Notas iniciais
Neste capítulo, uma cena de Petyr Baelish.

Ele gostava de olhar através da porta aberta. O vento frio batia forte e cortante ali do alto Ninho da Águia, mas de maneira alguma isso lhe era desconfortável. Petyr Baelish adorava o frio. Ajeitou-se sobre sua cadeira de balanço, sentindo as articulações doerem novamente. Nos últimos quinze anos, aas dores corporais tinham sido mais que duras companheiras: eram para ele sinais vitais. No dia em que acordasse sem dores saberia que já estava morto. A madeira rangeu contra o piso de mármore da grande sala do trono. O vento fazia o balanço ser cada vez mais brusco e a proximidade em relação à Porta da Lua faria qualquer um ficar preocupado, mas não naquele momento. Petyr estava só e em paz, e não haveria risco de morte iminente que lhe causasse medo. A cadeira de balanço havia sido projetada e construída pelo meistre Gaius, e nela ele podia ficar por horas olhando para o belíssimo céu do inverno – que, ao que tudo indicava, estava prestes a acabar.

As nuvens pairavam mais brancas do que ele julgava ser possível, e o céu que fazia plano de fundo era d um azul tão claro que quase não diferia do resto. Não nevava há mais de um ano, e Petyr sentia falta do toque da neve no seu rosto. Várias vezes sua cadeira ficara atolada em um monte de neve que entrara pela porta e o meistre tivera que retirá-lo de lá aos arrastões, enquanto ele se divertia em silêncio e tocava sua barba congelada. Fechou os olhos e esperou que lacrimejasse antes de abri-los novamente. A ventania deixara sua visão embaçada. Ele voltou a olhar para fora e divagar em pensamentos. Costumava imaginar a chegada dos ândalos a Westeros daquele lugar. Sabia que haviam aportado nos Dedos, mas dizia-se que o grande rei Artys Arryn chegara voando no dorso de um falcão gigante. Imaginou como teria sido o pouso sobre o alto das montanhas da lua, a ordem para que fosse construído o castelo mais seguro do mundo e o governo do primeiro rei do Vale. Será que Artys também ficara melancólico depois de envelhecer¿ Jamais saberia, mas sabia que ele havia envelhecido demais com tanta melancolia.

Ele fez um esforço e se virou para trás, confirmando mais uma vez que estava completamente só. A solidão sempre fora uma boa companheira para aquele homem, principalmente depois que sua amada Catelyn morrera. O trono do rei do Vale encontrava-se vazio, como na maior parte to tempo. Não era tão difícil governar, afinal. Petyr vira Jon Arryn, Eddard Stark, Tyrion e Tywin Lannister se esforçarem para nadar no rio de cobras que fora Porto Real, mas esta não existia mais. Fora devorada pelo mesmo fogo que a construíra três séculos antes. Nada mal, Vossa Graça, ele dissera para a onipotente Daenerys Targaryen quando tudo terminou. Ela tinha um dragão, tinha um exército e tinha aliados, muito mais do que seu ancestral Aegon tivera, mas não quis conquistar os Sete Reinos. Em vez disso, decretou simplesmente que não haveria mais governo central e que cada reino pertenceria novamente à sua Casa. Petyr ficara satisfeito por se aliar a essa rainha de Essos antes que o inferno começasse e ainda mais quando ela o coroara rei do Vale. A única infelicidade neste caso fora não ter Sansa como sua rainha, já que esta fora mandada para o rei Aegon Targaryen da Tempestade no tempo em que ninguém acreditava que dragões existiam. Mas tudo era passado, e o reino do Vale já tinha um herdeiro. Robert Arryn morrera jovem demais, mas Harry ainda estava vivo e bem, agora já um homem adulto servindo como cavaleiro ao rei Aegon Targaryen. Petyr Baelish nunca se casara novamente nem nunca tivera filhos. Tomara esta decisão ainda jovem, antes de alcançar altos cargos em Porto Real. Sua Casa era algo efêmero nos Sete Reinos, fundada por um mercador bravosi duas gerações antes e findada neste velho e cansado rei do Vale. Fiz um bom progresso, vovô, pensou. Os westerosis se preocupavam demais com suas famílias, mas para Petyr tudo o que importava no mundo era ele próprio. E Sansa, mas só porque é filha de Cat.

O Vale nunca perdera seu nome original. Fora dado por um grande conquistador e Petyr respeitava isso. Além do mais, tudo ali lembrava a Casa Arryn. À noite ele poderia jurar que ouvia o estridente bater de asas de Artys, os gritos incontroláveis de Alyssa Arryn e os passos e risos de crianças. Era difícil admitir isso, e a realidade sempre o fazia ranger os dentes. Eddard Stark era da maldita raça de lobo que lhe tomara Cat, e Robert Baratheon era o perfeito exemplo do que um rei deveria ser se quisesse se tornar um porco, mas mesmo assim os salões do Ninho da Águia ecoavam suas infâncias passadas ali, cinqüenta anos antes. Às vezes ficava se perguntando como os reis teriam ficado após todo esse tempo. Daenerys ele sabia que estava viva e bem, afinal o sangue valiriano não sucumbia ao tempo tão facilmente. Mas Tyrion Lannister e Willas Tyrell estariam tão gordos e cansados como ele¿ Já fazia muitas décadas desde a última vez que os vira, em Vilavelha, na Grande Coroação. Daenereys incendiara Porto Real há apenas algumas luas e Sansa recentemente descobrira que estava grávida. Petyr sabia que hoje Brandon Targaryen e Harry Hardyng eram bons amigos, apesar das intrigas que lhes haviam ocorrido no passado.

Ouviu pés deslizando rapidamente pelos corredores de mármore do castelo. Já era tempo, pensou, esperando que seu desjejum não caísse no chão pela pressa do criado que o traria. Ainda era a primeira hora do dia e a luz ainda não ocupara o céu por completo, mas Petyr vinha acordando cada vez mais cedo e também sentia fome cada vez mais cedo. Mas quem vinha não era criado nenhum, e sua fome teria que esperar. Meistre Gaius chegava apressado e ofegante, com uma expressão urgente em seu rosto jovem e um rolo selado na mão direita.

- Vossa Graça. – ele disse, tentando respirar. Passou a mão esquerda pelo pescoço várias vezes tentando aliviar a pressão da corrente de meistre. Várias vezes o rei o orientara a usar uma corrente mais larga, mas ele insistia em dizer que proferira os votos usando aquela e morreria com aquela. – Um corvo trouxe esta carta durante a noite. Só pude vê-la agora que acordei, vim imediatamente.

- Respire, Gaius, venha até aqui. – disse Petyr, enquanto o meistre avançava na direção da cadeira próxima demais à Porta da Lua. Ele já se cansara de avisar sobre o risco daquela posição, e o rei já se cansara de ignorá-lo. – Dê-me aqui este rolo.

Ele o entregou ainda selado. Petyr nunca fora homem de pegar informações de segunda mão, e guando recebia um novo meistre em seu castelo, logo tratava de ensiná-lo a nunca quebrar um selo. A mão direita de Gaius possuía uma marca profunda em forma de cabeça de touro, fruto de uma crueldade infantil em uma vila qualquer nos confins da Campina. Em seu sotaque sulista, o mestre explicara para o rei como decidira se tornar um noviço só para fugir dos garotos que lhe faziam mal, e como acabara forjando sua corrente em seis anos. Aos dezoito se apresentou no Ninho da Águia e lá vinha fazendo um bom trabalho nos últimos quatro anos. Petyr fechou os olhos e esfregou as pálpebras usando o dorso da mão esquerda, buscando minimizar o efeito cegante da luz forte do céu. Podia ouvir a respiração forte de Gaius dentro da própria cabeça.

- Feche a Porta da Lua, por favor.

Ele fechou com cautela enquanto Petyr Baelish quebrava o selo. Os anos longe da política mordaz de Porto Real haviam cobrado seu preço, e ele percebia isso agora. Já fora mais observador antes, sem dúvida. Se ainda fosse tão hábil como já fora teria visto a estranheza do selo antes. Um lobo Stark.

- Sabe o que isto significa, Gaius¿ — perguntou, lançando um olhar preocupado.

- Casa Stark, senhor. Mas... mas está extinta.

- Sim, e bem antes de você nascer.

- Arya Stark e Sansa Stark estão vivas.

- Arya Bolton e Sansa Targaryen. Nenhum Stark nesse mundo, lorde Walder Frey se certificou disso. – E eu também, deixou por dizer.

Abriu o rolo e viu uma série de runas rabiscadas sobre o pergaminho.

- Sabe que porra é essa, Gaius¿

- É a Língua Antiga, Vossa Graça. Falada pelos Primeiros Homens antes da chegada dos ândalos.

- E é capaz de entendê-la¿

- Posso tentar.

O jovem meistre gaguejou no início, como se tentasse se lembrar do que aprendera na Cidadela, mas depois de um tempo já conseguia ler em antigo e falar em ândalo.

Ao rei Petyr Baelish do Vale

O reino do Norte tem sofrido degradação e ruína nas últimas décadas, por causa do governo irresponsável do rei ilegítimo Ramsay Snow. Arya Bolton não é quem um dia foi Arya Stark, esta está ao meu lado nesta guerra não possui o título de rainha do Norte. Proponho uma aliança a Vossa Graça pra que conquistemos juntos o reino, e em troca lhe darei Harrenhal.

Rickon Stark, legítimo rei do Norte.

- Harrenhal¿ — questionou Petyr, como se nada mais naquela mensagem fosse absurdo – Pertence a Victarion Greyjoy, como ele pretende me dar esse maldito castelo¿

- Provavelmente ele pretende que Vossa Graça se ajoelhe.

- Para quem¿ Um selvagem nortenho que diz ser um garoto morto¿ Não, não pretendo mais entrar em guerras nesta vida.

- Então não devo enviar um corvo em resposta¿

- Não. Pode usar esta carta para estudar as runas, talvez me ensine algo um dia. Por agora organize as audiências da sala do trono de hoje.

O dia se seguiu tedioso e simples. O rei de sessenta anos ficou sobre seu trono ouvindo as petições do povo e de lordes. Mil pedidos relacionados a impostos, uns tinham questões de terras, outros queriam pão, outros ainda pretendiam realizar casamentos com casas de outros reinos. Um a um o rei os ouviu, ponderando as possibilidades e ouvindo os conselhos de seu meistre. Ficava feliz por não ter um Pequeno Conselho com os reis de Porto Real tinham. Aqui ele era seu próprio mestre da moeda, era ele que ditava as leis e determinava quando os navios deveriam zarpar. O último homem estava quase escondido pelas sombras quando passos pesados invadiram sua sala do trono. Um homem rude vestindo roupas selvagens e portando armas de bronze se aproximou enquanto outros dez se uniam atrás dele, todos selvagens com armaduras rústicas. O líder tinha pele clara e marcada por ferimentos de lâmina, mas seus cabelos ruivos e seus olhos azuis pareciam familiares demais.

- Edmure¿ — Petyr perguntou incrédulo. Tinha crescido junto com aquele rapaz, mas ele nunca fora selvagem e certamente estaria bem mais velho que aquilo.

- Rickon. – ele respondeu. E mais passos se fizeram ouvir.

Os selvagens do rei do Norte tomaram o Ninho da Águia com uma facilidade que ninguém julgaria ser possível. Os guardas não estavam preparados, e os guerreiros eram ágeis demais para se derrubar durante a escalada. Subiram pela montanha Durante a noite, Petyr soubera, tomando os castelos um por um silenciosamente. O ataque veio em resposta ao silêncio de Petyr, que nunca se sentira tão arrependido em não responder uma carta.