Contos Diversos Volume 1.

4 Primeiro Conto - Homem Máquina


Capítulo 4 – Culpado.

Nada foge aos meus olhos, esse lema não mais seria repetido por mim que deixará de ser o Lima. S deste então, agora, meu novo nome é Amili. J e eu seria apenas um catalogador e cuidaria de todas as advertências no painel central. A notícia que um grupo de amadores invadiu a central não chegou à mídia aparentemente e as pessoas andavam confusas o fato do dia em que os executores sem explicação pararam de funcionar durante cinco minutos, eles até tentaram recorrer alguma informação sobre esse problema, mas o estado não permitiu logo eles retornaram aos seus afazeres.

Era notável reparar que nem mesmo as pessoas conseguiam me reconhecer, ou melhor, eles nem sabiam que eu existia, apenas que eu estava lá monitorando todos ao meu redor e logo por conta de uma simples falha tudo se torna novo, minha vida, meu trabalho e minha história. Muitas vezes naqueles dias eu realmente sentia medo que um executor pudesse me reconhecer, eles passavam direto de mim e rezava para que isso não acontecesse e logo notei que queria amaldiçoar a vida de todos que compunham contra o sistema, o alicerce de minhas crenças havia sido danificado e agora a ponte pendia em cair de uma vez, mas sempre havia um pouco de concreto que o permitia deixar em pé.

As advertências vinham em inúmeras telas que me cercavam em tempo real, sempre com uma notificação, que seria as letras, além da informação extra, o tipo de infração que ele levou, tentei procurar nesse mesmo banco de dados às informações das advertências de minha antiga vida, mas lá também havia sido apagado, contudo, meu perfil era um dos únicos nomes limpos naquele catálogo, algo raro em se discutir.

O tempo foi passando e minha paranoia de ser reconhecido foi cessando aos poucos, logo quando notei no rank (muitas vezes eu passava no centro da cidade e nem o verificava) eu estava em sexto, entrei em desespero, não queria fazer o teste e em algum lugar no meu cérebro dizia que era perigoso prosseguir daquela forma.

Nos dias seguintes eu me esforcei para que eu caísse no rank, com todas as formas possíveis, deste em chegar atrasado ao trabalho e até mesmo não vir, na semana seguinte quando a tela atualizou as novas colocações (o rank atualiza semanalmente) notei que eu estava em décimo terceiro, décimo terceiro era um bom rank.

O rank é constituído de acordo com o serviço proposto, antigamente eu estava no rank de ciências exatas, que contava com mais de quinhentas pessoas disputando as primeiras colocações, logo ficar em décimo primeiro não era tão ruim, ás vezes em alguma semana ou outra, quando o rank atualizava, eu caia praticamente umas cem posições, é realmente complicado se manter entre os dez primeiros durante um ano.

Agora, como trabalhava na área de serviço público, o rank era bem menor, não chegava a cem pessoas o que tornava muito perigoso e mais fácil do que o rank anterior em se manter entre os dez primeiros existia outras listas além deles, acredito que mais de cem listas onde as pessoas lutam para se manter entre os dez primeiros durante um ano.

É por isso que os dez primeiros necessitam de passar um teste teórico e prático para que apenas um seja escolhido a receber a recompensa, tal recompensa que a verdade advertiu que seria basicamente ser convertido em uma máquina, ou ciborgue para os mais íntimos, Isso explica porque em meu setor, Matheus enlouqueceu ao descobrir que passou no teste, de alguma forma ele soube da verdade e logo acreditou que seria morto, e seu cérebro serviria como uma inteligência artificial para o sistema, pois eles acreditavam que apenas as pessoas hábeis pudesse ser a mente “pensante” deles.

Eu começava a não acreditar nisso, talvez Matheus, como eu, tivesse sofrido a mesma lavagem cerebral que eles, manipulando vídeos e fazendo você acreditar que todos nós éramos administrados por uma inteligência artificial sem a interface homem máquina, que somos subjugados deste que éramos uma criança por uma simples maquina que pretende converter todas as pessoas que eles consideram inteligentes em máquinas, era muita loucura para uma única história.

Certo dia, meu cérebro entrou em um modo automático e quando percebi eu estava no setor de monitoramento, setor que eu trabalhava antes de meu perfil ser apagado por completo, decidi voltar para rua, afinal, aquilo era passado e provavelmente as pessoas que trabalhavam comigo talvez não se lembrasse de mim, mas naquele dia, um simples gesto me trouxe a tona à mesma paranoia de antes, uma paranoia onde alguém conseguia me reconhecer e logo me julgar como criminoso, onde os executores me capturariam e me torturariam até o leito de minha morte.

– Lima. S é você?

Mesmo de costas para a voz, eu pude reconhecer como pude esquecer, ou melhor, como pude ser tão burro em pensar que ninguém iria me reconhecer, talvez as pessoas dos setores de administração não me reconheceriam ao trabalhar lá, eu só era um numero misturado em milhões, no entanto eu fui ingênuo o suficiente em acreditar que nem mesmo as pessoas da área de monitoramento não pudessem me reconhecer, eu trabalhei nesse setor durante doze anos.

– Estou falando com você Lima.

Com toda a certeza ele iria me entregar apontar uma área do perfil onde meu nome havia apagado e eles iriam descobrir o perfil falso, decidi correr por toda a cidade com o intuito de despistá-lo, mas logo notei que ninguém me perseguia, no instante que olhei para trás para averiguar o que eu estava pensando eu acabei me chocando contra um executor. Era rígido feito mármore, chocar-se contra um executor era o mesmo sentimento em que você se choca contra uma parede sem querer, o executor nem se moveu enquanto eu era jogado no chão por conta da ação e reação.

O executor me encarou, um dos olhos pendiam a cor amarelada, e estava prestes a se tornar vermelho, mas logo voltou ao verde e ele voltou a me ignorar, as luzes amarelas na órbita dos executores diziam além de que era para você manter cuidado, também dizia que ele estava pesquisando seu perfil para notar alguma incongruência, como meu perfil não tinha nada demais, ele me ignorou.

Aquele dia eu não fui trabalhar, fui direto para casa pensar na situação, como fui idiota em ir ao mesmo local de trabalho quando eu era Lima. S, agora tudo estava perdido.

A voz que eu identifiquei era do Johan, um amigo, na verdade ele é o amigo de Lima. S, no momento que meu perfil mudou eu deixei de ser eu mesmo.

Passei horas pensando, sem ligar qualquer aparelho, na penumbra, as vozes e barulhos da rua permeavam aquele local, deixava aquela área com um clima mais vivo, mesmo acreditando que não passaria vivo já que alguém me reconheceu, era questão de tempo para que ele me denunciasse e eu fosse morto.

Um filme passou na minha cabeça, era a insanidade efetuando minha mente ameaçada pelo sistema, logo as dores daquelas torturas vinham ao meu corpo, penetrando meus ossos, eu não queria mais sentir aquilo novamente, e se eu não fizesse algo eu voltaria para aquela sala novamente e seria torturado até o momento que eu revelasse o paradeiro dos membros da “verdade”.

Alguém bateu na porta, aquela voz me perseguia, era Johan e de alguma forma se lembrava de onde morava.

– Eu realmente quero entender o que está havendo, tentei procurar seu perfil no banco de dados e não achei, e os executores não ti caçaram ainda, pois bem.

Uma folha passou por debaixo da porta.

– Me encontre, caso queira conversar, sabe, com um amigo.

Pude ouvir seus passos na escada e logo tudo ficou em silêncio, me levantei da cama e peguei aquele papel.

Aquele papel continha um endereço, data e horário, um local onde eu poderia me encontrar com ele e explicar tudo que havia acontecido, ou uma forma de eu ser entregue aos executores, caso fosse mesmo uma armadilha eu precisava fazer algo sobre isso.

Mas ele não precisava criar uma armadilha, era só avisar para o sistema que ele se encarregava de me encontrar, talvez ele apenas queira entender o que está havendo, explicando para ele, ele vai concordar e manter em segredo.

Nada disso, o fato do sistema não ter subjugado ele ainda é porque ele é de total apoio, o sistema não tem escrúpulos contra aqueles que o ameaçam e por isso seria impossível ele permanecer vivo.

Todavia, acredito que eu esteja equivocado, talvez ele descubra a verdade graças a minha prosa e assim podemos incentivar outras pessoas a aderirem uma revolta generalizada.

É óbvio que é uma armadilha, porque eu estou hesitando, eu estou lutando por vida ou morte, e para isso eu preciso fazer uma única coisa.

Matar Johan.

Fui até a cabeceira, e peguei um revolver, um revolver simples que eu escondia em caso de emergência, passado de geração a geração, ainda estava carregado, escondi em minha cintura e abri a porta. Os raios incandescentes cegaram meus olhos, mas logo me acostumei com aquela luz, notei que o encontro seria daqui a duas horas.

Após incontáveis devaneios e pensar no certo ou errado eu decidi de uma vez.

Matar Johan, e sobreviver, viver mais um dia sem ser descoberto.

Aquele era o meu legado, e era uma questão de vida ou morte.