Contos Desbotados

2 A História Do Dragão Dourado


Notas iniciais
Assim como o título, esta estória tem o mesmo nome que a música "Te Story Of The Golden Dragon" de Estas Tonne. E a ele devo esta estória, pois nela me inspirei e escutando ela a pude construir. Recomendo que depois, ou até mesmo durante, escutem a música já citada. É de agrado aos ouvidos e de companhia a leitura.

Todos se reuniam ao pé da montanha onde tombou os últimos dragões, porém, o cheiro indescritível e os gritos monstruosos vindo do topo fez com que os vilarejos se atentassem para uma nova era dos répteis alados. Muitos tentaram desvendar o pico da longeva montanha e tombaram junto a suas espadas e escudos.

Não obstante, um jovem, que não passara de seus vinte anos bem amadurados, quis pôr a prova sua honra e coragem. Possuía uma cicatriz na bochecha esquerda e que os cabelos castanhos pouco cobria. Estive lá. Pude ver em seus olhos um fervor inigualável, um fogo que não poderia ser extinguido, todavia, pergunto-me: Será o dragão de engolir tal fogo? Ou engasgarás junto ao teu próprio?

Muitos o perguntavam o porquê de tanta determinação. Percebi em meio a tanto olhares que o rapaz a tal pergunta tomava outro olhar, um mais frio. Morno. Diferente do olhar obstinado de até pouco. Ele carregava consigo uma espada belamente adornada enquanto nas costas estava presa uma alabarda e, na canhota um escudo. Seus punhos cerraram com força suficiente para fazer as luvas e juntas de sua armadura completa rangerem, num aço frio. Ele então respondeu.

– Em função de um amor – Olhou para o topo da montanha, desenhando calmamente o trajeto decrescente.

Muitos praguejaram, moças conversavam aos sussurros. Talvez achassem loucura ir atrás de um dragão “em função de um amor”, e de fato o é.

O rapaz então subiu em sua bela potranca malhada e pôs a subir a montanha. O caminho era estreito, porém sua égua conseguira se desdobrar nas quebradiças repentinas, galhos na altura da vista e ocasionais ataques serpentinos. A trilha tortuosa resultava numa área descampada, as rochas ainda tinham gelo sobre as partes mais pontiagudas e a grama rala estava amarelada. O cavaleiro engoliu em seco ao ver o dragão na ponta do rochedo.

Era dourado. Lindo como nenhum outro ilustrado pelos grandes artistas, como nenhum outro citado nas mais belas baladas e tão pouco possa ter um pingo de como era em tão poucos poemas que existiam. As escamas de seu corpo brilhavam feito ouro e de fato valiam mais que qualquer peça de ouro; os olhos eram terrivelmente prateados, frios e sinceros ao mesmo tempo. Enquanto os chifres enfeitavam a bela cabeça achatada da fera. Fera esta que se levantou de seu repouso a beira do precipício e fixou seus olhos estreitos no cavaleiro.

O cavalo se inquietou relinchando incessantemente. O rapaz o retomou a postura e tão logo avançou em direção ao dragão que o esperava pacientemente; seu cavalo inclinou-se, correndo como um raio cortando os céus. O descampado se tornara menor a cada galope que o cavaleiro conquistava, até sua montaria ser acertada pela cauda do dragão. O cavaleiro tombou junto a égua já morta, equilibrou-se com ajuda da alabarda e usou o escudo para aliviar o impacto, levantou logo se desviando dos golpes furiosos da fera. A longa cauda se erguia e balançava-se no ar, ora mirando-o a cabeça, ora as pernas. Sua alabarda sibilou no ar pela primeira vez no combate, acertando as grossas escamas do réptil, o golpe sem efeito custou-lhe um golpe da pata do monstro em seu flanco esquerdo. A patada o projetou no ar e em poucos segundos seu corpo se rebatia no chão, quebrando parte de sua armadura e de sua força.

No chão, minava seu sangue de dentro da armadura. Talvez, uma ou duas costelas se partiram no trajeto e algumas pedras entraram em sua carne. Suas pesadas mãos rasgavam o chão, lembrava de sua amada. Esta era uma elfa, e a ela prometeu retornar com a cabeça de uma fera digna de ser oferecida a seu pai como presente; era loura, como a maioria das mulheres élficas. Olhos serenos e a boca entreaberta, como sempre. Gostaria de lembrar-se da última vez que tocou proibidamente os lábios dela, mas sua mente avermelhava-se. De dor e de sangue.

Levantou-se, cambaleando. Retomou sua postura de batalha, a fera o esperava, arrastou sua destra até a espada que acompanhava sua cintura. Correu desajeitadamente até começar a ter convicção de cada movimento, agarrou o escudo preso ao chão. Defendeu-se do ataque do monstro que cuspia fogo, metal derretido, mas suas chamas foram abafadas pelo escudo que o cavaleiro carregava. O rapaz desviara de cada investida do monstro, a bocarra tentou-o pegar. Infalivelmente esquivou-se de poucos centímetros da maior presa do dragão. Brandiu a espada num urro desesperado, cortou verticalmente a face do monstro. Feriu-o um dos olhos, o cegando. O rosto do rapaz já estampava um sorriso ingênuo e neste pequeno gesto não pôde ver a cauda cheia de espinhos lhe acertar o peito.

O pontão rasgou seu peito, atravessando a armadura de aço e destroçando seus órgãos. A adrenalina alucinante escondeu sua dor, de sua boca escorria o sangue que de seus pulmões já estavam cheios. Agarrou a cauda tentando debilmente retira-la. Já era tarde demais. Fechou os olhos e sussurrou na língua antiga algo que gostaria de dizer a sua amada.

Não sinto...

A dor que nos condenava.

Porém, vejo agora a morte que nos separa”

E então, levei-o em meus braços, calmamente. Satisfeita com a luta, satisfeita com a fala. Levei-o até sua paz, pois é isso que faço. Assim deve ser a morte.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.