Contos de Bertha Mason: O Passeio
1 Capítulo Único - O Passeio
Era uma manhã como outra qualquer. Bertha acabara de acordar e, mais uma vez, encontrava-se sozinha naquele pequeno sótão. Nem mesmo seu próprio marido, Edward, a acompanhava nas noites frias da Mansão Thornfield. Bertha não conseguia entender. Depois de alguns dias de casada, ela fora trancafiada ali. Parece que foi há quinze anos. Mas não podia ser. Por que Edward a deixaria trancada por tanto tempo? Essa pergunta invadira os pensamentos de Bertha por muitas vezes. Mas só hoje ela teve a ideia. Só hoje lhe passou pela cabeça a ideia de ter uma simples conversa com seu marido, de perguntar-lhe o porquê. Como? Havia um jeito.
Todas as manhãs, Grace – uma criada – dava um pequeno passeio com Bertha nos fundos da propriedade. Segundo ela, Bertha precisava dos passeios, precisava de ar fresco pelo menos uma vez ao dia. Porém, Grace tinha uma grande facilidade em se descuidar. Seria muito fácil, para Bertha, conseguir uma deixa para falar com seu marido. E assim, esperou ela, ansiosamente, pela vinda da criada.
Por volta de umas sete da manhã, quando nenhum dos outros residentes de Thornfield haviam acordado ainda, Grace fora até o sótão. Como de costume, deparou-se com uma Bertha sem expressão, sem tristeza ou alegria, sem raiva ou dor. Bertha não tinha o costume de falar ou de demonstrar seus sentimentos. Não na presença de Grace. Não na presença de qualquer um, a não ser ela mesma. – Quando sozinha, trancafiada, podia-se ouvi-la chorando, às vezes rindo, gritando. Era a única maneira com que ela poderia se expressar, pensava Grace. – A criada apenas seguiu com seu trabalho. Conduziu Bertha Antoinetta Mason (há 15 anos, Sra. Rochester) para fora do pequeno sótão escondido.
Seguindo pelo corredor do terceiro andar, Bertha e Grace puderam ouvir vozes, vozes femininas. Uma era mais dócil, mais jovem, portada por uma moça de, no máximo, uns vinte anos. A outra era mais pesada, porém cansada, a voz de uma senhora. Grace, agora, parecia aflita. Olhava e olhava, incansáveis vezes, primeiro para Bertha e depois para o fim do corredor – de onde vinham as vozes. Já a Sra. Rochester, assustada, que de todos os passeios com Grace, este fora o primeiro no qual vira ou ouvira alguém, agora criava um estranho ar de esperança em seus grandes olhos castanhos. Bertha pensara que, junto àquelas duas mulheres, mais alguém apareceria naquele corredor. Alguém como... Edward Fairfax Rochester.
– Ah, é linda. Trabalhar aqui será ótimo... – Disse a mais moça, provavelmente respondendo a alguma pergunta da senhora que a acompanhava.
As vozes estavam mais nítidas. As pisadas estavam mais altas. A qualquer momento, aquelas mulheres estariam frente a frente com Bertha e Grace, que por algum motivo, ficava cada vez mais aflita com a ideia.
– E a menininha... Minha pupila? – Perguntou a voz mais dócil, aproximando-se cada vez mais.
– Oh, Adèle? É protegida do Sr. Rochester. Ele mandou procurar uma governanta, para que cuidasse dela da melhor maneira. – Respondeu a outra voz, cansadamente.
A proximidade, agora, era tão grande que Grace não teve escolha, a não ser esconder-se com Bertha em um dos quartos, nunca usados, daquele corredor. Mas enquanto entravam, Bertha deixara-se levar por uma risada alta e fria – Apesar de terem sido apenas alguns dias de convivência com Sr. Rochester, Bertha sabia que seu marido era tão afeiçoado por crianças quanto era por ela. Realmente, a possibilidade de Edward ter uma pequena garotinha como protegida, não podia deixar de fazê-la rir.
O desespero tomou conta, de vez, do rosto de Grace. Rapidamente, a criada fechou a porta do aposento, torcendo para que ninguém, especialmente aquelas duas mulheres no corredor, tenham visto ou ouvido alguma coisa.
– Por favor, Sra. Rochester. Fique quieta. – Disse Grace, ainda muito aflita, em um tom de voz tão baixo que fora difícil, até mesmo para Bertha, escutar.
Mas a imagem de um Sr. Rochester alegre, brincando com uma linda menininha, não saía da cabeça de Bertha. Era impossível não rir. E mais uma vez, aquela risada alta e fria ecoou pelo corredor.
– Sra. Fairfax! – A senhora ouviu essa risada alta? Quem é? – Disse a voz jovial, parecendo assustada.
– Alguma das criadas, muito provavelmente – a senhora respondeu.– Talvez Grace Poole.
– A senhora ouviu? – a moça tornou a perguntar.
– Sim, claramente. Ela costura num desses quartos. Muitas vezes é bem barulhenta.
A risada repetiu-se em um tom mais baixo, e terminou num curioso murmúrio.
– Grace! – exclamou a Sra. Fairfax.
Grace estava em choque. Por algum motivo, a última coisa que queria era que Sra. Fairfax e sua acompanhante se deparassem com Bertha Mason. Grace precisava atender. Mesmo que deixar Bertha sozinha fosse igualmente preocupante. Ela precisava atender.
Tomando o suficiente cuidado para Sra. Rochester não ser vista, Grace abriu a porta, e após sair, rapidamente a fechou. Agora, a criada via-se frente a frente com a governanta da casa – Sra. Fairfax – e uma jovem moça, a qual nunca vira antes.
– Menos barulho, Grace. – Disse a velha governanta. – Lembre-se das instruções.
Tudo que Grace fez foi concordar, numa mesura de silêncio, e voltar ao aposento em que estava.
As vozes no corredor foram sumindo. Grace conseguira esconder a Sra. Rochester. Esta, andava de maneira curiosa pelo quarto. Mas a criada não pareceu se importar, tudo o que mais queria era levar Bertha de volta ao sótão. E assim, segurou-a pelo braço e levou-a, da maneira mais silenciosa possível – não tão silenciosa assim, pois Bertha reclamava muito por não querer voltar –, do corredor até, finalmente, e novamente, o sótão.
Bertha voltara ao seu mundo solitário. Nenhum de seus objetivos haviam sido alcançados. Nenhuma de suas perguntas haviam sido respondidas... E outras inúmeras haviam surgido. Por que ela fora escondida por Grace? Será mesmo que Sr. Rochester tem uma protegida? Isso ela não poderia saber. Não hoje. Talvez nunca. Pois da maneira com que Grace ficara aflita, talvez nunca mais voltasse para passear com ela. E Bertha Antoinetta Mason (há 15 anos, Sra. Rochester) ficaria, para sempre, presa. Sem poder ir a lugar algum.
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