Contos Diversos Volume 1.

25 Terceiro Conto - Arthur e sua epifania


Terceiro Conto – A epifania de Arthur.

Capítulo Cinco – Fantasmas do Passado.

Aquele dia terminou Helena trazendo o jantar a mesa junto comigo João, mesmo que eu tenha interagido com ela muitas vezes e sempre irmos juntos ao serviço, eu visitei aquela casa uma única vez, a vez que fui entregar seu caderno com a lista das experiências de sua vida, mas pude notar uma certa mudança em sua mobília, talvez ela tenha mudado de lugar, isso explica o fato de que as duas da manhã eu podia ouvir móveis se arrastando e essa é um ponto fraco daquele prédio, as paredes eram finas demais e era possível ouvir os barulhos dos vizinhos como se eles tivessem fazendo esse barulho dentro de sua casa.

Eu percebi que ela estava receptiva demais, não é como se ela tivesse mudado de personalidade do dia para noite, apenas que ela estava mais tagarela do que de costume e João deixou seu espanto de lado e também interagiu com a conversa. Naquela mesa eu era o único calado.

– E então teve aquela vez que colocamos algumas biribinhas na mochila de um dos valentões.

– Sério? Eu não esperava isso de Arthur, ele parece uma pessoa tranquila.

– Tranquila? No ginásio ele era o capeta em pessoa...

Não era algo que gostava de me gabar, a verdade é que as pessoas mudam e eu logo percebi cedo de que eu estava sendo um grande tolo e logo deixei essa rebeldia de lado, mas não esperava ter deixado minha confiança no passado também.

– Tecnicamente quem planejou tudo foi João.

– Mas você depositou as biribinhas na mochila do valentão, logo você leva uma parcela de culpa. – complementou Helena.

– Não é algo que gosto de me gabar. – Eu não disse.

– Ora, para alguém que diz não ter histórias interessantes, você tem um bocado.

– Como eu disse. – Me levantei da cadeira um pouco nervoso com aquele interrogatório. – Essas histórias não são dignas de compartilhar, não entendo como podem dizer um ao outro um assunto desse tipo.

– Acalme-se Arthur, tudo está no passado.

– E no passado tudo deve perecer, ou sou o único que tenho vergonha de meu passado?

Ambos se entreolharam e logo percebi sua resposta antes mesmo de falarem, por qual motivo eu estava nervoso mesmo?

– Esquece, obrigado pelo jantar Helena, estava ótimo.

– Espera! Aonde você vai? Tem sobremesa.

– Só para rua, fumar um pouco.

– E deste quando você fuma.

– Ora, eu posso começar, não posso? Até logo.

E logo fechei a porta atrás de mim.

Meu passado era patético, e toda vez que eu relembrava esses momentos eu ficava nervoso e as emoções desabrochavam para fora de maneira que incomodasse muita gente, Helena não é esse tipo de pessoa, aliás, não sei que tipo de pessoa ela é, ela nunca compartilha nada, sua família, seus amigos, seu passado, seu presente, seu futuro.

Enquanto tentava fumar, afinal a cada tragada eu tossia mais do que fumava, essas perguntas vinham a minha mente.

Quem é ela?

– É sua primeira vez? – Indagou um sujeito de roupa social a minha frente admirando o transitar de carros.

–Só não estou acostumado a fumar. – Respondi.

– Entendo, desculpe o incomodo, mas conhece essa mulher? Eu estou a procurando.

Olhei para foto e quando consegui reconheci a mulher eu engasguei com mais fumaça e tossi até meus olhos lagrimejar, era Helena, afinal porque aquele moço estava procurando ela?

– Algum problema senhor?

Será que ela estava encrencada? Não me surpreenderia se ela fosse uma assassina em série fugindo pelo país.

– Desculpe em lhe perguntar, mas a um assunto particular para que você a procure?

– Nada demais, só queria conversar com ela sobre um assunto delicado, ouvi boatos de que ela estava construindo uma nova vida por aqui e quis mostrar a ela que ela não poderá deixar sua vida antiga para trás.

– Mas por quê? Porque tanta obsessão?

Ele tragou seu cigarro até ele virar puro cinza, expirou toda aquela fumaça e voltou a dizer.

– Ela é a principal culpada da morte de minha irmã.

Então a opção de que ela era uma assassina em potencial era verídica.

Aquela história parecia absurda, eu não acredito de certa forma que ela tenha assassinato uma pessoa e estar vivendo sua vida sem pagar pelos seus crimes, a polícia local não é tão falha assim, me lembro de uma vez que quando eu estava voltando do trabalho uma senhora havia sido assaltada e eu pude reconhecer o ladrão. Três semanas se passaram do ocorrido e esse mesmo rapaz eu pude ver os policiais o colocando no camburão, a cidade era pequena demais e caso alguém cometesse um delito, se a pessoa permanecesse na cidade, não demoraria em que a polícia o prenda e acredito que Helena não ficaria uns três meses vivendo sua vida sem ser parado pela polícia ou algo assim.

Seria aquele cara em busca de vingança? Era por isso que ele veio para esta cidade? Tudo aquilo não faria sentido de certa forma, eu talvez fosse acreditar naquela história se aquele mesmo sujeito tivesse vindo até mim com alguns policiais na sua cola, talvez a história fosse mais verídico.

Meus devaneios foram interrompidos por uma caixa pequena enrolada a um pano de prato posto por Helena em minha mesa de escrivaninha, pude olhar que ela não estava de boa aparência com o nariz vermelho (acredito gripe).

– Aceito essas desculpas por ter tocado em sua ferida.

– Eu que peço desculpa, minha atitude foi inaceitável de minha parte já que você estava promovendo aquele jantar. Você está bem?

– Estou. Só é um resfriado passageiro, vai passar.

– Devia ter ficado em casa, além de que esse escritório é praticamente um cubículo e abafado pode agravar sua situação, sem contar de que está expondo todo mundo nessa sala por uma doença indesejável.

– Porque está falando dessa forma?

– Dessa forma o que?

– Assim, todo formal.

Era meu problema, não conseguia esconder meu nervosismo e meu jeito de falar denunciava logo de cara e ela percebeu no silêncio desconfortante eu pude ouvir cochichos do “Obama” com a novata, sem contar que a turista estava nervosa por alguma coisa.

– Mal se passaram três meses e ela já está cozinhando para ele, alguma coisa aconteceu.

– Sim, e o jeito do gigante falar comprova de que realmente algo estranho está acontecendo entre esses dois.

– Não está acontecendo nada com nós dois, eu posso ouvir seus cochichos! – Bradei diante daquelas informações falaciosas. (Ótimo! Isso comprometeu até minha narração da história).

– Então, ti vejo hoje no parque?

– Sim, claro, treinar para a maratona, tudo bem...

Ela logo assentiu concordando e voltou a sua mesa, normalmente para uma pessoa comum ao saber sobre essa derradeira história iria fugir ou até mesmo denunciar ela, no entanto eu precisava de mais provas, no momento de que eu encontrasse com ela no parque eu irei começar a perguntar coisas de seu passado.

Naquele instante eu estava tão atolado com dúvidas que eu não podia deixar aquele momento passar, quando eu estava me dirigindo ao parque (tal parque onde eu sofri um ultimato por ela) a curiosidade vinha a minha tona ou então o desespero por me encontrar com um suposto assassino, mas quando eu pude encará-la, algo chamou minha atenção.

Um violão que supostamente deveria estar escondido atrás dela(mas sua curvatura o denunciava) e um sorriso sádico em seu rosto, então era isso, ela decidiu me matar com um violão, mas não acredito que ela não iria se destacar ao público me matando.

– Que bom que você chegou, eu quero pedir um favor.

É agora que irei sofrer as consequências.

– Pode falar. – O fato de eu gaguejar demonstrava meu nervosismo.

– Está vendo aquela mulher?

Ela apontou para uma mulher de cabelos curtos e roupas confortáveis tentando entregar panfletos para as pessoas que a ignoravam na cara dura, agora entendi, eu seria um cúmplice de um assassinato.

– O que tem ela?

– Ela está a três dias tentando entregar esses panfletos e não conseguiu entregar sequer um, as pessoas não se importam com o futuro dessa cidade.

Helena me entregou o panfleto e dizia sobre petição de doação para um orfanato próximo aquele parque, parece que esse orfanato está sofrendo problemas judiciários que impede que o estado dê subsídios para que ela continue em funcionamento, e para que o orfanato não feche e mande todas as crianças para outros orfanatos ou algo assim ela pede encarecidamente que doe alguma quantia ou alimento para o local.

– E esse violão?

– Bem, uma das histórias que João disse de você era que você aprendeu a tocar violão e já apresentou em um evento de escola, você pode por favor me ajudar, ou melhor, ajudá-la.

Ela me entrega o violão, fazia tempo que eu não tocava naquele instrumento, espero não ter perdido o jeito de tocar, atrás do panfleto vi uma certa partitura que eu deveria seguir.

– Você compôs uma música?

– Mais ou menos, mas a parte de canto é com ela...

Nós dois se aproximamos da moça que tentava entregar folhetos inutilmente e ela logo abriu um largo sorriso, abraçou Helena e voltou a dizer.

– Obrigada Helena, você realmente cumpriu o que prometeu.

– Sim, ele vai nos ajudar, ele é Arthur, Arthur, ti apresento Gisele.

Eu a cumprimentei com um aperto de mão e logo comentei.

– Então, eu tenho que fazer o que mesmo?

– Três dias atrás quando ela me entregou esse panfleto, eu disse para ela que a melhor forma de marketing é utilizar canções ou até mesmo jingle que seja fácil de decorar, eu então criei esse jingle e vamos tocar aqui no parque para chamar atenção de todos que passarem.

– Todos? – Estava envergonhado com a situação. – Mas nem sei se vou conseguir.

– Você vai sim, só acompanhar a partitura, nós devemos ser espontâneos para conseguirmos chamar a atenção.

Assim ela começou a cantar, sem ao menos uma música de fundo, eu rapidamente encarei a partitura e segui a canção de acordo com as notas, o som saía normalmente, parece que não perdi o jeito da coisa.

O jingle funcionou, as pessoas se amontoavam para acompanhar o show e pegar panfletos até que algum grupo tentou arriscar a cantar junto com Helena, o jingle era fácil de decorar e logo todo mundo cantava junto enquanto recebiam o panfleto de Gisele.

Depois de duas horas ela havia entregado todos os panfletos, no dia seguinte recebi a noticia de que o orfanato foi salvo da falência, não tinha notícia melhor do que isso, ao sair mais cedo de casa para seguir ao trabalho eu vi aquele mesmo sujeito que havia me abordado para perguntar sobre Helena, ele encarava para o apartamento dela e logo notei que ele deveria saber onde ela morava.