Contos da Casa da Bruxa
4 Capítulo IV - a Casa da Bruxa
Dia 27 do mês do Leão (07) do ano 2015 6° Era.
Interior do Principado da Carinthia.
Foi ao mesmo tempo uma benção e uma maldição. Lysander cambaleou pelo pântano com os pés afundando na água lamacenta e a pele rasgando nos espinhos das vinhas e cipós até cair de joelhos sobre o círculo de terra seca e firme onde a casa se erguia. Ao redor dela as árvores eram anormalmente grandes a camuflando por quase todas as direções, e da chaminé saia uma fumaça fina de coloração cinze bem claro, beirando o branco. Havia um aroma de ervas, cogumelos e chocolate? Achou estranho, mas o cheiro era facilmente reconhecido e o estômago do garoto roncou com a lembrança de que não comia nada fazia talvez oito horas.
Sabia ser o lugar que procurava, tinha certeza de ser o covil de Mãe Berchta, mas não podia simplesmente entrar arrombando a porta e apontando a espada para o coração igual fez com Humbert, certamente seria morto. Não. Cronas, mesmo as mais jovens, eram criaturas perigosas e maquiavélicas, aquela ainda mais: sedutora o suficiente para conquistar a confiança de um vilarejo inteiro, ardilosa e paciente o bastante para bolar um plano de treze anos, poderosa a ponto de alterar todos os sentidos dos irmãos e talvez até mesmo moldar a floresta ao redor como lhe aprouvesse. Lysander jamais a superaria em combate direto, nem em qualquer outro tipo de disputa como rapidamente teve de aceitar.
Não.
Faria algo diferente.
Algo arriscado, mas ao menos com chances de dar certo.
Ele iria barganhar.
Dando ordens firmes aos próprios músculos as pernas começaram a se mover trêmulas e foi chegando mais e mais perto da casa, podendo reparar nos peculiares adornos ao redor. Uma cabeça de bode pendia de um dos galhos, com os olhos abertos e vidrados nos arredores; grama não crescia em um circulo aparentemente usado para colocar o caldeirão; ao lado da escada havia um totem coberto por cabelo de várias cores e envolvido por um colar de dentes; e sobre a porta principal havia três crânios de bebês humanos um do lado do outro, as meninas que devorou para dar luz às impostoras, às cronas filhotes que deram inicio a todo esse tormento.
O rapaz subiu os quatro degraus de pedra escorregadia até a soleira da porta e quando levantou a mão para bater ela abriu sozinha, com um rangido baixo de gelar o sangue. Do outro lado enxergou a ampla sala de estar, com uma mesa de cinco lugares bem ajeitada com pratos de porcelana e talheres de prata, quadros pendurados nas paredes e duas poltronas de couro vermelho viradas em direção da lareira acesa, havendo uma figura sentada na da esquerda, com somente o braço parecendo por de trás do encosto elevado.
Lysander engoliu em seco, dando passos vacilantes para dentro e então a porta fechou atrás de si. Sentiu um calafrio subindo a espinha, mas não se virou, não tentou girar a maçaneta.
— Por que demorou tanto? Fiquei com medo que tivesse se perdido. — a voz vinda de trás do encosto era feminina e soava jovem na casa dos trinta anos. Seu tom não carregava maldade ou deboche aparentes, ao invés disso parecia um tanto preocupada, terna como uma mãe repreendendo o filho por alguma travessura. — Por sorte a floresta é sempre boa comigo. Trouxe você são e salvo, não é mesmo?
Lysander levou a mão até as bochechas, alisando o sangue seco e então encarou as próprias mãos, com perfurações fundas nas costas e nas palmas. Fechou os olhos, pensando ter visto vermes saírem das feridas e se esforçou para afastar a imaginação mórbida.
— Isso não é uma ilusão, é?
— Parece uma ilusão?
Não.
Tudo era real demais: o medo, o frio, a solidão, a dor.
— Não fique ai parado. — disse a voz feminina e mão delicada de unhas cumpridas se estendeu para a poltrona vazia na direita. — Venha pequenino, se esquente um pouco. Deve estar gelado.
De fato, mesmo sendo princípio de verão, mesmo tendo passado por um pântano abafado, toda Entrebosques e a floresta ao redor trazia um álgido sobrenatural, um clima gélido que foi se apaziguando conforme ficava mais perto das chamas dançantes, embora novos tremores de apreensão viessem com a iminência de ver a face da bruxa, uma mulher de pele pálida, cabelos preados relativamente curtos atrás, com uma longa granja lateral caindo sobre o olho cor de sangue. À sua lateral, oculta da vista a partir da porta, havia uma mesinha rustica de madeira com uma vasilha cheia de doces — especialmente bombons. — e sobre o colo de Berchta, trajando longo vestido negro colado ao corpo voluptuoso, reluzia uma enorme e lustrosa maçã vermelha.
—Se sente melhor? — ela perguntou conforme o rapaz sentava, sentindo o abraço macio das almofadas e o calor do fogo na pele rosada. — Chegou mais longe do que qualquer um antes. É um menino muito corajoso. — acrescentou, sorrindo. — Imagino ter um bom motivo para me procurar. Nem todos estão dispostos a passar pelas provações do bosque apenas para me dizer olá.
— Os aldeões de Entrebosques...
— Meus queridos amigos! — ela exclamou, interrompendo.
— Ficaram preocupadas com você, me contrataram para averiguar sua segurança.
— Que gentileza da parte deles. Mas por que pensariam isso?
— As garotas transformadas...
— Minhas doces filhinhas. Confio tanto no bom posso Entrebosques que pensei ser um excelente lugar para crescerem, mas agora que são mocinhas precisam se juntar à mãe. — disse como calma, uma calma tão grande que chega ao ponto do escárnio, de uma completa apatia por seres inferiores os quais jamais compreenderia. — Entendo por que veio aqui. Mas gostaria de saber o que pretende fazer aqui?
Lysander emudeceu por um tempo que parecera século. Ela sabia e isso era algum tipo de teste? Ou Berchta tinha legitimo desconhecimento e curiosidade dos planos do aventureiro.
— Só quero minha irmã e ir para casa. Vir aqui foi um grande erro...
— Oh, sim, o casal de órfãos que entra na floresta buscando algo que pensam desejar, mas acabam se arrependendo. Uma história tão triste e tão familiar. — ela levou os dedos até o pote, pegando um bombom e deslizando pelos lábios finos pintados de batom cor de sangue. — Não se preocupe pequenino. Alyssa está perfeitamente segura, nada de ruim acontecerá aqui nesse bosque. Para nenhum dos dois. Pedi pessoalmente para minhas filhas a fazerem companhia. — Berchta segurou a vasilha e estendeu em direção de Lysander que relutou por instantes, mas então pegou um bombom, se reclinando de volta para o abraço da poltrona e fitando a camada de chocolate. — Agora, conte para mim, por que veio até aqui? — Lysander abriu a boca, mas antes da primeira sílaba sair a mulher o interrompeu. — Não até minha casa, até Entrebosques.
— Somos aventureiros, é o nosso trabalho?
— Visitar vilarejos humildes?
— Combater monstros, solucionar mistérios, proteger as pessoas.
— Pode ter certeza que todos estão protegidos comigo. Nem monstros, nem demônios nem espíritos da noite atormentam a vida dos comuns. Suas barrigas estão cheias, os invernos são amenos. Todas essas bênçãos a custa de algo tão ínfimo, tão insignificante. — ela disse, deixando o dedo indicador bem próximo do dedão num formato de pinça. — Devem entender o que estou dizendo, somos bem parecidos. Acaba de me contar que protege os indefesos e mesmo sendo uma tarefa nobre ela não é feita de graça. Correto?
— Precisamos de dinheiro para sobreviver.
— Ora, assim como eu. Embora não de dinheiro. — ela sorriu. — Mas além dos aldeões e indigentes, crianças remelentas e idosos caquéticos você deseja proteger algo mais especial, algo mais valioso... sua doce e bela irmã. Mas é atormentado pela dúvida, pela eterna insegurança. “Será que sou forte o suficiente?”.
— O que quer dizer com isso?
— Tenho algo para mostrar. — Berchta ergueu-se, mostrando ser uma mulher imponente e vistosa como Lysander poucas vezes já tinha visto. Ela moveu-se com graciosidade felina alguns passos, como uma sombra deslizando pela sala até o lado da poltrona do rapaz, repousando uma mão sobre seu ombro e estendendo os dedos para a lareira. — Olhe o fogo.
As chamas adquiriam uma coloração verde e após vê-las danças em todas as direções os olhos atentos de Lysander repararam nelas tomando a forma de imagens, imagens lentamente se movendo e mostrando a clara figura dele caído de joelhos, segurando o corpo sem vida de Alyssa nos braços. As labaredas aumentaram e se reorganizaram, mostrando agora ele em frente a um túmulo, repousando uma flor em frente à lápide antes se sucumbir em lágrimas, tapando o rosto com as mãos e arranhando as bochechas até saírem filetes sangrentos de pele. A visão era vívida, sentia na pele e deu um sobressalto.
— Não! Alyssa! — ele berrou com todo o ar dos pulmões, quase se jogando em direção ao fogo cujas cores subitamente voltaram ao normal. Incrédulo, tremulo, virou o rosto para Berchta e os olhos marejados tornaram o rosto da mulher embaçado. — Isso não está certo! Eu nunca deixaria isso acontecer.
— Negue o quanto quiser, mas o que você vê é o que será se as coisas continuarem como estão.
— Isso... isso não pode ser.
Berchta crispou os lábios, parecendo chateada.
— Oh, a juventude, já fui assim também. Muito parecida com você não pude aceitar meu destino, tentei dobrá-lo à minha vontade e por isso fui transformada nisso, para apodrecer! — disse elevando o tom da voz e num lampejo, menos do tempo de um piscar de olhos, a bela face virou um rosto de pele verde apodrecida, dentes amarelos afiados e nariz torto. — Mas então ao cruzou meu caminho, uma oportunidade. E eu me agarrei à ela com todas as minhas forças. — acresceu já de volta à forma bela.
— Berchta, eu imploro. Não pode fazer nada?
Ela levou a mão ao peito, suspirando compadecida.
— Eu não posso ajudar sua pequena Alyssa. — ela alisou o queixo antes dos olhos brilharem, frente uma genial conclusão. — Mas talvez você possa! Vou lhe propor um trato. Acerte os termos comigo e eu prometo que seus destinos infelizes mudarão para sempre. É claro que, como todo negócio, isso vem com um pequeno preço e o que é será meu segredinho. Chame isso de um... cheque em branco!
— E você promete que com isso vou me tornar mais forte?
—Meu querido, você será imbatível. Tem minha palavra.
Lysander alternou o olhar entre ela, a lareira e o bombom em seus dedos que, sem perceber, tinha se transformado na lustrosa e suculenta maçã.
— Eu... eu não sei...
— Vamos, pequenino, é o destino de sua família em jogo. — a mulher deslizou silenciosa para frente de Lysander e continuou, em tom teatral. — Você quer mudar o que se aproxima, aquilo agora claro como vidro à sua frente. Então se pagar o preço e aceitar minha proposta o dia do suspiro final nunca via chegar. — ela riu e balançou a mão, com a maçã surgindo em seus dedos, sendo levemente apertada pelas unhas. — Pode confiar em mim, não sou tão má quanto lhe contaram. Vai descobrir que sou totalmente sincera e que para salvar sua irmã você precisa aceitar minha oferta.
— Mas eu...
Ela pôs o dedo sobre os lábios do rapaz.
— Entendo que possa ter suas reservas, é uma coisa que eu não oferecia suas vezes. Contudo tem minha palavra que ficarão juntos e seguros, desde que aprenda que desejos não vêm sem um preço. Então pode confiar em mim, não sou tão má quanto pensou. E vai me achar deveras sincera quando eu disser novamente que para mudar seu futuro precisa arriscar tudo. — o sorriso dela abriu-se de orelha a orelha e entregou com a maçã nas mãos de Lysander. — Dole uma. Dole duas. Dole trê...
— Feito!
— Vá em frente. Só uma mordida e tudo ficará bem.
Lysander encarou o fruto avermelhado, respirou fundo e aproximou dos lábios, apertando os olhos enquanto afundava os dentes e sentia os músculos perderem a força.
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