Contos Desbotados
1 Da água da sabedoria

Seus finos lábios encostavam no vidro frio da janela. Seus grandes e acinzentados olhos se perdiam em meio a rua, as pessoas, as casinhas, os prédios, as nuvens. Uma pequena gota escorreu do lado do seu rosto. Mas do outro lado. “Chuva”, pensou a garota. E de fato choveu alguns segundos depois. Ela então esboçou um sorriso, satisfeita.
O silêncio foi cortado pelas gotas que batiam na janela, molhavam as flores dos vasos, escorregavam nos guarda-chuvas desesperadamente abertos, escorria nos carros. De repente. Um corvo molhado grasnou na janela, do lado da garota. Mas do outro lado. A garota rompeu de seu gostoso transe e saltou para trás, adotando uma pose que lembrava um felino. O corvo respondeu a garota com uma espécie de risada. A garota arreganhou os dentes e o pássaro tornou a rir novamente. Ela sorriu, respondeu como achava que o pássaro esperaria.
O corvo atrevido começou a dar bicadas constantes no vidro, entre uma batida e outra podia-se ler “Deixe-me entrar”. E ela o fez. Abriu. E o corvo logo pulou nos braços da menina. Suas patas tinham garras afiadas que marcaram a pele da menina deixando um rastro esbranquiçado em sua pele já esbranquiçada. Ela respondeu a dor com uma careta. O corvo riu. Ela pensou no quão sádico poderia ser um pássaro, levantou em sua mente uma tese em poucos segundos: Imaginou-se num palco repleto de intelectuais dos quais todos aplaudiam o seu grande feito, na sua mão um livro de título “Das gaiolas dos pássaros às gaiolas humanas”. Mas logo voltou a realidade, pois concluíra que qualquer livro com título de tal espécime só resultaria em discussões desnecessárias na internet. O corvo aninhou-se no ombro da menina. Parecia que a entendia. “Me chamo Odin”, disse a menina. E logo tomou seu discurso:
– E, portanto, lhe declaro meu primeiro Hugin. E digo a verdade quando falo que me chamo Odin. Infelizmente, para mim. Até mesmo sendo deusa de Asgard... É difícil sair todos os dias para saber tudo de todas as pessoas. Mas gosto de saber o que acontece no mundo, Hugin. Ah, sim. Gostou de seu novo nome, não é? Com certeza o teu outro era bem mais feio que este. Sinta-se agradecido, filho. Agora. Ao passar a chuva: voe, e voe alto. Mais alto que possa. Corte os céus com tuas asas negras e desvende as inverdades desta cidade. Eu a olho pela janela e com esta chuva só posso ver borrões como uma míope. É verdade que das belas distorções pode-se concluir coisas bem mais divertidas que a própria verdade, mas… Gosto de ver os dois lados da coisa. De saber da mentira e da verdade. Pois assim se mente e assim se diz a verdade, tão como pode-se reconhecer e diferenciar uma da outra. Hugin, por favor. Nunca minta para mim.
Hugin parecia sorrir. E sua risada tranquilizava o coração da garota. Quente. O corvo pôde sentir os raios do sol encostarem em suas penas encharcadas. Balançou-se. E em pouco tempo tomou seu voo. Rápido, alto e livre. Livre. Dois minutos e tudo que o corvo era se tornou um risco negro no céu acinzentado. Os raios de sol incendiavam as nuvens cinzas e destas saía as outras mais escuras como fumaça.
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