Contos De Uma Louca Mente
5 A assassina da tesoura
Notas iniciais
POV VÍTIMA
Eu comecei a correr.
Bem, não faz sentido ficar parado se uma adolescente maníaca está te perseguindo com uma tesoura nas mãos. Eu estava correndo, ela atrás de mim.
– Correr com tesouras nas mãos é perigoso, sabia? – eu disse, irônico e ofegante.
– Não se importe com isso – Ela disse, rindo – Logo ela estará segura... dentro de você!
Depois de dizer isso, ela começou a rir que nem uma maníaca, o que me deixou bem desconfortável e me deu um arrepio.
Só aquela floresta de noite já era o suficiente para me dar arrepios, mas o pior foi quando a risada dela não estava mais atrás de mim. Estava em todas as direções. Eu parei de correr e olhei em volta, apontando a minha lanterna para todas as direções que eu olhava.
“Que diabos é isso...?” eu pensei.
As árvores eram finas e altas, naquele momento em especial, negras. A única fonte de luz que eu tinha além da lanterna era a lua e as estrelas. Eu estava ofegante, ela estava me perseguindo desde a cidade e eu estava a um bom tempo correndo, meus pés estavam dormentes e minhas coxas doloridas.
De repente, ela me pegou de surpresa. Eu finalmente pude vê-la... mas tinham várias dela, que me encurralavam em um círculo. Eu examinei rapidamente a assassina.
Ela parecia uma adolescente normal, devia ter uns 18 anos ou mais e andava na minha direção como se nada houvesse acontecido. Ela... ou melhor, elas (ja que haviam várias dela) estavam usando uma blusa de mangas curtas azul com um decote em “V” por cima de uma blusa de mangas que iam até seus pulsos preta e que cobria um pouco do seu pescoço. Seu cabelo ondulado e marrom era repartido no meio e caia sobre seus ombros, mas estava totalmente bagunçado. Ela usava uma bermuda jeans com grandes bolsos no fim e um tênis de cano longo preto. Notei que ela usava um cordão com um pingente oval de madeira.
– Hora da diversão – todas as cópias riram.
Eu fui chegando para tráse acabei batendo em uma árvore enquanto ela se aproximava mais e mais e...
As cópias começaram a sumir, uma por uma, e quando ela estava a ponto te me tocar... ela sumiu.
Eu suspirei de alívio, mas logo senti um arrepio. Havia alguém atrás de mim...
– Estou aqui – Ela sussurou na minha orelha.
A partir dai eu enlouqueci e saí correndo de novo, mas acabei dando de cara em uma árvore.
POV CASSANDRA
Dei um tapa na minha própria testa.
– Esses humanos ficam cada vez pior. Alguém me explica essa falha na evolução, por favor – eu disse, caminhando em direção ao corpo do homem que tinha dado de cara na árvore.
Ele estava no chão, mas eu não podia ver o seu rosto, então virei-o na minha direção levemente colocando minha mão no seu ombro, para não acordá-lo.
– Essas vítimas fazem todo o trabalho por mim – eu disse inspecionando o corpo – Luke!
Alguns segundos depois Luke saiu de algum lugar, empurrando folhas e galhos, fazendo barulho.
– Peguei ele. Ou melhor, ele sepegou pra mim.
Ele deu uma gargalhada, e eu meti a mão na boca dele.
– Ele vai acordar assim – Eu disse contendo minhas risadas. Luke tinha um riso bem estranho — Vem, me ajuda aqui a carregar esse cara.
POV VÍTIMA
Eu acordei em um quarto escuro e úmido, amarrado em uma cadeira de madeira com cordas nos pulsos (meus braços estavam para trás) e nos pés. Tinha fita isolante na minha boca e eu sentia um gosto metálico. Uma lâmpada solitária no quarto não fazia seu trabalho muito bem, ela parecia velha e gasta.
Eu deveria estar no meio do quarto, pelo que pude ver. A minha frente, no canto esquerdo de uma das paredes havia uma porta. Eu não vi nenhuma janela e o quarto era todo de cimento, não havia nem piso nem madeira. Havia algo no chão, e quando fui tentar tocar — seja lá o que fosse — com meus pés, notei que estava descalço.
Olhei para baixo. Minhas roupas... estavam diferentes. Eu usava uma camisa muito grande para mim, branca mas muito suja e rasgada, uma calça verde acizentado escuro, sem bolsos pelo que parecia.
A porta abriu um pouco e uma fresta de luz iluminou o quarto um pouco, fazendo meu coração acelerar. Mas... a porta não havia se aberto totalmente, alguém a segurava, pronto para entrar, mas virado de costas — eu podia ver pela sombra.
– ... Tudo bem, eu ... diversão ... podia ter ... hora de fazer o meu ... talvez nós dois ... aniversário de morte ... estarei ocupada ... tia Annie ... pensar.
Foi o que eu consegui distinguir do que a pessoa falava. Depois disso percebi... era aquela garota que me perseguiu. Assim que a porta se abriu por completo, eu apertei meus olhos para ajustá-los a claridade que vinha de fora.
– Não se preucupe, vamos permanecer no escuro. Assim é mais legal – ela disse fechando a porta.
Assim que eu abri meus olhos, vi ela bem na minha frente, com um sorriso macabro no rosto. Isso me fez tentar gritar, eu arregalei meus olhos e quase cai para trás com o susto. Ela segurou a cadeira.
– Wow, calma aí parceiro – ela riu e foi para algum lugar atrás de mim.
Eu pude ouvir barulhos metálicos de ferramentas batendo umas nas outras.
...
Bem, nós dois (eu e você) sabemos muito bem que aquelas coisas não eram só ferramentas.
Ela voltou, e para a minha surpresa, sentou no meu colo. Meus olhos estavam tão arregalados que iriam pular das órbitas. Tudo que ela fez foi rir.
– Hhmmm! – eu tentei falar algo.
– Que tal a gente começar? – ela disse, aquele largo sorriso me deixando louco – Desculpe por ser tão curta e grossa, mas seus cortes serão diferentes, não se preocupe – ela se levantou e eu notei as tesouras na sua mão novamente. As lâminas eram muito grandes. Muito mesmo.
Ela chegou perto do meu rosto e pressionou a lâmina da tesoura na minha bochecha esquerda, deslizando para baixo desde as maçãs do rosto até a altura da minha boca. O corte era profundo e queimava, eu queria gritar. Minhas lágrimas escorriam pelo corte, fazendo tudo muito pior. Eu fechei meus olhos. Não estava aguentando aquilo, isso tinha que ser um pesadelo. Por favor alguém me acorde. Por favor, socorro!
Ela ria cada vez mais alto, o que me incomodava muito.
– Abra os olhos – ela disse – Olha, se você acha isso ruim... não viu nada.
A dor estava quase me matando, aquele corte ardia e doia imensamente. Ela olhava para mim com satisfação, como se estivesse fazendo uma escultura. Ela se aproximou de novo. Ai meu Deus, socorro! Alguém me ajuda!
Ela cortou minha outra bochecha, devagar, mas sem diminuir a intensidade. Jesus, aquilo doia. Eu rezava mais que qualquer padre naquele ponto, Deus, Alá, Buda, Zeus, qualquer um. Eu só queria a salvação.
Eu chorava e soluçava. Ela se aproximou de novo. O que ela ia fazer agora? Cortar minha testa?
Não. Ela limpou minhas lágrimas. Suas mãos se sujaram de sangue.
– Shhh... não chore... não há motivo.
Por favor, alguém me mata logo. Eu não estou aguentando! Eu só queria que ela me desse um tiro e acabasse com o sofrimento, mas ela piorou a situação. Ela começou a fazer um corte na minha coxa direita, e era muito profundo.
Eu gritei agonizado. Aquele ardia muito mais, e ela fazia lentamente, sem pressa. Ela parou antes de se aproximar do joelho, e quando eu olhei para baixo eu quase vomitei. O corte era gigantesco, havia sangue em tudo. A partir daí, eu desmaiei.
POV CASSANDRA
Eu limpei o suor da testa com as costas da mão.
– Essa sessão foi maravilhosa! Bem relaxante – Eu removi minhas luvas ensopadas de sangue.
Voltei até a escrivaninha, onde a cabeça da vítima 5271 estava. Coloquei dentro da caixa e fui até o corpo. Totalmente mutilado, havia sido uma incrível noite. Eu me sentia totalmente revigorada. Coloquei o corpo na lareira para apagar as provas e tomei um banho, dei boa noite para Luke e tia Annie e fui dormir.
No dia seguinte, acordei bem cedo, coloquei uma calça jeans, meus tênis, blusa com mangas compridas e meu cachecol. Peguei a caixa da vítima 5271 e saí para caminhar.
O dia estava nublado, o céu cinzento. Uma brisa leve passava de vez em quando, não estava nem muito quente nem muito frio, perfeito.
~Cemitério Rio Gally~
Eu entrei e caminhei pela grama verde e macia. Um rio corria no fim do cemitério, haviam várias árvores e algumas mesas e cadeiras de pedra. Parecia um parque, era bem agradável ficar ali. Um ótimo lugar para pensar.
Parei em frente ao túmulo do meu pai.
– Ei. – Eu disse com um sorriso triste – Feliz aniversário de morte. Tem um ano e meio agora... Bem, eu trouxe um presente – eu deixei a caixa no túmulo – Eu sei, não é lá essas coisas... Mas é de coração, pensando em você – fiz uma cara feia e cuspi na lápide.
A vontade que eu tinha era de revivê-lo e matá-lo. De novo.
– Adeus. Bem, eu venho daqui a seis meses. Ainda aguardo pelo nosso encontro final no inferno. Sim, estou me preparando para isso – dei uma pequena risada – e eu vou ganhar de novo.
E com isso, fui em bora. O coitado do coveiro iria levar um susto ao ver a cabeça do empresário mais famoso da cidade no túmulo do meu pai, com certeza. Mas não importa, tem muitas outras lá em casa.
Sai então, pela calçada de cimento naquela manhã cinzenta, de volta para casa.
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