Contos Sombrios de Sábado à Noite

1 Capítulo 1: Traída na Escuridão


Abby.

Sábado.

Não consigo entender porque eles me olham tanto. Não consigo raciocinar direito com tantas vozes chamando por mim. É impossível entregar-se ao prazer se eles não me deixam...

Cada palavra que eu formulava em minha mente, também escrevia na parede do quarto enorme, vago, espaçoso e... assustador.

E o prazer... Eu queria dormir... Eu quero dormir. Mas eles não me deixam. Continuam chamando por mim.

- Ahhh! — Gritei, em total desespero.

Roger abriu a porta e correu em minha direção. Mas parou diante da cama. Sim, ele iria me chamar de louca. Ele iria me xingar. Iria dizer que eu precisava imediatamente ser internada, afinal, Roger olhava para meus rabiscos com caco de vidro na parede:

OLHOS GRITOS MALDITOS FANTASMAS MALDITOS

Ele correu em minha direção. Tomou o caco de vidro de minha mão, eu já o apertava com tanta força que meus dedos sangravam, a parte boa era que não doía... ou, ao menos, não mais do que aquelas malditas vozes.

- Você está louca, Abigail! — Ele gritou. ELE GRITOU. Já não bastavam aquelas malditas vozes gritando em minha mente? NÃO BASTAVAM?

- NÃO GRITE COMIGO! — Esbravejei à mesma altura e me encolhi no canto da cama.

Roger aproximou-se de mim, enquanto escondia o caco de vidro no bolso da calça azul. As luzes estavam me incomodando, mas eu não poderia ficar sem elas. Então meu marido sussurrou:

- Perdão.

A princípio não compreendi o porque do pedido de desculpas, mas foi no momento em que ele se afastou que tudo ficou claro em minha mente tão perturbada.

- Não... — Comecei a falar, mas já era tarde. Ele tinha acabado de fechar a porta do quarto e deixar-me sozinha lá... no oceano de fantasmas. — NÃO! — Gritei, e, subitamente e sem aviso prévio algum, as luzes se apagaram.

Não fale nada... Disse para mim mesma. Não fale...

Um gemido horrível surgiu de debaixo da cama. Fechei os olhos e pressionei-os com as mãos.

Desci a mão por minha perna esquerda até o chão escuro. Senti a frieza de uma coisa encostar-se em mim... E estremeci.

- Porque você me deixou aqui, Roger? Porque me traiu? Porque me abandonou... — Era uma vã tentativa de segurar as lágrimas.

A coisa de debaixo da cama gemeu novamente. Um gemido dessa vez totalmente assustador, chegou a lembrar-me os malditos fetiches de filmes de terror, mas era pior, porque, agora, era real.

Minha mão foi tocada novamente.

- Por favor, deixe-me em paz, por favor...

- Abra os olhos, Abby. — Uma voz melancólica sussurrou ao pé do meu ouvido. Uma voz que me era familiar...

Não! Eu não podia, eu não deveria abrir. E eu não iria abrir... Eu não...

- Vamos, Abby... — A coisa disse novamente.

Tudo bem. Se eu abrir os olhos, nada verei, não é? Está tudo escuro mesmo... Vai ficar tudo bem. Roger está do lado de fora. Se acontecer algo de ruim, eu grito com mais força e tenho certeza de que ele me socorrerá e deixará de ser cego. Ele virá até mim. E também verá os demônios que eu vejo.

- Vamos, Abby... é só... abrir.

Com as pálpebras tremendo, abri meus olhos.

Ela estava totalmente iluminada por uma luz enorme. Olhei em seu rosto e vi o medo. Eu estava olhando para mim mesma.

- Quebre... — Eu disse, de dentro do espelho.

- NÃO! — Gritei. — Roger! — Mas meu amor não vinha. Meu amor me traiu. E só me restou uma única saída...

- Quebre o espelho. — O outro eu repetiu novamente, e eu o fiz.

Notas finais
Continua...
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.