Contos de Amorzinho
4 Cartazes na janela.

Júlio tinha 10 anos quando se mudou para a Rua das rosas vermelhas, antes ele morava em uma casa muito grande na Zona Sul mas seu pai acabou perdendo parte dos bens que tinha e eles tiveram que se mudar, porém o prédio onde agora seria seu lar era o mais bonito e sofisticado da área, sua mãe costumava dizer que “apesar da rua ser pobrinha o apartamento deles era puro luxo”, ela tinha essas manias bobas de menina rica fresquinha mas ele sempre fora como seu pai, nunca deu importância para status social, tanto que adorava o fato de se mudar para um lugar mais “aconchegante”.
Assim que chegou ao seu quarto o menino abriu a janela que dava de frente para uma oficina que ficava ao lado do prédio, um lugar sujo, onde vários mecânicos mexiam em carros velhos e novos; no meio de todas aquelas pessoas Júlio notou uma garotinha que usava um vestido florido, ela estava indo de canto a canto segurando uma bandeja, ele achou curioso uma menina no meio de tantos homens sujos, parecia estar servindo algo a eles, até que parou perto de um dos homens e esse lhe fez um carinho.
‘Seu pai?’ – Ele pensou.
A noite antes de dormir ele olhou pela janela mais uma vez, os homens já tinha ido embora, porém a menina estava lá, usava um pijama e conversava com um cachorrinho, ele riu quando o animal a derrubou no chão, riu tão alto que ela o notou ali.
‘Hey!’ – A menina gritou olhando pra ele de cara feia.
Júlio se assustou e fechou a cortina da janela.
Quase todos os dias Júlio olhava através da janela e ficava “espiando” a menina, uma vez quando estava voltando da escola com uns amigos a garota estava lavando um carro e se divertindo com a mangueira.
‘É deprimente a gente ter que morar na mesma rua que esse tipo de gente’. – Um dos meninos disse.
Júlio o olhou curioso e perguntou:
‘Você conhece ela?’ — Júlio perguntou.
‘Sim, é filha do dono dessa oficina, meu pai vem aqui as vezes fazer uns reparos em um dos carros dele, e essa menina está sempre por aqui, suja de graxa e conversando com os homens, é uma vergonha o meu pai disse’.
Os meninos riram mas Júlio não.
‘Eu vou passar na padaria’. – Ele disse.
‘Nos vemos amanhã então’. – Os meninos responderam.
Júlio concordou com a cabeça, esperou os amigos entrarem no prédio e atravessou a rua.
‘Deve ser divertido’. – Ele disse se aproximando da menina que por sua vez levou um susto e quase jogou água nele. – ‘Hey!’ – Ele disse enquanto se afastava em um pulo.
‘O que é divertido? Você me dar um susto?’ – A menina disse, voltou a lavar o carro sem olhar para ele, até que como se tivesse percebido algo virou e disse. – ‘Espera, é você o menino da janela não é?’
‘Menino da janela?’ – Ele pensou e corou na hora ao perceber que todo esse tempo ela tinha o visto na janela de seu quarto’.
‘Você fica olhando aqui para a oficina quase todas as noites, não percebeu que parei de brincar com o Tobi aqui fora? Fiquei com medo de você’ – Ela disse colocando as mãos na cintura. – ‘Mas observando de perto agora, você não me parece nada assustador’.
Júlio não sabia se ria com o jeito que ela falava ou se ficava chateado por ela não o considerar assustador, coisa de menino sabe.
‘Maria’. – Ela disse esticando uma das mãos. – ‘É o meu nome’.
Ele observou bem a mão dela antes de apertar, mas não por nojinho ou qualquer coisa parecida, na verdade Júlio nunca tinha tocado na mão de uma menina e ele ficava meio nervoso ao pensar na possibilidade, mesmo assim ele não hesitou em cumprimenta-la adequadamente.
A noite ela estava novamente brincando com Tobi no quintal da oficina, quando olhou pra cima lá estava Júlio, ele escreveu um mini cartaz:
‘Não posso falar alto, quero te perguntar uma coisa!’
Ela entrou e voltou com folhas de papel e caneta.
‘Pode perguntar’.
Mostrou o cartaz para ele.
‘Nós podemos ser amigos?’
Maria riu e escreveu:
‘Sim, desde que você não me dê mais sustos’.
Ele riu de volta e fez um sinal de positivo para ela.
A partir daquele dia conversavam a cada final de tarde em uma pracinha principal da Rua das Rosas Vermelhas.
‘Somos apenas eu e meu pai’. – Maria disse. – ‘Minha mãe morreu quando eu era bem pequena e por isso eu gosto de ajudá-lo com as coisas de casa e com a oficina’.
‘Então vocês moram na oficina?’ – Júlio perguntou enquanto balançava calmamente.
‘Não dentro da oficina’ – Maria riu. – ‘Nossa casa fica atrás da oficina, mas a porta da oficina é a entrada principal, entendeu?’.
‘Eu acho que sim’. – Ele disse olhando pra ela, a menina olhava em direção ao prédio onde Júlio morava.
‘O que você vê de mais legal lá da sua janela?’ – Ela perguntou.
Ele franziu a testa e pensou um pouco.
‘Eu não sei’.
‘Como pode não saber?’ – Ela riu baixo. – ‘Você está lá toda a noite’.
Ele pensou mais uma vez, mas não conseguia encontrar a resposta para a pergunta de Maria.
‘Vou pensar e um dia eu te falo’. – Júlio disse.
‘Certo, eu vou cobrar’.
Os anos foram se passando e os dois nunca deixaram de conversar mesmo quando se tornaram jovens com vidas completamente diferentes sempre arranjavam um tempinho para se encontrarem.
Era a semana do aniversário de 17 anos de Júlio. Maria estava varrendo o quintal da oficina, quando ouviu um assobio vindo do alto, sabia muito bem de quem se tratava.
Júlio segurava um cartaz pequeno que perguntava:
‘Você vai vir na minha festa?’
A menina fez uma cara de pensativa e logo depois um gesto negativo com os braços.
‘Por que?’
Outro cartaz, ela sem muita paciência pegou o celular e escreveu uma mensagem:
‘Seus amigos não gostam de mim, vou me sentir um peixe fora d’água’.
Ele riu ao ler, escreveu outro cartaz que dizia:
‘Apenas o aniversariante precisa gostar, afinal você é a melhor amiga dele e não dos amigos dele’.
Ela riu e fez um sinal de positivo com o polegar.
No dia da festa (que aconteceu no loby doHOTEL) Maria foi uma das ultimas a chegar, Júlio já estava impaciente, quase indo até a casa da menina busca-la.
‘Quem te ver dessa forma vai pensar que gosta dessa menina’. – Um dos amigos dele disse.
‘Não fala uma coisa dessas’. – Outro amigo se pronunciou. – ‘Nosso Júlio tem bom gosto, nunca gostaria da menina da oficina’.
Maria chegou completamente tímida, segurando uma sacola com o presente e o cartão, a maioria dosCONVIDADOS eram do colégio de Júlio e olharam torto para ela o que a fez se sentir mais perdida ainda.
‘Oi’. – Júlio disse se aproximando.
‘Feliz aniversário’. – Maria respondeu ainda tímida, entregou o presente um pouco nervosa.
Júlio riu e perguntou:
‘Que cara de pânico é essa? Ninguém aqui vai te morder’.
‘Não é o que parece’. – Maria disse, o menino nem pôde responder, pois logo um grupo de meninas se aproximaram e puxaram Maria com elas.
Júlio riu e foi guardar o presente.
‘Então você é a tal Maria? A amiga da oficina?’ — Uma das meninas perguntou.
‘Júlio sempre fala de você na sala de aula, estávamos doidas para te conhecer’. – Outra menina disse enquanto mexia no cabelo de Maria.
‘Me fala como você fisgou ele? Deve estar se sentindo a nova Cinderela ou algo assim não é?’ – Outra menina disse enquanto olhava com cara de nojinho para a roupa que Maria vestia.
‘Olha essas unhas’ – Uma das meninas disse segurando as mãos de Maria. – ‘Você trabalha mesmo em uma oficina não é? Elas estão horríveis, credo!!! Você deveria nos deixar te ajudar com elas e ...’
Maria não aguentou e saiu correndo em direção a sua casa, assim que entrou se trancou no quarto e nem ouviu seu pai lhe chamar.
Quando Júlio voltou para a festa e procurou por ela, uma das meninas disse:
‘Ela saiu correndo de repente, acho que não gostou quando falamos das unhas dela, mas não foi por mal’.
Ele suspirou pesado e foi até seu quarto, olhou pela janela pra ver se conseguia ver Maria, mas nada dela, então resolveu mandar uma mensagem.
‘Aparece na janela do seu quarto’.
Maria hesitou um pouco mas apareceu na janela, Júlio estava lá no alto com um cartaz onde estava escrito:
‘Onde está a Maria destemida que eu conheço? Não acredito que você saiu correndo por causa de um bando de patricinhas chatas e frescas’.
Maria apenas mostrou a língua para ele, Júlio riu e escreveu outro cartaz:
‘Elas estão com inveja apenas, porque sabem que você é a menina mais importante do mundo pra mim’.
Maria mal pode acreditar no que tinha lido, Júlio segurava o cartaz confiante, sorriu timidamente o que a fez corar, ela fechou a janela e ele murchou, voltou para a festa chateado e voltou a conversar com os amigos. Estava distraído quando Maria apareceu de volta, ela segura uma caixinha, ele observou enquanto ela foi até as meninas, disse alguma coisa que ele não ouviu e então elas estão foram para outro local um pouco mais afastado.
‘O que elas vão fazer?’ – Um dos amigos de Júlio questionou.
Ele esperou um pouco e riu baixo sozinho ao imaginar o que elas poderiam estar fazendo, demorou uns 15 minutos e quando elas voltaram estavam todas conversando naturalmente, Maria olhou pra ele e acenou, ele levantou e foi até ela.
‘O que é isso? Bipolaridade?’ – Ele perguntou, e levou um tapa no braço.
‘Coisa de menina, respeite’. – Ela disse.
‘Você também tem isso?’
‘Júlio!!!’ – Ela exclamou.
‘Ok ok, só quero saber o que rolou lá?’
‘Lá onde?’
‘Ali atrás, você e as meninas ...’
‘Eu disse que estava com vergonha das minhas unhas, o que não é mentira’.
‘E ...’
‘E elas me ajudaram com isso’.
Maria mostrou as unhas para ele e estavam lindas.
‘Que bom, mas eu ainda prefiro como era antes’.
‘Você quer apanhar de novo?’ – Ela perguntou.
Ele apenas riu e a pegou no colo, ameaçou jogar na piscina, mas logicamente não fez isso.
A festa foi um sucesso, Maria chegou em casa bem cansada e se jogou na cama e sentiu o celular vibrar e quando viu era uma mensagem de Júlio pedindo que ela fosse até o quintal, a menina se levantou e foi, chegando lá ele estava sentado na janela.
‘Você vai cair!’ – Ela disse um pouco alto.
Ele fez sinal de silêncio e sorriu, pegou um cartaz e mostrou pra ela:
‘Tenho que te responder uma coisa’.
Ela fez uma expressão de confusa e ele continuou.
‘Uma vez você me perguntou qual era a coisa mais legal que eu via da minha janela’.
Ela riu e perguntou com os ombros o que era.
‘Uma menina que fica tão linda usando um vestido florido quanto um macacão de mecânico’.
Ela riu sem graça, pegou o celular e mandou uma mensagem.
‘Essa é a coisa mais legal que você vê da sua janela?’
Olhou pra ele, ele negou com a cabeça, escreveu um cartaz e mostrou:
‘Na verdade essa é a coisa mais linda que eu tenho tido o prazer de ver através da minha janela desde os 8 anos’.
Maria ficou sem palavras nesse momento, sentiu vontade de chorar, podia sentir uma pequena lágrima querendo nascer no cantinho dos seus olhos e mandou outra mensagem:
‘Ela não deve ser tão linda assim’.
Júlio riu para a mensagem e escreveu:
‘Claro que ela é, se não fosse eu não estaria pedindo ela em namoro’.
Maria arregalou os olhos e mandou mensagem:
‘O que quer dizer com isso?’
‘Que eu quero que você seja a minha namorada, pode ser?’
A lágrima que estava nascendo no cantinho dos olhos de Maria rolou sobre o rosto, ela olhou pra ele, aquele sorriso tão lindo que ele tinha estava sendo iluminado pela luz da lua.
Maria entrou em casa e saiu segurando um cartaz que tinha acabado de escrever:
‘Eu seria louca se não aceitasse’.
Não demorou muito para que os dois fossem correndo se encontrar na praça, para um beijo intenso e apaixonado, digno de um final com ‘felizes para sempre’.
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