Contos & Outras Histórias
4 4. Já é muito tarde agora
Notas iniciais
2016, Agosto
A quem interessar possa...
Creio ter, há muito, tomado esta decisão e, se assim for, não me arrependo das ações que me trouxeram até aqui. Durante todo este tempo em que me demorei, gostaria de esclarecer, brevemente agora, não tenho tempo para cerimônias, alguns pontos que abandonei. Em um primeiro momento, eu talvez devesse pedir perdão (talvez), não por mim, mas pelo pouco que ainda me resta: aos amigos dos quais me afastei; às pessoas que, alguma vez e de alguma forma, magoei; e à mim mesma, por tê-la permitido instalar-se em minha mente. E em um segundo momento, creio ser a hora para admitir que há pouco aprendi a não ter medo das ideias que frequentemente me atacavam e, claro, esclarecer por fim que ninguém poderia me salvar, mesmo que tentasse: eu o fiz completamente sozinha por tanto tempo! Todas as coisas que eu sempre quis, foi o que me forçou a continuar ignorando os espinhos; era, eu costumava dizer a mim mesma, uma maneira de confrontá-la — em parte, me orgulho de minha teimosia...
Antes que seja meu juiz, permita-me expressar minha versão: imagine-se preso a um mundo soturno, cujo ar seja carregado e os sussurros do vento sejam as mais negativas palavras, as correntes em seus pés, vez ou outra, se transfazem em frias mãos que os puxam mais e mais forte. A cada passo dado, os sussurros se elevam em desdém e o vento traz risos de escárnio. Os espinhos nas árvores rasgam a pele nua de seus braços e as lágrimas que caem são o suficiente para te lembrar das feridas em seu rosto. Por todas as partes, as lembranças das coisas que te protegeram saltam aos olhos. O vento traz palavras de desapontamento até os seus ouvidos e as lágrimas continuam a te lembrar das feridas em seu rosto. As árvores espinhosas se fazem maiores e as pontas de seus espinhos brilham na escuridão. Nenhum dos nomes que você chama parece próximo para ajudar.
Sem qualquer companhia, você quer enfrentá-la. Mas você sabe que vai falhar, sabe que vai ceder porque apenas você parece viver neste inferno! Como acreditar nas palavras trazidas pelo vento? Mas você acredita, não há mais nada em que acreditar. Você não sabe e nem saberá como se permitiu chegar àquele ponto: e o vento te diz...
Com o tempo, as feridas físicas se fecham e o vento te propõe, em sussurros, que não trará palavra alguma enquanto vir sangue. Desatinadamente, dada a palavra, você se vê obrigado a aceitar. E é como sabe que cedeu. Através de pesados suspiros, você se aproxima das árvores e quebra um dos espinhos, o mais brilhante, que, em suas mãos, reflete as lágrimas que escorrem por seu rosto. "Machuque", a voz do vento ecoa adocicada e suavemente, você obedece e escuta seu próprio grito abafado. É o que afasta a voz do vento e você sabe que jamais perderá o espinho. O que nunca havia passado em sua mente era o sadismo: não!, você nunca havia cogitado a possibilidade de que a voz jamais se satisfaria com a quantidade de sangue oferecida, nunca! Anos mais tarde, as pessoas passavam em frente ao inferno e, longinquamente, observavam os grilhões aos seus pés: elas gritavam e ofendiam o espinho em suas mãos e os cortes em seus braços. Elas não se aproximavam para ajudar, apenas ignoravam suas lágrimas e súplicas. E você merecia estar ali, diziam por cima dos ombros, quando se viravam para deixá-lo sozinho outra vez.
Cansado e tendo cedido, você arduamente caminha na direção das pessoas que passaram, ainda espera encontrar alguma e implorar por ajuda. No entanto, encontra um penhasco...
Seus joelhos tocam o chão e suas mãos se prendem à cabeça. O barulho das correntes aos seus pés torna-se quase insuportável e você sabe que não sairá dali de outra forma. Já tem anos que não esconde as lágrimas, mas a sequência das que escorrem enquanto, desesperadamente, pede ajuda é atordoante. Você, então, observa o penhasco à sua frente. E, tomado por uma insana coragem, se arrasta até a borda do abismo. "Pula", a voz do vento é calma e convidativa: ainda traz a meiguice, suavidade e doçura de quando propôs o silêncio em troca do sangue. "Pula", ele urra. E você obedece...
Antes que seja meu juiz, permita-me expressar que, durante todo esse tempo, aquela queda foi o mais próximo de vida que eu me lembro desde que cheguei a esse mundo.
Antes que seja meu juiz, permita-me perguntar-lhe: você cederia, não cederia?
It's too late now.
Em minha lápide, escreva: "Eu implorei a sua ajuda."
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