Contos Monótonos de um Garoto Monótono
1 Bala Perdida
Notas iniciais
Ele acorda. Veste o moletom laranja. Bocejo. Abre as cortinas. Neve. Arrasta os pés dentro das pantufas de coelho brancas, até o banheiro, onde escova os dentes e arruma os cabelos loiros. Os olhos da cor do mar piscam diversas vezes, tentando adaptar-se à luz clara da manhã. Os outros ainda não acordaram. Nenhum deles.
Ele liga a cafeteira que descansa perto da janela e espera o café passar. É sábado de manha. Será que o jornal já foi entregue? Ele, então, se dirige até a porta, pondo a maçaneta dourada e girando-a. A porta se abre. Ao longe, uma pistola é carregada.
Opa, ainda não pôs as calças. Fecha a porta novamente e dá meia-volta no calcanhar esquerdo, subindo as escadas e procurando as calças pelo quarto pouco iluminado. A única luz que ali vivia era a luz do sol, que adentrava o cômodo por entre as nuvens acinzentadas daquela manhã de inverno. Coloca-as e faz todo o percurso novamente, descendo as escadas e voltando à cozinha.
O café já está pronto. O garoto então pega uma caneca, servindo-se. Um gole. O jornal chegou. Outro gole. Senta-se e bebe todo o conteúdo, lentamente, observando a serenidade da cozinha vazia, monótona, quieta e escura, iluminada somente pela luz que saía de dentre as cortinas cor-de-mel da janela acima da pia de mármore branco. Ele se levanta vai até a porta novamente, desta vez, certo de que o jornal estará lá. Pega a maçaneta e a gira, abrindo a porta e dando um passo para fora da segurança da casa que ainda dormia serenamente.
Alguém põe um dedo no gatilho.
Ele dá outro passo. Onde largaram o jornal?
Quase lá.
Outro passo. Ali está!
Disparou.
Ele cai no chão. Parece cena de um filme.
O mundo gira em câmera lenta à sua volta.
Sangue se espalha, o vermelho misturando-se ao branco frio da neve no chão.
Silêncio.
"Porra, eles mataram o Kenny!"
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