Contos da Campânula

3 Furtaram o Professor Manuel


Notas iniciais
Esse capítulo foi um experimento, tentei escrever de uma forma um pouco mais descontraída. Novamente: novos personagens e um ambiente diferente, mas tudo se passa no mesmo mundo.

Ninguém acreditou quando escutaram que duas crianças haviam roubado papéis rabiscados da sala do Professor Manuel. O próprio não entendia como isso acontecera. Oras, o diretor do curso de Medicina da Universidade Hellianthus era conhecido por ser extremamente cuidadoso com seus pertences. Guardava tudo a sete chaves. E tinha certeza de que havia trancado a porta do escritório antes de ir ministrar sua aula sobre cogumelos com propriedades terapêuticas. A ironia era que os itens furtados eram exatamente suas anotações de estudo sobre tais fungos peculiares.

Miguel achou graça quando seus colegas lhe contaram sobre o acontecido. Por que crianças roubariam documentos entediantes sobre fungos? Decerto eram ladrões contratados que não souberam o que procurar e pegaram a primeira coisa que encontraram. Mas a graça acabou para ele junto da mensagem que recebera algum tempo depois naquele mesmo dia. Enquanto seguia para a biblioteca do campus foi parado por uma garotinha de cabelos escuros. O corpo pequeno não era exatamente um obstáculo, mas a surpresa de ser abordado por uma criança e um sorriso banguela foi maior que o ímpeto de ignorá-la. E quando a menina entregou-lhe uma carta remetida pela Princesa Felícia Mondragon, do Reino de Valária, o queixo dele caiu de vez. O rapaz agradeceu, sem saber o que dizer. A garota fez uma reverência com a cabeça, disse algo sobre entregar a resposta para uma Nuvem nos jardins e desapareceu entre as pilastras do corredor. Miguel assumiu que a garota escapara por alguma porta, ou saíra por uma janela, porque não conseguiu encontrá-la depois. E ela não poderia ter apenas evaporado.

Algumas horas depois, sentado em uma mesa afastada nos fundos da biblioteca, e já recuperado da confusão, o rapaz leu a carta. A primeira vista era uma carta inocente: parabenizava Miguel por ter entrado na Universidade; convidava-o para um chá quando a princesa estivesse em Candeia Violeta no próximo mês; e, pedia para retomarem contato como velhos amigos que eram. Não conseguiu conter um riso ao ler a última frase. Felícia era sua amiga de infância, mas não tinha notícias dela há muitos anos. Tudo o que sabia sobre a princesa era o que era divulgado nos jornais e cochichos aqui e ali. As famílias reais e nobres sempre eram assunto de alguma fofoca. Miguel guardava a carta na sua bolsa quando percebeu que no verso da folha havia uma textura diferente. Não, não era exatamente uma textura. Não poderia ser sentida pelo tato. Talvez pudesse ser descrita como uma ilusão de ótica. Ele já havia visto uma mensagem invisível antes e reconhecera a da carta como uma ocultada por magia. O problema era que ele não praticava magia. Embora... tivesse amigos que pudessem o ajudar.

O jovem duque da realeza Índigo, que há muito abandonara (ou melhor, fugira) de suas responsabilidades para viver sua própria vida longe das burocracias e conflitos da nobreza, não conseguia achar razão para a princesa ter lhe enviado uma mensagem secreta. A caminho do prédio dos dormitórios, Miguel questionava se valia a pena correr o risco de expor uma amiga a uma mensagem que ele nem mesmo sabia do que se tratava. Mas mal teve tempo de dar meia-volta e destruir a carta, pois Giovana o viu primeiro.

— E aí, Miguel? — A ruiva sorria de canto a canto enquanto dava tapinhas no degrau ao seu lado, convidando-o a se sentar.

Ele permaneceu em pé, no entanto.

— Estava te procurando. Preciso da sua ajuda.

O sorriso da garota murchou. O rapaz sabia o porquê, era desapontamento. Mais uma vez ele procurava a amiga para resolver um problema seu. E mais uma vez ele o fazia sem falar nada antes. Idiota. Mas se ela ficara triste, soube disfarçar pois tirou a franja dos olhos com os dedos e perguntou:

— O que manda?

Miguel estendeu a carta para ela, mas não a soltou. De forma que a garota puxou com as duas mãos repetidas vezes até desistir de pegar o envelope.

— Veja bem, Gi. Essa é uma carta da minha amiga, Felícia. Ela escondeu uma mensagem com magia.

A moça torceu o nariz ao ver o carimbo da família Mondragon no envelope. Miguel encarou seus olhos dourados com uma expressão que dizia "Desculpa". Mas só após alguns minutos de uma conversa silenciosa, que envolvia uma expressão culpada e um "fala sério!?" representado por sobrancelhas arqueadas, a ruiva estendeu a mão.

— Tá. — Suspirou. — O que é? Tinta invisível?

— Acho que é isso, sim. — Disse o rapaz, abrindo a carta e mostrando o verso em branco.

Com um simples gesto e sem tocar no papel, a ruiva revelou a mensagem aos poucos. Conforme agitava os dedos com delicadeza de um lado ao outro sobre a folha as palavras surgiam uma a uma.

Tcharam. Essa foi fácil. — Giovana tentou espiar o que estava escrito, mas pegou só algumas palavras soltas antes de Miguel dobrar o papel com rapidez e guardá-lo na sua bolsa tiracolo. — Ei!

— Muito obrigada, Gi. De verdade, não sei o que eu seria sem você. — Encrencado, assumo. Ele escutou ela sussurrar entre dentes. — Eu preciso ir agora. Desculpe.

E deixando a ruiva na escada, incrédula com a atitude do amigo, subiu correndo para seu quarto. O sobretudo marrom esvoaçava atrás de si enquanto segurava a bolsa contra o peito com força.

Só após certificar-se de que as cortinas estavam bem fechadas e que a porta do seu quarto estava trancada, o rapaz respirou fundo e leu a nova mensagem. Essa era bem mais breve que a anterior. A carta servia para despistar uma outra mensagem, e a mensagem real era na verdade uma série de perguntas. O que o Professor Manuel estudava? Miguel franziu a testa ao ler aquilo, baixou a carta e jogou-se na cama de olhos fechados. O que significava essa pergunta? Mais sem sentido eram as perguntas que ele leu em seguida. O jovem duque sabia algo sobre estudos relacionados à doenças hereditárias sendo feitos na Universidade? Teria como obter informações sobre tais estudos e encaminhar, em sigilo, para a princesa?

Ele tinha que responder. Seria um insulto se não o fizesse, nem que fosse algo que não respondesse as questões de Felícia. O jovem tentou enterrar a curiosidade pelas respostas no fundo da sua mente. Tinha fugido da vida da nobreza para evitar as intrigas políticas que adoeciam seus pais e não poderia envolver-se com um problema real. Decidiu resolver da forma mais simples possível. Sentou-se à escrivaninha que ficava sob a janela, e à luz da vela escreveu uma carta contando tudo o que sabia sobre as pesquisas do famigerado professor de medicina. Prometeu enviar uma lista que continha todas as linhas de pesquisa da Universidade assim que possível. Para terminar, deixou claro que não queria ser responsabilizado por quaisquer problemas que surgissem ao compartilhar àquelas informações e pediu desculpas pela falta de contato nos últimos anos. Assinou e selou a carta com o brasão da sua família. O qual não era utilizava desde que se mudara para os dormitórios. Agora, precisava selar a carta com magia para proteger as informações antes de levar a resposta até os jardins.

O rapaz suspirou, teria que pedir ajuda para Giovana novamente. E ainda precisaria encontrar essa tal Nuvem.

Vários professores tentaram acalmar o colega diretor, afirmando que ele possuía uma memória impecável — o que era verdade. Porém, e infelizmente, não conseguiram o convencer de que, se nunca precisou das anotações para palestrar sobre, com toda a certeza conseguiria transcrever todo o conhecimento novamente para o papel sem muitos desafios. Fosse usando a pena, fosse usando magia, recuperaria rapidamente os dados. Mas o Professor Manuel, um senhor de meia-idade que agora possuía olheiras enormes sob os olhos, passava a mão na careca suada ansiosamente e negava que essas seriam possibilidades viáveis. Não explicava o porquê, mas todos entenderam que havia algo a mais por trás daqueles papéis.

O que não sabiam — mas as gêmeas ladras, sim — era de que para além de anotações e desenhos de fungos peculiares, entre os rabiscos havia um nome, um diagnóstico e os tratamentos alternativos sugeridos pelo renomado pesquisador Jamboense. Informações que ele temia serem divulgadas às pessoas erradas. E ele sabia que as consequências colocariam em risco, na melhor das hipóteses, sua carreira. (E, na pior delas, sua vida.)

Notas finais
Iniciei escrevendo com o intuito de cada capítulo ser uma história independente, mas aos poucos começa a nascer um plot na minha cabeça. Ainda tenho dúvidas quanto aos caminhos que devo seguir, mas estou esperançosa de que aos poucos a própria história irá se encaminhando sozinha. Só espero conseguir transmitir em palavras o que vou imaginando e bolando haha