um olhar cheio de significado a sua mordaça, ao que Milo suspirou.

— Eu sinto muito. – e então o halfling voltou à fogueira, deixando a Ekto duas certezas: a de que havia um jeito de sair daquela infeliz situação e a de que os bandidos dificilmente desistiriam de perseguir o poderoso objeto que ele tanto procurava há meses.