Contos da Carmândia - O Levante dos Gigantes
2 Capítulo 2
Turis foi até a comprida janela em que se via o descampado onde a muralha se erguia. Ela era a única coisa pertencente à Crádia que era possível enxergar de fora da cidade real, e a distância que Turis estava, parecia uma pequena construção. Sempre estranhou a necessidade que os homens tinham de erigir monumentais edificações apenas para afastar o mal. Os gigantes eram muito diferentes nesse aspecto. A única coisa que, para eles, tinha o poder de manter os inimigos distantes era a força e, é claro, a clava.
As feições femininas de Turis eram as mesmas que identificavam uma mulher dos homens, porém, seu tamanho não era nem comparável ao de uma mulher. Diferente dos homens que são maiores do que suas mulheres, o tamanho de um gigante não é determinado por seu sexo, e nem mesmo sua coragem é medida pelo que possuem no meio das pernas. Corpulenta como todos os seus semelhantes se comparados aos outros povos conhecidos, não encontrava dificuldade para carregar seu pequeno irmão recém-nascido, fardo impossível para uma mulher dos “baixos”, que era como eles chamavam os homens. Os pais ainda dormiam, e como Turis vira que o irmão havia acordado, foi encontrar algo para dar de comer ao menino. Carne foi a única coisa que ainda restava do jantar da noite anterior, e apesar de alguns acharem errado dar a um bebê, Turis achava que eles já nasciam com dentes por um motivo, e sabia que esses mitos foram introduzidos pelos homens durante o período em que a convivência entre eles era maior. Enquanto observava a voracidade com que o mais novo guefanderiano devorava um pedaço de carne salgada, pensava nas outras influências que os homens tiveram sobre a cultura dos gigantes. Há tanto tempo que nem mesmo o pai de Turis, Mevro, pôde presenciar, os gigantes viviam sob uma premissa de igualdade. Gigantes e gigantas desempenhavam seus papéis sem que se determinasse o que um poderia ou não fazer e sem que se inferiorizasse o trabalho exercido por alguém. Tudo mudou quando a Lei de Gheveris, lei esta que determinava o revezamento dos governos, foi alterada pela primeira vez. Os homens passaram a se negar a ser governados por uma giganta, e então a possibilidade de uma delas ser escolhida pelos gigantes para o seu período de governo em Crádia deixou de existir. Mais dois governos de gigantes ocorreram antes da usurpação, e durante eles a importância das gigantas foi minguando até mesmo entre os próprios gigantes. Hoje, com a separação da Crádia e a influência imposta, os gigantes não poderiam mais ser liderados por uma giganta, ou seja, Turis, apesar de ser a filha mais velha do atual líder, nunca poderia ser a líder dos guelfanderianos.
Mevros acordou. Com uma aparência extremamente sonolenta e usando apenas uma túnica de dormir, caminhou até a janela onde Turis estava e cumprimentou a filha. Tomando o filho nos braços, pediu que ela fosse até o rio e trouxesse água para as cabras e também para eles. Turis saiu de casa e, ao lado da porta pela qual havia saído, apanhou uma vara com dois barris pendendo nas pontas. O caminho até o rio feito pelos gigantes já estava marcado na grama alta, e Turis seguiu por ele. Serpenteava circulando na base dos montes, e ao desviar de uma protuberância montanhosa acabava se aproximando um pouco da antiga torre de vigilância de Crádia. A proximidade que a curvatura do caminho tinha da torre, permitiu que Turis enxergasse perfeitamente a própria torre e para além dela, onde sua privilegiada visão de gigante identificou dois homens que se aproximavam da construção a cavalo, e imediatamente se deitou no chão, ficando praticamente invisível entre a grama. Observou enquanto se aproximavam, e mesmo antes de chegarem à torre, Turis pôde ver que eram soldados da cidade. Permaneceu deitada até ter certeza de que estava protegida pela distância e a limitada visão dos homens, e então se sentou ao lado de uma árvore para vigiá-los. Um deles entrou na torre e o outro ficou no chão com os cavalos. Permaneceu no alto dela, parado na janela da torre, tempo o suficiente para Turis deduzir o que vieram fazer. Turis já ouvira rumores sobre o atual rei, e nos montes Guelfander sua fama não era das melhores. Era comum que dissessem que ele era exatamente como o rei Nyviru, o rei que tomara o poder para os homens. Achavam que não fazia questão de ter a amizade dos gigantes, mas com certeza todos sabiam que ele os temia. E era bom que temesse.
Turis já sabia o que deveria fazer quando os espiões partissem, e quando ambos montaram e rumaram em direção ao descampado, ela se levantou e refez o caminho de volta até a elevada estrutura de madeira em que morava. Não encontrou o pai lá, então foi até os cercados, onde a mãe torcia o pescoço de um carneiro.
—Pkala, onde está o tkala? — Perguntou ofegante.
—Foi até o outro lado. Vreto o esperava para aqueles treinos de batalha em que eles andam metendo os meninos. — Disse a mãe com um ar de desprezo quanto à nova prática. —Como se já não fossemos brutos o suficiente... — Turis partiu antes que a mãe terminasse, mas ficou curiosa com o que ela havia dito.
Correu entre as grossas metúrias com sua folhagem amarela, e na velocidade em que estava só enxergava os borrões que eram os moradores do monte. Os pés descalços nem sentiam os galhos que se partiam sob eles. Ouviu alguém chamar seu nome, mas não pôde ver quem era. Ao chegar à casa de Vreto, seu pai e ele já haviam partido. Ao perguntar, a esposa do amigo do pai indicara a clareira da floresta abaixo das costas do monte como o lugar em que estariam. Quando chegou até o local, a visão que teve a surpreendeu tanto que por um momento esqueceu o que precisava fazer. Todos os jovens e meninos guelfanderianos estavam presentes. Clavas menores nas mãos dos menores, clavas de tamanho normal para os jovens já crescidos. Seu pai, parado na frente do enorme grupo, parecia ter a maior de todas, e fazia gestos insinuando golpes enquanto Vreto fingia levar os golpes.
—Tkala! — Chamou ela, ao recobrar memória dos acontecimentos passados há pouco. O pai pareceu surpreso e aborrecido ao vê-la, mas deixou sua arma e os alunos para ir atender a filha.
—Diga, Turis. — O pai parecia querer ignorar os inúmeros meninos com clavas em punho que estavam atrás dele.
—Ele têm nos vigiado, tkala! Vi dois soldados de Crádia batendo o nosso território. — Turis disse apontando o alto do monte, porém, se referindo ao outro lado.
Mevros era considerado um dos melhores líderes que os gigantes já tiveram após a separação. O período de tranqüilidade em que ele liderava poderia até contribuir para a eficácia de seu comando, mas alguns atribuíam isto a sua frieza e inteligência. Turis acreditava que o pai era um bom líder por essas qualidades, mas mesmo assim estranhou a falta de surpresa com que ele recebeu a notícia.
—Agradeço pelo aviso, Turis. Gostaria que me esperasse em casa. Terminarei o treinamento e irei para lá o mais rápido possível. Talvez já devesse ter feito isto, mas tenho algumas coisas para lhe contar. — Disse o pai com uma calma assustadora se comparada ao desespero com que Turis se dirigira a ele.
A descoberta do treinamento levantava muitas questões, e enquanto Turis deixava a floresta e subia os montes novamente, imaginava o que poderia, mais uma vez e depois de tanto tempo de paz, exigir que os guelfanderianos aprendessem a usar a sua descomunal força para o desprezível fim que era a batalha.
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