Contos de Ainor
1 Capítulo 1- Da ordem ao caos
Além de tempos imemoriais, quando as etéreas trombetas de silêncio ainda tocavam, o espírito da ordem conhecido como Ominus, residia no deserto da eternidade, um miasma de realidade entre um plano material vácuo e a inexistência, e por incontáveis eons e eras anteriores ao tempo foi assim, apenas o pálido espirito de pele estelar e mantos do mais puro branco em meio a um deserto fantasmagórico de douradas areias e dunas sob uma abóboda madrepérola de cores inimagináveis que se espalhariam pelos cantos mais remotos da criação.
Em certo momento longínquo dos dias atuais, as trombetas cessaram, e o mais inaudível dos sons foi percebido, uma sombra se projetará sob Ominus, e ele sendo dotado de uma perfeição e ordem inimagináveis sabia que sua sombra seria seu oposto, sempre andariam ao seu contrário, então deu lhe vida, Enius assim o chamou, parecia sair de um foço negro mais escuro que a própria noite, com pele de chamas caóticas, e uma capa negra como obsidiana.
E lá ficaram pelos primeiros momentos da criação estáticos em pensamentos, como o homem que contempla a si mesmo em um espelho, interrompido por um comprimento cordial entre as entidades, mas nada foi dito pois eles sabiam suas funções, Ominus criaria, moldaria tudo a partir da dourada areia, e Enius apenas tocaria, pois com um único toque, tudo teria a marca do caos, da mudança e alternação. A primeira coisa a ser criada foi o tempo, com quatro punhados de areia e o molde a partir das mãos de Ominus criaram uma ampulheta de prata, e com mais dois punhados a encheram de areia, e com isso se contaria cada segundo da eternidade.
Tomou mais uma vez a areia em suas mãos e a levou para o vazio, e moldou as estrelas do pavimento celestial, a cada uma que terminava, Enius arrastava sua mão sob a superfície da recém-criada estrela e ela se incendiava, uma a uma foram dando luz e fulgor ao vazio negro.
Mas tudo que brilhava, não foi o suficiente para agradar os espíritos, observando a imensidão azul negra decidiram que precisavam de mais, então pegaram uma duna inteira do deserto, e com sua mágica areia amorfa começaram a moldar um mundo, cada grama nos campos verdes, folha em florestas de cores exuberantes, montanhas e suas faces escarpadas e íngremes, baias e mares azuis, e tudo isso sob a vigia de uma dourada estrela de dia e as distantes azuladas estrelas a noite. Tudo era belo no mundo que criaram, das gotas que corriam nos rios até os ventos que uivavam nas cadeias de montanhas, e assim foram tomados por imensa solidão, Ominus sentiu falta do caos que queimava nas estrelas, mas não era isso que buscava, pois se quisesse uma estrela a faria, desejava algo que criasse também, e Enius mesmo sendo seu oposto desejava o mesmo, eles desejavam a vida antes mesmo de cria-la.
Assim retornaram ao limiar da realidade, o deserto e mais uma vez ouviram a fina melodia do silencio, e pela primeira vez desgostaram dela, o seu projeto não poderia ser assim calmo e estático pois eles viram as mudanças que aconteciam sorrateiramente no mundo e sua criação deveria ser capaz de acompanhar os passos desta dança existencial, e para tal seria preciso que Enius esculpisse a criação e Ominus apenas lhe daria o toque da vida. Enius estendeu seus dedos até a areia e por onde passaram criaram torres de chamas infernais, até que Ominus as tocou e de dentro saiu uma garra, seguida por uma asa de morcego então uma cabeça de lagarto coroada por espinhos e seu pescoço e tronco eram recobertos por escamas mais resistentes que o aço mais temperado, suas narinas exalavam fumaça, e seus peitos recobriam chamas, as criaturas eram coloridas, com verde, vermelho, azul, dourado e preto.
Estes são os destemidos dragões. Todos voaram para fora do deserto, talvez por instinto ou por razão, mas nenhum desejava residir naquele local.
Eles foram até a terra, se espalharam rapidamente, pelas montanhas e florestas eram vaidosos gostavam dos locais que combinassem com suas cores, dragões verdes foram as florestas, negros as montanhas, azuis a desolação gelada ao norte.
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