Contos Macabros
2 A Praia
O farfalhar das palmeiras plantadas á margem da estrada, junto com o aconchegante sol de verão, faziam Aline relaxar. Ela e seu recém-esposo Pedro estavam prestes a ir para sua tão sonhada lua de mel, e em lugar onde Aline sempre quis, mas nunca contou: uma praia.
Era linda, e quase deserta, assim os dois poderiam ficar á sós. A areia de lá era limpa, branquíssima e fina, além de muito macia. O sol lá não era tão quente e água do mar não era gelada, simplesmente tudo perfeito para um casal jovem e sonhador como eles.
Alugaram por 1 mês um quarto em uma linda pousada, perto da praia. Mesmo não tendo fama, a pousada era aconchegante, e pelas fotos no anúncio era um tanto luxuosa.
O Ford Fiesta amarelo estacionou em uma larga vaga e Aline saiu de dentro. Ela demonstrava muita felicidade e sorriu para Pedro, que acabara de guardar as chaves no bolso. Ela abriu o porta-malas e tirou as malas de dentro. Em seguida observaram rapidamente o local onde se encontravam. Era mesmo lindo, lindo e calmo, tudo o que eles precisavam.
Andaram até a pousada 3 corações, e entraram, com a porta fazendo um grande rangido. O recepcionista cochilava de boca aberta em sua cadeira, mas acordou com o barulho. Ele rapidamente se recompôs. Depois de toda a identificação eles receberam a chave da suíte, que ficava no quinto e último andar.
Aline andava pelos corredores escuros e estranhava, enquanto Pedro estava com um discreto sorriso na boca. Ela achava que o lugar seria um pouco mais alegre, e não tão sinistro. Mas não poderia voltar atrás, era sua lua-de-mel, tudo o que ela sonhou. Não poderia jogar essa chance fora só por causa de um lugar deserto.
A penumbra tomava conta de uma boa parte do corredor um pouco sujo nos cantos. Aline deu uma longa suspirada e adentrou a suíte. Era linda, a cama de casal macia e o banheiro cuidadosamente arrumado.
Aline e Pedro se jogaram na cama e se beijaram, estavam em plena felicidade.
– Que tal um jantar á beira-mar à noite? – Convidava Predo, com um brilho nos olhos.
– Por que não? – Aline riu e eles voltaram a se beijar.
Aline se levantou e ajeitou a saia.
– Vou buscar uma bebidinha para gente.
Pedro se acomodou mais um pouco na cama.
– Ok. Estou esperando.
Aline foi sorrindo para a o corredor. Foi até um velho telefone acoplado na parede.
– Alô? Serviço de quarto?
Mas ninguém atendeu, depois de uma examinada, Aline constatou que o telefone estava quebrado. Que droga de pousada era essa? Agora tinha de ir até a recepção fazer o pedido. Ela olhou para trás e observou o corredor deserto e tomado por sombras. Sentiu um calafrio na espinha e engoliu em seco. Deu de leve uma tapa em seu próprio rosto.
“O quê você é Aline?” Ela pensou. “Com medo de um escurinho?”
Aline se lembrou de quando era uma ingênua criança, o pavor que tinha de ficar sozinha no quarto escuro, os vultos que via pela janela quando a chuva deixava as árvores no quintal aterrorizantes, o medo que tinha do desconhecido. Logo se lembrou de um estranho evento que aconteceu quando ela tinha apenas 8 anos. Era um sábado cinzento e chuvoso, Aline assistia televisão deitada no sofá, enquanto escutava o relaxante barulho da chuva lá fora.
– Aline – Era sua mãe a chamando — Vamos comigo ao mercado?
– Claro, mamãe.
Dona Luíza deu a ela um guarda- chuva e ficou com outro para ela. Assim que abriu a porta um vento forte, de arrepiar, entrou. Aline suspirou e seguiu com a mãe até o mercado. As ruas da cidade estavam completamente vazias, talvez por causa da forte chuva, e o frio que fazia. Enquanto seguia pensativa pela calçada, Aline viu o que preferia não ter visto. Depois de ter olhado para a janela de uma casa, Aline viu uma senhora, já velha, á observando pela janela de uma velha casa. A velha a olhava estranhamente, a cara cheia de rugas e um cabelo estranhamente branco. Ela estava séria, mas quando Aline estava quase fora de seu campo de visão, ela deu um sorriso, um sorriso que ia de orelha a orelha, os olhos sinistros, a boca totalmente desdentada. Aline deu um grito alto, de tanto medo.
– O que é isso menina? – Indagou sua mãe.
Aline não respondeu nada, apenas baixou sua pequena cabeça.
Aline já tinha chegando a recepção, o homem agora estava acordado e ativo.
– Olá, poderia enviar para a suíte 212 uma garrafa de vinho e duas taças?
– Oh, sim senhora.
O recepcionista a olhou nos olhos e sorriu. Aline sentiu um arrepio na espinha, esse sorriso era familiar, o olhar também. A garota se virou rapidamente e seguiu quase correndo de volta para a suíte.
Aline bateu a porta e Pedro estranhou.
– O que foi amor?
– Nada, nada. –Ela passou a mão na testa, estava gélida, tinha de se acalmar. Bebeu um copo d’água e se deitou junto com o esposo. Ele a beijou.
– Tem certeza de que não aconteceu nada?
– Tenho não se preocupe.
Antes o que era sonho agora estava um tanto sinistro. Tudo o que Aline queria agora era voltar no tempo e escolher outro lugar para sua querida lua-de-mel, mas não podia.
Logo chegou á noite e uma garoa fina caía na praia.
– Acho que não vamos poder fazer aquele programa que tínhamos. – Falou Aline.
– Não se preocupe, é apenas uma garoinha, logo passa.
Aline respirou fundo, depois de 5 minutos a chuva passou e Pedro ficou feliz. Eles arrumaram tudo e relaxaram. Haviam armado uma tenda na fina areia da praia, uma mesa e duas cadeiras. Prepararam um jantar á luz de velas. Aline até que gostou, pelo menos ajudaria a esquecer do estranho ar da pousada. Eles conversavam sobre muitas coisas e jantaram, depois começaram a se beijar.
– Vamos olhar as estrelas- Sugeriu Pedro, com um brilho nos olhos.
– Claro.
– Olhe, aquela é a constelação de Áries.
Seguia tudo animado, quando misteriosamente Pedro se levantou e começou a olhar para o escuro lá no fundo da praia, sem articular sequer uma palavra.
– O que foi Pedro?
Mas ele não respondia.
– Pedro? – Aline já estava começando a ficar assustada.
Ela olhou nos olhos deles, estavam totalmente negros, vazios. Aline deu um grito e se sentou, o que havia acontecido com Pedro?
O garoto de repente começou a correr, correr muito rápido e em direção à floresta, o que havia acontecido com ele?
Aline, sem pensar, o seguiu. Seguiu como uma louca tinha de saber o que estava acontecendo. Pedro sumiu na escuridão da floresta, e Aline também. Agora ela se via em um lugar totalmente sinistro.
– Pedro? Pedro!
Os gritos de Aline eram em vão, não havia sequer reposta, ela já estava desesperada.
Sentiu algo pegando em seu braço, seria Pedro? Não sabia. Sacou seu celular do bolso e ligou a lanterna, pensou em ligar para a polícia, mas e se fosse apenas uma brincadeira de Pedro? Ela iluminou a sua esquerda e viu o que estava puxando-a: Era um braço, apenas um braço, sem corpo. Aline deu um grito de horror e observou vagamente o braço, que ainda tinha um pedaço da roupa. Aquela cor da pele, a cor da roupa, tudo indicava que o braço era de Pedro. Aline deu um grito muito alto e correu rapidamente para a floresta. Estava quase chegando a pousada, mas foi misteriosamente tragada pela terra.
Seus gritos já não seriam mais escutados.
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