Notas iniciais
Este conto é sobre perda, mas também sobre luta. Eu, Carol, vos escrevo de outro universo e os convido a mergulhar em apenas uma das infinitas histórias que as estrelas podem contar.

Os portais de escape estavam ligados, e por eles passavam os funcionários restantes do lugar que a duas horas atrás era uma das bases rebeldes mais fortes da região.

O motivo de nossa correria e fuga se encontrava no fato de um ataque surpresa no meio da tarde, exatamente no dia em que nosso maior exército estava em operações em outra região. Tarde de mais para nós, no fim das contas. Pegos com números baixos, sem chances de pedir reforços. Sozinhos contra duas frotas inteiras de naves e soldados inimigos. Fizemos tudo o que pudemos, mas sabíamos que não tínhamos a menor chance.

Consegui chegar a sala de comando central a tempo, antes que o portal que provera a fuga dos homens que lutavam fora da base se fechasse. Como líder daqueles homens, eu ficara até que o último soldados saísse, e pude ver as naves inimigas sobre nós atirando diretamente contra o Centro de Comando das Tropas. Os escudos do lugar se erguiam, já falhos, protegendo a instalação onde eram dados os comandos ao nosso exército, e pelas suas janelas eu pude ver pessoas correndo para um dos portais de evacuação. Eu realmente esperava que todos ali, inclusive minha amiga, saíssem ilesos.

O portal de evacuação me levou direto a Sala Central de comando, que estava lotada. Nela, havia dois imensos portais que estavam transportando nossos homens para as montanhas a alguns quilômetros dali. Me dirigi a frente da sala, onde estavam os administradores do quartel com olhos vidrados nas câmeras de segurança do telão a frente.

Vougan, um dos administradores, estava de pé em frente a uma das câmeras e gritava para que evacuassem imediatamente o Setor B, que compreendia o Centro de Comando das Tropas, alojamentos destas e centro de treinamento. Setor esse onde estava sua esposa e minha amiga, Emi. Ela e seu pessoal administravam todas as tropas da base e seu setor respondia diretamente a Central de Comandos.

–Emi! Saia daí agora! As últimas tropas se foram, os escudos vão ceder, evacuem todos AGORA!

–“Os últimos processos foram feitos, evacuaremos completamente!” — Respondeu do outro lado a voz de Emi. Pela câmera de seu setor pude ver as tropas inimigas forçando a porta da sala onde ela estava. Ao mesmo tempo, os escudos que protegiam o lugar falharam e o vidro foi perfurado por uma chuva de tiros que atingiram em cheio os mais próximos.

Emi conseguiu escapar, mas uma explosão destruiu a porta de entrada da sala e as duas câmeras mais próximas desta se foram com o impacto. Por outras câmeras pudermos ver as mesas de comando mais próximas a porta serem arremessadas umas contra as outras e poeira subir, atrapalhando nossa visão.

Vougan ficou estático. Mal parecia respirar, e eu percebi que fazia a mesma coisa. Ela tinha de estar ali, viva em algum lugar. A explosão não devia ter sido forte o suficiente para acertá-la, de modo que meus olhos vasculhavam as outras quatro câmeras restantes dentro da sala freneticamente.

Algumas pessoas que ficaram atordoadas com o barulho, mas que estavam no lado oposto a porta, começaram a correr em direção ao portal no centro da sala, ao mesmo tempo que soldados começaram a entrar na visão das câmeras, atirando nestes.

Na nossa sala, alguns administradores começaram a chegar, feridos e cambaleantes, alguns quase mortos, mas Emi não estava entre eles.

Foi então que a vimos. A sala foi completamente invadida e pessoas no chão eram fuziladas. Ela era levada, se debatendo, por dois dos guardas inimigos na direção de seu comandante.

– "Comandante, Emi. O igualmente Comandante de nossas tropas, Vespar, tráz um recado direto para você e Vougan, que, creio eu, esta nos vendo agora." — Ouvimos o homem de vestimentas importantes dizer e, com um sinal de mão acrescentou: — "Fuzilem- na e joguem no portal."

– Não... — Vougan, ao meu lado, sussurrou. E a vimos ser empurrada na direção do portal com dez homens atirando em sua direção. Corri para o circulo luminoso usado para a saída da sala onde ela estava e vi seu corpo passando por ele, caindo, junto a muito sangue.

Havia poucas pessoas naquela sala agora, apenas um controlador de portal, que fechou imediatamente o pelo qual Emi passou, eu, Vougan, outros dois administradores e os cinco últimos que soldados.

Ajoelhei- me ao lado dela, que respirava com muita dificuldade. Todo seu corpo estava perfurado. Vougan chegou logo em seguida e tomou a mão da esposa, que desviou seus olhos dos meus para os dele. Deixou de respirar.

Acho que nem preciso dizer o quão aterrador foi aquela cena. Vougan apertando a mão de Emi e curvando-se sobre seu peito, chorando, coisa que eu mesma fazia silenciosamente. Depois, tirou os cabelos do rosto dela e a beijou.

Ele conseguira, Vespar, nosso inimigo. Eu tinha certeza de que de sua nave logo acima de nós ele ria, sabia que tinha conseguido. Destruíra nossa base, nosso coração e em breve teria todo o conhecimento de nossos computadores.

– Enya, vá embora, eu ficarei aqui. — Ouvi, por fim, Vougan dizer. Ele arrumara a posição do corpo de Emi e se levantava. Seu rosto, agora sujo de sangue, parecia quase inexpressivo.

– Esta louco? Vamos todos fugir! E você vai junto! Você é um administrador! E mesmo que fosse um guerreiro nada poderia fazer contra um exército desses, Vougan! O que vou dizer ao seu irmão? — O irmão dele era meu marido, que havia partido para uma missão a poucos dias atrás.

Vougan não olhou para mim. Em vez disso foi a sua mesa e se sentou. Por fim respondeu.

– Aqui é o meu lugar. Toda a minha vida esta aqui: Minha pesquisa, minha casa, e... Emi. Entenda. — Deslizou os dedos pela mesa, acessando seu computador. — Eu não vou a lugar algum. Diga a ele que eu começarei de novo em outra vida.

Eu sabia que não adiantaria argumentar, não agora, não dessa vez. Eu via nele aquilo que não precisava ser dito: Se Emi ainda estivesse aqui, o trabalho de sua vida seria destruído, mas ainda haveria esperança. No entanto, ele não tinha mais o que perder.

A última pessoa passou pelo portal e ficamos apenas nós junto ao som das bombas nos pisos superiores.

– Eu e ela destruiremos esse lugar. Não vou deixar que me tirem mais nada, agora vá.

Ele e ela, claro. Usaria aquilo.

– Adeus.- Eu disse, por fim.

Quando finalmente sai pelo portal, vi nossas tropas olhando para o horizonte. Já era quase noite e muito distante víamos a base junto ao enxame de naves em volta.

Uma luz branca surgiu, engolindo a terra, engolindo o céu. O cone de luz se formou e o ar logo trouxe a nossos ouvidos o som de uma explosão nuclear contida exatamente nos domínios da base, escapando em uma reta perfeita para cima. Aquele era o presente desenvolvido por Emi que Vespar jamais imaginara que tivéssemos, conhecido por poucas pessoas além de mim, ela, Vougan, meu marido e os desenvolvedores.

Era a explosão mais bonita que eu já vira, uma verdadeira obra prima, e em algum lugar no meio dela eu sabia que Vougan e Emi dançavam livres.

– Até a próxima vida, meus amigos.

Notas finais
Se pudesse recomendar uma música, seria esta: https://www.youtube.com/watch?v=5MJd0RTOW1Y
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.