Contos Diversos Volume 1.

29 Terceiro Conto - Arthur e sua epifania


Terceiro conto – A epifania de Arthur.

Capítulo Nove – A maratona.

Eu sou um péssimo velocista.

Sério mesmo.

Deste que me lembro, sempre fugi dos valentões na escola e sempre me cansava no meio do trajeto e logo eu não escapava da surra diária, então como eu sabia que nunca iria escapar eu decidi revidar e parecia muito pior essa ideia, porque além de apanhar diariamente eu ainda levava uma surra extra por tentar reagir, mas sinceramente não era minha culpa.

O valentão era Tobias, um garoto de grande porte que infernizava todo mundo que ele travava o alvo, mas o pior vem agora, eu só fui infernizado a vida toda por esse idiota pelo simples motivo.

A namorada dele tinha uma queda por mim.

Não é que eu seja o garanhão do pesado, mas se a namorada do Tobias tivesse uma queda por você era o mesmo que assinar um atestado de óbito seu, pois Tobias faria de tudo para que você se arrependesse de existir pelo resto da vida, mas não estou aqui para contar meu passado e sim de agora..

A bendita maratona faz um bom tempo que eu decidir correr nessa maratona por influencia de Helena, ela achava que se eu corresse em uma maratona eu poderia ter uma história interessante para contar.

A cidade anualmente apresentava um evento de maratonas durante uma semana em prol de conseguir verbas para os institutos filantrópicos da região, para pagar uma inscrição era necessário um alimento não perecível, acredito que você tenha total conhecimento nisso.

E cá eu estava me preparando junto com centenas de pessoas se aquecendo para o evento a seguir, Helena parecia convicta consigo mesmo, se eu tivesse uma chance de ganhar dela, apesar de que seria impossível, podia se notar o fato de que ela tem um corpo atlético melhor do que eu.

E tem também o João, eu sei que ele corre para caramba, pois uma vez quando esse tal de Tobias tentou me surrar ele me defendeu, mas quando notou que era mais fraco ele correu, mas não era necessário correr até despistar Tobias e sua gangue de malucos, ele precisava apenas correr mais rápido do que eu, assim Tobias se contentava em esmurrar apenas um garoto que no caso era eu...

– Preparado para perder Arthur? – indagou Helena confiante.

– Estou assim.

– Qual é, assim nem tem graça.

– Aposto que você não me vence. – Comentou João para entrar na conversa.

– Viu só, tem que ser assim, mesmo sem chance alguma de vencer tem que desafiar o adversário.

– Fica zombando, irei fazer você comer poeira.

– Como eu comerei sua poeira se irei estar à frente de ti?

O problema de João é que ele era competitivo demais, logo eles passaram as ultimas horas de preparação dizendo o quão eles são velozes.

Assim inicia a corrida, por ora eu estava na frente, por ora, no entanto todo mundo começou a me passar, primeiro Helena e logo em seguida João, após algum tempo correndo todo mundo havia me passado e logo achei que todos estavam rápido demais, mas na verdade eu estava lento demais.

Eu logo senti fisgada em minha perna, era só o que me faltava, as limitações do meu corpo iriam boicotar a minha corrida apesar de que eu realmente não tinha alguma chance para aquela corrida e se eu terminasse a corrida pelo menos já seria uma vitória.

Apesar de ser muito ruim na corrida eu pude apreciar a cidade como ela é. Como a maioria dos corredores não estavam nem sequer na minha visão eu decidi não me importar em ultrapassar alguém e assim iniciei uma caminhada.

Fiquei em último lugar obviamente com quase meia hora de diferença ao penúltimo lugar, tanto que quando eu cheguei havia um senhor varrendo o chão dos copos plásticos que as pessoas largavam no meio da corrida, para que largar copo plástico no meio da rua? Só falta criar um evento de maratona sobre não jogar lixo na rua e esse senhor voltar a varrer copo plástico na rua aí isso eu quero ver.

Helena e João estavam descansando na escadaria da igreja bebendo o resto da água de seus copos plásticos, Helena então recuperou o fôlego e logo disse.

– Eu achava que você era lento, mas também não tanto assim.

– Engraçadinho! Então, quais de vocês venceram?

Os dois se entreolharam e logo disseram quase ao mesmo tempo.

– Empate técnico.

– Apesar de que eu fui alguns milissegundos mais rápido que você – complementou João.

– Está de brincadeira não é? Eu reinei por toda a corrida, foi sorte sua ter empatado comigo.

E assim passaram o resto do dia discutindo quem chegou no primeiro lugar.

O dia havia terminado muito bem para o primeiro dia do evento, pois a organização havia arrecadado mais do que eles esperavam, e para mim posso dizer que foi uma experiência terrível.

– Aposto que amanhã não consigo nem sequer levantar na cama. – Eu comentei.

– Por isso vamos aproveitar os restos destes dias.

Ela pegou meu braço e me levou para uma churrascaria mais próxima.

Passamos o resto do dia conversando sobre a maratona em si e algo que notei nela foi que ela decidiu contar todo seu passado até mesmo para o João, mais tarde outros colegas de trabalho apareceram na churrascaria e logo se sentaram junto conosco apesar de que no fim eles não queriam sequer dividir a conta, foi um dia calmo para variar, mas logo o dia seguinte viria.

Meu corpo me castigou naquela manhã, acordei completamente travado por conta da maratona do dia anterior e mal conseguia mexer um músculo sem sentir aquela dor aguda por entre os nervos, era terrível e agonizante. Ao sair de casa eu logo vi Helena sentada sozinha no banco da praça perto do prédio onde eu morava, ela parecia estar avoada e segurava uma carta no canto do banco, eu não sabia o que havia acontecido e decidir averiguar por mim mesmo.

Eu me aproximei dela e quando ela percebeu minha presença decidiu de alguma forma esconder a carta.

– Aconteceu alguma coisa?

– Nada para variar...

Ela estava calada, achei estranho ela não compartilhar mais nada, nenhuma informação, com certeza alguma coisa havia acontecido.

– Vamos lá, pode me contar...

Ela permaneceu em silêncio encarando as crianças brincando no parque.

– Qual é, conheci até seu pai, agora tenho o direito de saber o que está havendo.

– Vou sair do país.

Aquilo foi um baque.

– Que legal você terá mais uma história para contar.

– Por tempo indeterminado.

Mais um baque.

– Normal, afinal de contas você tem sua carreira.

– Eu não entendo você, quer dizer, tudo que passamos...

Eu a interrompi dizendo o seguinte.

– Eu que não entendo você. Você cria uma lista maluca sobre melhores experiências de sua vida, logo me diz que iria me lapidar por ser um diamante bruto e começa com seus jogos psicológicos por certo tempo e agora se importa com que eu me importo? O que está errado com você?

Ela logo dá um sorriso fraco e diz.

– Tem razão, eu fui uma tola em acreditar nisso, me desculpe.

Ela se levanta do banco e decide voltar para casa.

– Para onde você vai?

– Para casa.

– Na sua tola, estou falando do país.

Ela me olha incrédula e logo diz.

– Alemanha.

– Ótimo, então me espere lá, pois daqui a um ano eu estarei lá, melhor dizendo dois porque tenho que aprender alemão primeiro, mas talvez...

Sou interrompido com um abraço afetuoso dela, aquilo me deixou sem graça e eu não pude continuar de dizer os meus planos do futuro.

– Eu vou esperar sim, eu prometo.

Sua voz abafada me trouxe para a terra novamente, ela logo me beija na bochecha e corre para sua casa, eu permaneço naquele parque por um tempo tentando processar tudo aquilo.

Algumas semanas depois todos do meu trabalho decide levar ela até o aeroporto, pelo fato do trabalho ter pouca gente era normal nos tratarmos como família afinal de contas nós passávamos muito tempo naquele escritório.

Antes de ela embarcar, Agatha pediu desculpas por ter julgado ela prematuramente, Rafaela agradeceu pelas “aulas” de entender melhor as pessoas até mesmo a comunicação corporal e Barnabé deu um forte abraço nela, João também desejou boa sorte a ela e assim eles retornaram a discutir sobre a maratona de três semanas atrás.

Só faltava eu para me despedir, não sou muito bom em despedidas.

– E então, vai me dizer alguma coisa?

– Desculpa, não sou bom em despedida.

– Vejo que você ainda não foi lapidado suficiente.

Eu sorri...

– Melhor dizendo, não vou me despedir.

– Porque não?

– Porque logo estarei lá para ti ver.

Ela sorriu de volta e me agradeceu a última vez.

– Obrigada...

E assim ela entra na porta de embarque saudando a todas as amizades que ela havia criado naquela cidade...