Contos da Distorção

1 Goranka Petrovich


Notas iniciais
Olá, pessoal! Este é meu primeiro conto sério aqui no site. Espero que gostem e, se possível, deem seu feedback.

Esta história nasceu como uma apresentação de personagem, mas acabou se desenvolvendo um pouco mais do que eu imaginava, por isso passei a considerar como conto.

Beijos e boa leitura.

— Boa tarde… Aqui é a casa da senhora Petrovich, a costureira?

A voz dela estava trêmula e falar parecia ser o resultado de um esforço titânico. Apenas um parvo não notaria a insegurança que fazia a mocinha oscilar como um ramo de junco contra o vento. Todas elas chegavam até mim desse jeito, afinal não estavam em condição de ostentar diante do resto da sociedade londrina o sorriso jovial e descompromissado das moças puras que estavam prestes a agraciar as famílias de renomada procedência com um casamento arranjado.

— Sim, esta é a minha casa. Imagino que a senhorita veio planejar o seu enxoval, não? — O suspiro de alívio quase imperceptível também era típico entre todas as que vinham me procurar. Ela agitou a cabeça em uma resposta afirmativa, porém cuidadosa: era como se temesse que alguém estivesse lhe seguindo por todo o trajeto desde sua casa. Abri passagem em minha porta e sorri exibindo meus já poucos dentes. Naquele tipo de ocasião, qualquer gesto de boas-vindas e compreensão era bem vindo. — Entre, por favor.

Ainda insegura, ela adentrou com passos curtos e rápidos. Sabia que se hesitasse pelo menos uma vez, poderia se arrepender e condenar o resto de sua vida e o peso do sobrenome que carregava. Parada diante da lareira, tentava se distrair analisando cada milímetro dos móveis desgastados, mas sempre cobertos por tecidos de mais fina costura, minha especialidade. Minha segunda especialidade.

— Pretende casar-se em breve, não? Você veio ao lugar certo. — Fechei a porta de madeira e passei a analisá-la serenamente. Minha experiência permitiu-me concluir que ali já iam uns bons quatro meses de inseguranças, pesadelos e vida. Vida angelical. — Sente-se, vou preparar meu chá especial para noivas e enquanto isso você pode apreciar as cores de linhas e tecidos que estão sobre a mesinha, isso vai ajudá-la a relaxar e se distrair.

Era sempre assim. Iludida pelas juras de amor do rapaz de família humilde, a donzela rechaça a hipótese de casar-se com o partido escolhido pelo pai e entrega-se ao amante em doces noites de paixão. Fazem planos para fugirem e começar uma nova vida, mas no fundo sabem que é impossível e alguma obra do destino os separa. Tempos depois surgem os sinais de que a paz de espírito de um deles está em risco: enjoos, regras atrasadas, súbitos desejos de comer os pratos mais exóticos. As medidas discretamente vão aumentando junto com os temores da jovem. Ela está grávida e não pode contar isso a ninguém, apenas à fiel melhor amiga de infância.

No entanto, para o bem dela, existe uma senhora sérvia que vive em Londres e tece os melhores enxovais da cidade em pouco tempo, afinal, só resta voltar atrás e acatar as escolhas feitas pela família, casando-se com urgência sem que ninguém se dê conta do pequeno obstáculo. Em pouquíssimos dias a mulher é capaz de confeccionar vestidos, lençóis, camisolas, roupas de baixo e outros tecidos tão importantes para o novo ciclo que vai começar. Também conta com a sua primeira especialidade, a de ajudar a noiva a solucionar o pequeno empecilho que lhe atormenta.

— Beba, meu bem. Beba tudo pois este chá lhe ajudará a se acalmar e também facilitará o meu trabalho. — Sento-me ao seu lado e ofereço a xícara apoiada em um pires. Aquelas ervas fariam com que seu corpo relaxasse e não sentisse parte da dor que viria no processo seguinte. Também faria com que a bolsa rompesse antes do tempo, facilitando os meus procedimentos.

Em alguns minutos os olhos dela pareceram relaxar sob as pálpebras que começaram a pesar em seu rosto. Com um pouco de esforço, a conduzi até o quarto preparado especialmente para aquele trabalho e a deitei sobre a grande mesa de madeira em seu centro. A garota enfim adormeceu.

—♦-

Acordou completamente atordoada. Talvez não se lembrasse de onde estava ou o quê estava fazendo ali, mas logo o torpor passaria e ela tomaria ciência de suas últimas decisões. Parada ao seu lado, eu pude afagar seus cabelos e lhe confortar.

— Deu tudo certo, meu anjo. Não precisa se preocupar com o seu enxoval. Você pode voltar para casa e contar aos seus pais que estava escolhendo quais peças comprar. Conte com o meu bom gosto e terá uma surpresa em alguns dias. Apenas deixe seu endereço para que alguém entregue tudo de acordo com o combinado.

Penteei suas madeixas e ajustei seu vestido para que não apresentasse nenhum amassado suspeito. Ainda com um pouco de dificuldade ela caminhou até a porta, onde lhe devolvi sua sombrinha e sua bolsa. Dali tirou algumas moedas e me pagou. Novamente sorri, tentando lhe passar um pouco de segurança.

Assim que ela se foi, guardei as moedas em um dos bolsos e voltei até a sala onde havia realizado minha operação. Caminhei até uma das estantes cheias de vidros e contemplei o mais novo exemplar angelical que eu havia adquirido. Por conta do chá, a jovem não conseguiu ver com clareza do que se tratava, e jamais saberia que em breve uma parte de si estaria ali. Em meio a tantos outros fetos, ele (ou ela?) parecia ser mais um, mas apenas eu conseguia reconhecer a sua importância para meus objetivos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.